MINHAS AVENTURAS NUM TÁXI

Pois bem: como lhes contei aqui, na sexta-feira, realizei ontem, no domingo, um de meus sonhos de infância. Assumi, às 14h30min, a direção de um táxi, oferecimento do incrível e gentilíssimo Júnior, um tremendo boa-praça (o trocadilho é de propósito, ele que é um taxista dedicado). Às 20h30min estacionei o Zafira, tinindo de novo (lavado na manhã de domingo), na garagem de meu prédio. Subi o elevador com os olhos cheio d´água e disse à minha menina, que me esperava ansiosa na poltrona da sala:

– Foi gratificante demais…

Eu, que sou preciso do início ao fim, farei – conforme o prometido – o mais amplo e abrangente relato dos fatos passados durante as 06 horas de percurso. Fiz 12 corridas, percorri diversos bairros, transportei 34 passageiros, rodei 145km gastando R$ 24,30 de gás e voltei pra casa com R$ 181,70 limpinhos no bolso (o Júnior, que não cabe em si de tanta gentileza, não me cobrou um centavo por isso).

Antes, quero lhes contar uma (apenas uma) passagem envolvendo o Júnior. E vocês me dirão se ele é ou não é o maior motorista de táxi do planeta.

Acho que foi em 2006. Eu ainda tinha um Tipo 1.6, ano 1992, quando decidi viajar, na Semana Santa, para Visconde de Mauá. Eu dirigindo, minha menina no banco do carona, e Alex Justo, um amigo nosso, no banco de trás com o Pepperoni. No começo da Via Dutra, na altura da Casa do Alemão, o carro apagou. Um mecânico chamado às pressas deu o diagnóstico: alternador pifado. Já passava das oito da noite, o que significava ser impossível solucionar o problema na hora. Liguei pra minha oficina de confiança, na Penha, e em 40 minutos estávamos sendo rebocados para lá. No trajeto, liguei pro Júnior. Pedi que fosse, se possível, nos buscar na oficina para nos levar de volta pra casa.

Chegamos na oficina e lá estava, já, o Júnior. Ao perceber que tínhamos bagagem, disse:

– Ué, vocês iam pra onde? Pra quê essas malas?

Resumo da opereta: Júnior nos deixou, passava da meia-noite, em Visconde de Mauá, na casa de nossa prima, que nos esperava. E não nos cobrou – eis o que eu queria lhes dizer – um mísero centavo pela corrida de mais de 150km, o que inclui a brutal serra que liga Penedo à cidadezinha na serra. Não quis dormir na casa (“Amanhã eu pego cedo!”) e creio que isso basta para desenhar-lhe o perfil. Vamos ao domingo.

Eu sou – além de preciso – obsessivo. Minhas manhãs de domingo são iguais há sei lá quantos anos! Por isso estava às 07h30min na porta do Mundial, para as compras da semana. Do Mundial, pra feira. E da feira, fui ao Aconchego Carioca, da minha mui-amada Kátia. Lá chegando, encontrei o Russo, seu irmão, que tem uma chácara e um horto, montando o jardim da área externa do Aconchego, um canto bacana demais.

Ficamos ali – o quê?! – umas duas horas de papo. É quando gosto de ir ao Aconchego. Antes mesmo da casa abrir. Bebendo cerveja estupidamente gelada, pondo as conversas em dia com essa craque que é a Kátia, evitando, assim, enfrentar o mais que merecido sucesso que a casa alcançou, sempre cheia e com muita fila na porta.

Voltei pra casa – estava ansiosíssimo, sentia-me com 12 anos de idade a caminho do parque de diversão – guardei as compras, tomei banho, escolhi e pus a roupa (“Tá bom assim, amada?”), abri uma Cerpa Tijuca e pus-me a esperar, com a paciência de um menino de 12 anos de idade, o bom Júnior chegar (havíamos marcado às 14h).

Às 14h20min toca o interfone e eu desço, aos atropelos, de escada mesmo. Lá estavam o Júnior, Viviane, sua mulher, e a pequena Giovanna, com menos de um mês de vida. Trocamos as chaves (ele ficou com meu carro), recebi pequeno curso (como ligar e desligar o taxímetro, como emitir recibo, como perceber que o gás está acabando etc.).  

Faço a confissão: ao sentar-me à direção, pus-me a chorar. A vista turva, as mãos trêmulas, as memórias que me vinham em torrente, as pernas bambeando – “Coragem, balofo!”, disse de mim para mim. E se o amor só é bom se doer a saudade só dói de forma bonita se provocada. Tomei a direção da rua São Francisco Xavier 84, e embiquei o carro diante do portão de ferro da vila onde moravam meus avós, minha bisavó, o seu Mário. Achei que se entrasse pra falar com a dona Isaurinda eu sucumbiria. Dei ré e ganhei o asfalto da Tijuca.

Primeira corrida: peguei 5 passageiros na Conde de Bonfim, quase em frente ao Morro do Borel. Todos negros, duas senhoras, um homem e duas crianças. “Vamos prum pagode no Clube Garnier, no Rocha, sabe chegar lá?”. Eu sabia. Desci a Conde de Bonfim, peguei a Maracanã, Vila Isabel, a Mangueira, o viaduto de Benfica, dobrei pro Rocha e cheguei na Ana Néri. No caminho, uma das senhoras ia dizendo pros filhos prestarem atenção ao trajeto. Disse-me à certa altura:

– Os dois querem ter um táxi, como o pai deles…

Deixei-os, R$ 18,00.

A segunda corrida havia sido tratada por telefone. Fui buscar mamãe no Alto da Boa Vista.

Esperei-a na garagem do prédio e tomamos a direção da Praça da Bandeira. O valor da corrida foi de R$ 16,00. Assim que deixei mamãe avistei o sinal de um casal em frente ao Rampinha. Ele de camisa do Flamengo, nordestino, e ela vestindo um short minúsculo, mini-blusa:

– Deixa a gente na passarela da Rocinha, moço? Pelo Rebouças, por favor.

Essa corrida foi hilariante: o sujeito foi pelo caminho contando que na quarta-feira também começa a trabalhar na praça (mas atentem para o detalhe):

– Tem uns PMs lá no morro que alugam táxis apreendidos pelo DETRO, por trinta reais, da meia-noite às seis. Dá pra ganhar algum, e eles dão cobertura pra qualquer problema.

Atravesssei o Rebouças, peguei a Lagoa-Barra, o túnel Zuzu Angel e deixei-os na passarela, recebendo R$ 26,00 pela corrida.

Parei num posto mais à frente para fumar um cigarro e decidir o que fazer, já que em São Conrado ninguém toma táxi no meio da rua. 

Fiz o retorno, caí no Leblon. Em frente ao Jobi peguei um casal com um casal de filhos:

– Praça General Osório, por favor, em frente ao Carretão.

No caminho, a família discutia sobre um apartamento que provavelmente haviam acabado de visitar. O pai dizia que estava bom o preço pedido, de 2 milhões de reais. O menino reclamou a falta de um cômodo para um escritório. A mulher sugeriu que fizessem uma contraproposta de 1,750 milhão. A corrida foi uma reta, curta, custou R$ 8,80 e o homem deu-me uma nota de R$ 10,00 dispensando o troco.

Descobri que as corridas curtas são infinitamente mais vantajosas que as mais longas. Vão tomando nota!

Assim que saí da General Osório e entrei em Copacabana, um casal de gaúchos entrou no carro. Iam pro Leme, pra um hotel. Uma vez mais, uma única reta. Corrida de R$11,00 – deu dez e pouco, fiquei com o troco. Quando dobrei a Gustavo Sampaio e entrei na Atlântica, três mulheres, uma delas em cadeira de rodas.

– Graças a Deus, meu filho! Com essa cadeira, só mesmo carro grande. Pode ser?

Ajudei a pôr a cadeira no porta-malas e tomei a direção do Humaitá, pouco depois da Casa de Espanha. Cruzei a Real Grandeza, corrida curta também, R$ 15,00. Deu treze e pouco, a senhora dispensou o troco e só faltou me beijar por ter ajudado com a cadeira de rodas. Entrei no Rebouças, desci o Cosme Velho. Em frente à estação do Corcovado, um casal. Americanos. Com a língua enrolada, disseram:

– Por favor, Sushi Leblon. Do you know?

– Yes! – sou um poliglota.

Deixei-os na Dias Ferreira em frente ao restaurante, corrida de R$ 29,00. Durante o trajeto o homem tentou me vender um iPhone 3GS. Exibi o meu e agradeci. Eu estava – incontestavelmente – com sorte. No final da Dias Ferreira, em frente a um apart-hotel, um casal de paulistas fez sinal. Estavam indo parta o Santos Dumont.

– O senhor sabe se o Aterro já está aberto?

– Já, sim senhor.

– Vamos por lá, então. E pegue a Atlântica, por favor.

Foi a corrida mais longa, custou R$ 33,00 ao casal. No trajeto eles foram me perguntando se o trânsito era sempre daquele jeito no Rio, esculhambaram o trânsito de São Paulo, me pediram que mostrasse o hotel no qual hospedou-se o Obama. Saí do aeroporto e fui pro Centro. Inacreditavelmente cinco jovens fizeram sinal em frente à Maison de France. Três ingleses e duas moças francesas. Uma delas disse:

– Glórrrrria, porrrrr favorrrrr.

Corridinha curta, R$ 9,00. Tudo pago em moeda!

Era hora de abastecer. R$ 24,30 por pouco mais de 15 metros cúbicos de GNV, num posto da rua do Matoso. Na esquina da Matoso com a Haddock Lobo peguei um rapaz, 15 anos no máximo:

– Pro Tijuca Tênis Clube!

– Tem jogo lá? – perguntei.

– Nada! Tem é festa. Mulher pacas!

Perguntou se eu era casado e mandou uma hilariante:

– Pô, que azar! Até tu, que é tio, pode ser dar bem lá. A mulherada tá louca, tio! Louca!

A corrida custou R$ 7,00. Desci a Conde de Bonfim. Na esquina da rua do Bispo com a Haddock Lobo, cinco jovens. Dois rapazes e três meninas (belíssimas, diga-se).

– Shopping Tijuca, tio!

Mais R$ 10,00. Na porta do próprio shopping, mãe e filha pra Santa Alexandrina, meiúca entre o Rio Comprido e a Tijuca.

Fui ouvindo elogios às UPPs, às melhores condições de segurança do bairro, deixei mãe e filha na porta de casa por R$ 12,00.

Dirigir um táxi é uma cachaça. Uma adrenalina permanente (vem mais passageiro?, corrida curta?, corrida longa?) e decidir a hora de parar é bastante difícil. Constatações evidentes nessa primeira experiência: todos foram muito gentis comigo, todos. Todos cumprimentaram ao entrar e sair do táxi. Todos arredondaram para cima o valor da corrida. Poucos puxaram conversa, e senti que não é exatamente oportuno o motorista fazê-lo.

Ontem mesmo, durante a narrativa do dia pelo twitter, meu mano Bruno Ribeiro, de Campinas, vaticinou: “Se eu conheço o Edu, ele vai querer repetir a experiência”.

Ele estava certíssimo. Se tudo der certo e se assim os deuses permitirem no dia 10 de abril, dia do batizado da filha do Júnior, pela manhã, assumo a direção do táxi mais uma vez.

E pra fechar: os quase duzentos reais que faturei, ontem, não pagam, nem de perto, o prazer, ainda que tardio, da realização de um sonho de infância.

Até. 

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10 Comentários

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10 Respostas para “MINHAS AVENTURAS NUM TÁXI

  1. >\o/Ê coisa boa, Edu! A gente tava na maior espectativa, esperando cada tuitada, pra saber se você estava feliz! E aí a gente ficou feliz junto! ;)))

  2. >Que legal, Edu.É engraçado, porque meu pai trabalhou na praça por 3 ou 4 anos, e todos os dias ele chegava morto. As vezes trabalhava 15, 18 horas seguida, mas SEMPRE cheio de histórias pra contar. Eu, particularmente, adoro taxistas. Sabem de tudo e não sabem de nada. Pena que em São Paulo é tão caro andar de taxi.Saudade, Edu. Fique com Deus.

  3. >Sensacional pegar uma caroninha nesse táxi. Parece não haver rotina nunca!

  4. >Que beleza! Como você conhece a cidade! Até o Clube Garnier, no Rocha! Que bom que foi tudo bem na questão de segurança. A preocupada aqui sugere que você faça o exame. Se a PM te pega (que incrível a história da PM alugando táxi apreendido!) o Júnior é que fica sem o carro, né? Beijo e obrigada, me diverti demais! Adorei saber que foram todos gentis!

  5. >Do caralho, velho. Do caralho.

  6. >Edu, papai foi motorista desde moço, desde que chegou do Ceará, de navio, para trabalhar na Guanabara. Sempre foi meu grande mestre de ensinamentos certeiros, da vida inteira em paz. Hoje você também é um. Beijo,

  7. >Que delícia de relato e deexperiência. Até eu fiquei com vontade de apanhar esse táxi e esse motorista :)Ah, fiquei também cok vontade de voltar a comer aquele bolinho de feijoada… hhmm!Beijos e saudades grandes vossas e do Rio!

  8. >KKKKKK!!!Sensacional, Edu!!!Você é um grande figuraça!!!Parabéns pelo blog, sempre!!!

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