LIÇÕES DE PEDAGOGIA

Luiz Antonio Simas, brasileiro máximo, meu irmão de fé, respeitado professor de História, é pai de primeira viagem do carioquíssimo Benjamin, que completa amanhã, 21 de maio, dois meses de vida. Garoto de sorte, o Benjamin. A mãe é uma doçura que começa pelo nome – Cândida. E o pai, um caboclo sabido demais, conhecedor dos mistérios do invisível, que carrega nos olhos verdes toda a sabedoria ancestral que nos remete à mata brasileira e sua imensidão encantadora. Pois o Simas, que anda numa alegria comovente por conta do moleque recém-chegado, escreveu um tratado anteontem em seu imprescindível blog, o Histórias Brasileiras. No texto, afirma que “o medo é um instrumento pedagógico da maior eficácia na educação de uma criança”. Só por conta dessa curtíssima transcrição ouço daqui os sapateados histéricos de educadores, pedagogos, psicólogos, quadros do PSOL e quejandos. Mas o que quero lhes dizer hoje é o seguinte: concordo inteiramente com o bardo tijucano, morador da aldeia Maracanã, cuja oca dista pouco mais de 1km da minha. Mas vamos às minhas razões.

Lendo o texto a que fiz referência, e que pode ser lido na íntegra aqui, percebo que os medos que geraram reações pânicas no menino Luiz Antonio foram os mesmos que me foram plantados, enterrados em mim como sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues).

Eu era um menino. Uma de minhas tias, casada com um irmão de minha avó, a tia Noêmia, tinha uma casa em Campo Grande, zona oeste da cidade, num condomínio chamado Clube 34, tratado como sítio por toda a parentalha. Pois havia, no tal Clube 34, uma piscina enorme, redonda, funda, e não houve um só dia em que eu não ouvisse de meu pai a frase que gerava uma concordância unânime entre as tias:

– Cuidado na piscina! Olha o garoto que morreu sugado pelo ralo! Morreu, ouviu? Morreu!

E sempre fui, na piscina em Campo Grande, um menino de olhos esbugalhados diante da possibilidade da sucção fatal.

Eu era um menino. Papai me dava semanada, nunca me deu mesada (vá entender). E dizia, todos os dias, ao me deixar no portão da escola:

– Compre sua merenda na cantina, viu? Apenas na cantina! Esse moço da carrocinha coloca cocaína nas balas que vende. Sabe o que é cocaína?

Eu, trêmulo, com a pequena mochila no colo no banco de trás do carro, dizia que não. E papai, soturno pelo retrovisor:

– É um pó, meu filho, uma droga. Vicia. Vicia e mata. Como o ralo das piscinas, entendeu?

E na hora do recreio eu comprava meu Mirabel na cantina e olhava, com intensa piedade, para os colegas que atravessavam o portão em direção à carrocinha, como se fossem pré-cadáveres à beira da morte.

Eu era um menino. E exatamente como o mestre Luiz Antonio, evitava ir ao banheiro sozinho durante as aulas. Lá estava, é claro, a Belmel, a loura defunta, de algodões ensangüentados nas narinas, disposta a vingar o filho que morrera antes dela.

Eu era um menino, e assistia sempre, estarrecido, um diálogo recorrente entre minha bisavó, Mathilde, e minha tia (sua irmã), tia Idinha. Leque fremindo numa das mãos, dizia minha bisavó:

– Idinha, espia. Não vá esquecer do espelhinho quando eu morrer.

Tia Idinha fazia o sinal da cruz:

– Pidôca, isso se você morrer antes. Se eu morrer antes, veja lá, não vá esquecer do espelhinho!

Dava-se o seguinte: o ator Sérgio Cardoso, cujo corpo havia sido exumado, fora encontrado de bruços dentro do caixão. A tampa do dito cujo estava marcada, por dentro, pelas unhadas vigorosas que o pobre-diabo dera depois de acordado a sete palmos do chão, fruto do desespero diante da situação. Vai daí que espalhou-se pela cidade, pelo país, o pânico. Ser enterrado vivo era o medo súbito de toda uma geração. E minha bisavó tinha a tática infalível:

– Idinha… Você não se importe com a reação da assistência na capelinha. Aproxime-se de meu corpo e deixe durante um bom tempo o espelhinho diante de minhas narinas. Se embaçar é batata. Estou viva. Não pemita que fechem o caixão, entendeu?

Eu, molecote, tinha pesadelos horripilantes.

Numa só noite eu estava nadando no Clube 34 e era sugado pelo ralo. Dado como morto. Velado por uma família inconformada. E acordava aos berros quando me percebia vivo no caixãozinho já fechado. Noutra noite, atravessava o portão do colégio e comprava uma bala Soft na carrocinha. Era um zumbi, minutos depois, flechado pelo vício da cocaína e fadado a viver por aí perambulando em busca de mais pó. Noutra noite, ainda, eu era acometido por uma diarréia violenta durante a aula de Estudos Sociais e sentado no vaso do banheiro do colégio Palas via agigantar-se diante de mim o vulto impressionante da loura assassina.

Uma infância tranqüila, como se vê.

Hoje, percebo tristíssimo que são pueris os medos da garotada. Medo de que se quebrem os controles do Wii. Medo de que caia a conexão da banda-larga. Medo de que sejam hackeados os perfis do Orkut ou do Facebook. Medo de que acabe a bateria do celular no meio da rua… Uma falta absoluta de encantamento, uma ausência completa de um pânico-humanizado capaz de mostrar à molecada a finitude do homem, sua falibilidade e seus limites.

Entro, pois, de cabeça, na campanha lançada por Luiz Antonio Simas. Meus afilhados que se cuidem. Os filhos e filhas de meus amigos, de meus vizinhos, todos que se preparem!

Até.

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22 Comentários

Arquivado em confissões

22 Respostas para “LIÇÕES DE PEDAGOGIA

  1. Daniel A. de Andrade

    Essa coisa do ralo me levou à memória da escolhinha de natação da AABB. Eu era bem garoto, e, nadando de um lado para o outro da piscina semi-olímpica, sempre acelerava quando estava passando pelo ralo, por mais cansado que estivesse. Além de quase invadir a raia ao lado. Abs.
    Daniel A.

  2. Renata Werneck

    Edu querido. Seu texto é ótimo e o do Simas também. Concordo plenamente com a eficácia do medo na educação das crianças. Agora, quero registrar detalhes importantes: a onipresença da loura-defunta – tenho certeza de que a que aparecia no seu colégio é a mesma que aparecia no banheiro do 3º andar do Colégio Nossa Senhora do Amparo em Barra Mansa (sim, lá ela escolhia o banheiro, o que nos dava certa tranquilidade para optar e boa folga para as faxineiras neste ambiente); a rede do tráfico das carrocinhas – acho que todos os vendedores eram de uma mesma quadrilha; e as piscinas eram todas possuídas por seres do mal da mesma família habitantes dos ralos. A diferença está no cuidado para não se enterrar o cidadão vivo: lá nas minhas bandas, a solução não era o espelhinho e sim uma agulha que deveria ser espetada no tendão de aquiles do presunto, pois a dor seria tão insuportável que até uma pessoa em “coma” teria uma manifestação (meu pai já nos fez jurar que não o enterraremos sem este teste). Grande bj.

  3. Rita Valente

    Parabéns Eduardo,
    é muito bom ler um texto assim, com sensibilidade.
    Sabe, ainda tenho medo de deixar as pernas ou as costas no vazio. Foram as estórias, nas noites frias , contadas pelas visitas na cozinha de meus pais em MG. Ainda supero, medo de gato devido a estórias cruéis, contadas nas aulas de catecismo e, por aí vai….
    Será essa, a tal evolução dos tempos???
    vou , com sua licença, publicar no Face, ok?

  4. Roberto Fraga Jr

    Edu,

    Em 1976 (com oito anos de idade), eu morria de medo de prender a manjubinha no ralo da piscina do Clube dos Funcionários do hoje extinto IBC (Instituto Brasileiro do Café).

    Creio de 99,99% dos homens na faixa dos 35/45 tiveram a mesma fobia!

  5. Olivian Moioli

    Edu, tento criar meu filho com estes medos da nossa época…ele acredita no homem-caixote, que rouba crianças e faz sabe o que? Dá apenas maionese hellman’s pra elas comerem…ele acredita q teve uma menina da rua debaixo que passou uma semana comendo maionese pura hahahaha…morre de medo hahahaha!

  6. A loura do banheiro não é do meu tempo. Mas o vendedor de balas traficante e o ralo da piscina já existiam na década de 60, quando eu era criança.

    E concordo, um pouco de medo dá esperteza à criança.

  7. Eu fico me perguntando quantas crianças no mundo morreram presas no fundo da piscina, porque, olha, no meu caso foi uma menina, cujo ralo – malvado e impiedoso – puxou-lhe os cabelos e PAF, morreu! Foi o suficiente pra eu nunca querer brincar de encostar a barriga no fundo da piscina (anos mais tarde fiquei presa numa banheira de hidromassagem, caso que contei aqui). Esses ralos são um perigo!
    Os pobres vendedores de bala, na minha época, também eram traficantes perigosíssimos, que recheavam todas as balas com cocaína, só pra gente ficar viciado e sustentá-los depois. (mas que coisa, todos os pais pensavam as mesmas coisas? será que um dia eu vou dizer isso pro Francisco também?).
    Mas, olha, o meu pavor era o terrível e abominável homem do saco, que atacava em todos os cantos da cidade, exceto na frente do meu prédio. “Juliana, cuidado, filha. Não sai daqui da frente senão o homem do saco vai te pegar!” E eu chamava todo mundo pra brincar ali, que era o único lugar no mundo onde o famigerado não ousava pisar! O curioso é que a única vez que eu teimei, passou um mendigo na rua carregando um saco enorme (enorme na visão de uma criança, não devia ser tão grande assim) e eu nunca vou esquecer o pavor que eu senti. Juro que me imaginei ali dentro, junto de um monte de crianças, apavorada com a ideia de nunca mais voltar pra casa; eu gelei. Nunca mais passei da esquina. Pelo menos até descobrir que o homem do saco não existia. E no dia que eu descobri eu fiquei com pena do mendigo, porque eu saí correndo gritando socorro! Que horror, pobre homem!
    Sabe, Edu, eu tenho muita pena da geração de crianças de hoje, porque além do medo de perder o conforto dos objetos, os medos delas são de coisas reais. Tiros, pedófilos, sequestros. Não que isso não existisse na nossa infância (porque merda existe desde que o mundo é mundo, e se a gente levar em conta que não vamos mais assistir homens se degladiando em arenas – e absurdos semelhantes – a gente até que evoluiu bastante, mas antigamente a gente não recebia esse turbilhão de informação que a galerinha de hoje recebe todos os dias, e que faz a vida ficar um pouquinho mais difícil).

    Beijo, Edu!

  8. A pessoa não comenta, a pessoa faz um post nos comentários! /o\

  9. Renata

    Ah, a loira do banheiro… Nasci em 87, o que me fez crescer numa escola pública dos anos 90. Já não acreditávamos, a maioria de nós, em muitas dessas histórias, mas a loira do banheiro foi um problema…

    Me lembro da “inspetora” (era assim que chamávamos, ao menos aqui no interiorrr, os atuais “monitores de alunos”), Dona Clara, mais respeitada que outro qualquer, causava medo. Dona Clara sempre dizia que a loira, a mesma que numa mesma semana dos anos 80 assustou uma garota e um garoto que se escondiam no banheiro para não ver aula, e ambos desmaiaram de imediato, descansava no depósito do porão. Ela jurava, JURAVA, que sempre se encontrava com a tal loira, mas como era adulta não acontecia nada – já que a loira só não gostava de crianças e adolescentes. É que foi morta por duas garotinhas do ensino fundamental, lá no banheiro feminino. Enfim, pode imaginar o medo.

    Fui criada, no entanto, crendo que monstros e assombrações eram tão reais quanto papai noel e coelho da páscoa. Nunca acreditei neles. Fui uma criança cheia de imaginação, sonhos, desejos, medos. Mas meus medos sempre foram de não conseguir boas notas, de cair da escada, de não me tornar uma boa adulta, de jamais conseguir entender aquela tal Divina Comédia que “com certeza não era o tipo de piada para crianças de 9 anos, mesmo as dedicadas na leitura como eu”… Enfim, não tive o prazer dos medos infantis. Mas, por um tempo, tive medo da loira. Até que um dia, depois de muita reflexão, no final de um intervalo (momento em que a loira dormia no depósito, para nos momentos de aula voltar ao banheiro), passando pelo depósito, soltei um grito: A LOIRA NÃO EXISTE. Argumentei, pela suposta razão de criança que se tornou adulta muito cedo para certas coisas, que não era possível para qualquer explicação racional.

    A loira não existia mais. E deu-se a desgraça. Crianças não paravam de pedir banheiro, o depósito era invadido, ninguém ouvia mais as histórias de Dona Clara.

    Que vergonha…

  10. menezesmario

    Sou da época da mulher de algodão e do mascarado, que sequestrava crianças que ficavam de bobeira em frente a escola depois da aula.
    Sempre tinha dúvida e em consequencia um pouco de medo também. Alguns ficavam preocupados com a volta pra casa desde a chegada a escola.

  11. Grande Edu, mais um belíssimo post seu. Esse porém, cercado de fatos interessantes, verdades absolutas e algumas coincidências. Antes quero fazer apenas uma correção, pode parece loucura (mas não é), aqui da minha janela vejo o Clube 34 (rs) que fica em Nova Iguaçu e não em Cpo. Grande.

    Passou o Quartel de Fuzeileiros, Viaduto Oscar de Brito (ou Viaduto dos Cabritos mesmo…rs) saiu da Av. Brasil, logo, logo chega o tal Clube, que aqui no bairro (colado ao clube) sempre foi referência do que era ser Playboy. Acredite vc, fui criado embaixo dos mesmos medos e quando a gente ia nadar na piscina do sítio onde minha vó era caseira, sabe de onde ela dizia ser a menina que morreu sugada pelo ralo? Lá do Clube 34…rs
    Vida longa ao Edu,
    Abs
    Fábio.

  12. Mas a história da balinha com cocaína não foi verdade verdadeira? Quando eu tinha uns 9 anos (1990, portanto), a grande imprensa chegou a noticiar que haviam encontrado cocaína em balas da Van Melle (alguém lembra disso?)

    Será que uma mente perversa e criativa resolveu transformar em realidade o que era lenda urbana?

  13. marinildac

    Ri muito, mas concordo totalmente com o(s) mestre(s)! Joguei melão do 13º andar e desci com meu filho de quase 2 anos pela mão pra mostrar o que acontece com criança que sobe em janela. Nunca desperdicei dinheiro com grade. Fiz várias coisas parecidas, meti medo mesmo.

    Fiz matéria sobre venda de maconha em porta de escola nos anos 60 e acredito piamente em balinhas com cocaína.

    • Lufeba

      Coitado do Marel. Nunca mais subiu na janela nem comeu melão.

      • Marco Nascimento

        Hahah, nunca subi em janela, mas andei escalando o Morro da Urca de vez em quando. E não gosto muito mesmo de melão.

  14. Pingback: MAIS MEDOS, ALICERCES DO CARÁTER | BUTECO DO EDU

  15. Pingback: MINHA MÃE É UMA MULHER DE PEITO | BUTECO DO EDU

  16. Casé

    Edu,

    Esse seu texto me fez lembrar de outra estória apavorante que meu pai contava.
    Ele dizia: Não pegue cigarro de ninguém na rua, se oferecerem cigarro diz que não quer. Eu moleque, com meus 10 anos de idade, não entendia patavinas do desespero do meu pai e perguntei o porquê de não poder aceitar o cigarro.
    Ele respondia : Pode ser maconha. Se você quiser fumar, me pede que eu compro um maço para você.
    Durante um bom tempo também achei que seria abduzido pelo uso de entorpecentes e andaria feito zumbi nas ruas.

    Abraços,

    Casé

    • Jô do Carmo

      Edu,
      Ri litros aqui. Muito bom seu texto.
      Faltou o tal de “tiradores de sangue” que abordavam as crianças na saída da escola em um carro preto. Lembra?
      Os pais diziam não peguem carona e nem conversem com ninguém estranho, porque…

      Abraços

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