PAPAI TAMBÉM É FÓBICO

Ontem lhes contei aqui sobre uma das fobias de meu compadre e dileto amigo, Leonardo Boechat.

Hoje, já que o assunto – fobia – ficou me rondando durante a noite, volto ao tema. Meu pai, um homem que carrega nos bolsos uma quantidade impressionante de frases feitas, como já tantas vezes lhes contei por aqui, tem lá, também, suas reações pânicas (quem não as tem?). Hoje – sonhei com sorvete – quero lhes relatar o que se passa quando mamãe serve sorvete de sobremesa.

Vamos ao cenário. Podem estar à mesa apenas nós, os 3 filhos, as noras, papai e mamãe; pode estar também a Rainha da Prússia, num dos tantos jantares de cerimônia que mamãe promove. Pode ser uma noite de festa, dezenas de convidados espalhados pelos sofás da ampla sala, apenas a comida à mesa. O que ocorre – aguardem! – é sempre a mesmíssima coisa. A fim de simplicar o teatro (não-ficção, que fique claro), estamos apenas nós, a pequena família, à mesa. É um jantar.

Mamãe servirá o vinho e disporá os pratos no grande centro da mesa quadrada, sobre uma portentosa bandeja giratória. Brindamos, comemos, até que em dado momento eu pergunto:

– O que tem de sobremesa, mãe?

E quando ela diz “sorvete”, dá-se a bulha. Há toda uma festa de farfalhar dos guardanapos, pés que sapateiam por baixo da mesa de mármore, talheres fazendo os pratos de xilofone, uma tensão já de todos conhecida. Papai bufa sempre que mamãe anuncia, piscando para os três filhos:

– Sorvete!

Desse momento em diante – quero crer que por conta da ansiedade pela graça de sempre – todos à mesa aceleram seus movimentos. Jantar terminado, ajudamos todos a retirar os pratos, os talheres, trazemos os pratos de sobremesa, os talheres, mas justo quando a sobremesa é sorvete é papai quem sai atropelado em direção à geladeira no exato instante em que está tudo pronto para servi-la.

Ele mesmo abre o pote e começa a ladainha:

– Gente, rápido! Caso contrário, o sorvete vai virar sopa!

E aí, como somos (como todas as famílias) olimpicamente implicantes, a coisa demora. Mamãe serve-se primeiro. Papai arranca a colher de sua mão e a entrega para mim:

– Rápido, Eduardo! Vai virar sopa!

E dá-se o mesmo com cada um de nós…

De fato vai, o sorvete, derretendo. E papai derrete junto, geme, diz coisas ininiteligíveis entre dentes que rangem até que, desoladíssimo, como se fora viúva saudosa de um general de pijamas, recolhe o pote, levanta-se e toma a direção da cozinha bufando:

– Sopa! Virou sopa!

Houve, certa feita, um jantar de cerimônia. Mamãe trabalhava numa empresa de cosméticos, americana, e ocupava alto cargo. Parênteses.

Mamãe pode receber a Rainha da Prússia, rajás, ditadores, astros de Hollywood, não importa: papai estará descalço, o tempo todo descalço, exibindo os pés que lhe renderam, na infância, o apelido de Abominável Homem das Neves. Fecho e continuo.

O presidente da tal empresa e sua mulher (diretora não lembro do quê) eram os convidados, os homenageados da noite. Eram – o quê?! – 30, 40 convidados. Mamãe contratou serviçais, alugou castiçais de prata russa, louças inglesas, talheres impressionantes, contratou uma banqueteira de mão cheia, e havia faisões, cascatas de camarões (fazem um sucesso na Tijuca que eu vou lhes contar…), melões cortados imitando aves e o diabo. Para agradar o casal homenageado, mamãe mandou preparar o quê?! Sorvetes. E tinha sorvete de creme, sorvete de caqui, de tangerina, de limão, de todas as frutas tropicais (mamãe achou chique oferecer comida típica). Terminado o jantar, recolhida a louça pelos empregados, vieram à mesa, em suportes também de prata, os sorvetes. Mamãe visivelmente tensa (eu e meus irmãos acompanhávamos tudo pela fresta da porta do corredor). E quando o presidente (não lembro seu nome nem à fórceps) solicitou à mocinha de uniforme um dos sorvetes (penso que era o de caqui), papai parecia em transe do outro lado da mesa. Fazia gestos em direção à menina – que não entendia nada – e dizia, sem emitir um som, em busca da compreensão da leitura labial:

– Rá-pi-do! Vai vi-rar so-pa!

Até.

12 Comentários

Arquivado em confissões, gente

12 Respostas para “PAPAI TAMBÉM É FÓBICO

  1. Oh! Edu. Só você pra me fazer rir. Pois as vesperas do meu aniversario, dia 27/abril, data importante!!!, eu estou sempre vivendo o "inferno astral", como dizem. Mas ler seus textos sempre me agradam muito. Beijos, Mirtes.

  2. Sensacional, Edu. Por aqui, não sei se posso declará-lo fóbico, mas a paranóia do meu Eduardo com o sorvete que derrete é de irritar. Bjs.

  3. Olá, Sr. Eduardo Goldenberg! Sou uma eleitora-fiel-e-anônima do seu blog. Depois de anos – eu disse anos! – pela primeira vez venho a público para parabenizá-lo. Motivo? Se minha visão não me traiu, penso que o vi por esses dias no estacionamento do Planetário, na Gávea. Se não fosse tão tímida, até arriscaria um "adoro o buteco do Edu!". 🙂

  4. Oi, Edu! Sou leitora assídua do seu blog há tempos! Só não me pergunte como cheguei aqui, pois é uma longa história.Por que apareci? Simplesmente porque o vi por esses dias no estacionamento do Planetário, na Gávea. Se não fosse pela timidez, teria me saído com um "adoro o 'buteco do Edu'!". Fica pra próxima. Hahahahaha

  5. Talita: muito possivelmente era eu mesmo! Há, ao lado do Planetário, um Juizado Especial – e eu tenho ido bastante até lá. Da próxima vez, apresente-se!

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  9. hahahaha! Adorei! E pensar que aqui em casa eu sou a que fica esperando o sorvete virar sopa, às vezes até apresso o processo, mexendo com a colher! Seu pai ia ficar maluco!

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