UM SONHO DE INFÂNCIA REALIZADO

Em agosto de 2008, durante um de meus tantos arremessos ao passado, aqui, falei sobre a dona Isaurinda e seu marido, o seu Mário, já falecido. O seu Mário, descendente de italianos, dividia-se entre a função de taxista (função que, em priscas eras, era exercida quase que exclusivamente por portugueses) e a de jornaleiro (função até hoje exercida por italianos). Tinha um TL (e eu posso jurar que era vinho e não amarelo, como os táxis de hoje) e sua banca ficava na Conde de Bonfim, entre a Praça Saens Peña e o Largo da Segunda-Feira, na Tijuca. Era pai de quatro filhos e morava na mesma casa em que até hoje reside a viúva, dona Isaurinda, que fica numa vila na rua São Francisco Xavier 84, onde moravam também, no tempo de minha infância, meus avós e minha bisavó. E faço a primeira confissão: de vez em quando saio vagando a pé e estaco diante do portão da vila, porque até hoje está plantado ali o menino de calças curtas e camisas listradas que insiste em viver dentro de mim. Abro o portão que tantas vezes me viu indo e vindo e vou tomar a benção da dona Isaurinda.

Feito o intróito, vamos ao que quero lhes dizer: eu tinha verdadeiro fascínio pela rotina do seu Mário, um carcamano torcedor do Fluminense. Ele ocupava, naquela vila (e vilas são pequenas cidades), uma posição importante, quase que de patriarca da molecada. Além disso, provia a casa de meus avós de toda a sorte de revistas, semana após semana. Voltava, à noitinha, chegando da banca de jornal que mantinha na Conde de Bonfim, trazendo jornais e revistas – e para a molecada, sempre, toda a sorte de revistas de sacanagem (que naquela época mostravam um pedaço do peito, um pedaço da bunda e olhe lá!). E mais fascínio, ainda, eu tinha pelo táxi. Um TL, sempre tinindo, e o taxímetro – hoje vendido a peso de ouro nas feiras de antigüidades – Capelinha no painel.

Diversas vezes o seu Mário deixou a garotada – eu, inclusive – atravessar a vila dirigindo seu táxi. Ele ficava no banco do carona e dava a marcha-ré para que outro, e depois outro, e depois outro, experimentasse o prazer de dirigir.   

Não sei quando foi, em que dia, em que momento – por mais que eu tenha me esforçado antes de sentar-me aqui para lhes dizer isso – estacou-se dentro de mim o sonho de ter um táxi – ou um lotação, que era como minha bisavó se referia a táxi até morrer, em 1982. Era a profissão que eu almejava ter. E vamos a mais uma confissão: papai, um homem que anda com centenas de frases prontas no bolso da calça, sempre nos dizia, a mim e a meus irmãos, quando éramos pequenos (diz até hoje, diga-se a verdade):

– Quando eu era da idade de vocês eu queria ser caminhoneiro…

Vá entender – me permitam fazer a blague – essa obsessão rodoviária da família!

Eis então que domingo, depois de amanhã, mais de 30 anos depois, realizarei, ainda que por um dia, o velho sonho da infância. Graças ao Junior, o melhor, mais competente e prestativo motorista de táxi do mundo, queridíssimo meu, estarei a bordo de um Zafira, rasgando a cidade à espera de mãos e braços aflitos em busca de condução.

Mas o tempo se dobra, meus poucos mas fiéis leitores. Embarco nessa, a bem da verdade, não em busca de mãos e braços aflitos à espera de uma condução.

Sentar-me-ei no táxi – e antevejo uma cena de novela mexicana… – vinho (a tal pátina do tempo, como nos ensinou Blanc, transformará o amarelo em vinho) em busca do menino de calças curtas e camisas listradas, do Capelinha no painel no lugar dos taxímetros de hoje, em busca de meus avós, de minha bisavó, do seu Mário, da minha infância, repositório imortal e permanente de meus afetos duradouros e perenes.

Até.

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6 Comentários

Arquivado em confissões

6 Respostas para “UM SONHO DE INFÂNCIA REALIZADO

  1. >Finalmente, um taxista comunista neste mundo! Amém!Beijos mil.

  2. >Meu bisavô Moreira, português atarracado, daqueles que emendavam as orelhas no pescoço, foi burro-sem-rabo e chegou a ter um táxi. Meu avô Moreira, brasileiro, carioca, suburbano, filho desse português com uma basca de Bilbao, também foi taxista, ou melhor, chofer de carro de aluguel, como ele dizia. Meu pai foi taxista por 12 anos, rodando só pela noite. Acho que um dia terei um táxi também, só pra seguir com a sina familiar.Abraço!

  3. >Edu, vc tem realmente o dom da palavra. Parabéns pelo texto e a memória compartilhada. grande abraço mineiro

  4. >então? como foi? ACarlos

  5. >vai escrever bem assim lá no buteco do Edu! linda história, Edu.abração,Bruno.

  6. Pingback: HÁ 30 ANOS… | BUTECO DO EDU

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