DO DOSADOR – BALANÇO DO CARNAVAL 2011

* Eis que chegamos ao final de mais um Carnaval. Quero, pois, dose por dose, fazer o balanço do que vi e do que ouvi durante o tríduo momesco. Quatro dias em Cabo Frio – da manhã de sábado à manhã de terça-feira – atento às notícias (vi, do começo ao fim, todos os desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) me permitem, penso eu, falar com alguma propriedade sobre tudo. Vamos por partes;

* uma vez mais a Rede Globo estraçalhou, de forma abjeta, o prazer do telespectador, chamado por uma repetitiva Ana Paula Araújo (apresentadora do RJ TV) de “pessoal de casa”. Poucas coisas são mais simples do que transmitir o desfile das Escolas de Samba pela televisão: uma meia-dúzia de câmeras espalhadas ao longo da avenida, um único apresentador para dizer o mais-simples e um ou dois comentaristas entendedores do riscado para comentários entre uma escola e outra. E o que a Globo nos ofereceu? Na “ancoragem” – termo estúpido que eles usaram diversas vezes – Luis Roberto e Glenda Kozlowski, egressos do mundo do futebol. Ele, narrando os desfiles como quem narra uma partida de futebol. Ela, que em seu twitter pessoal mandou um bloco de rua do Jardim Botânico pra PQP – está aqui, pra quem duvidar, prova efetiva do quanto gosta de carnaval, a moça – deu um show de histeria durante todo o desfile, tanto o de domingo quanto o de segunda-feira. Ria, gargalhava, dava gritinhos, fazia ohs e ahs capazes de irritar, profundamente, o telespectador. E as imagens? Tenham em mente uma coisa: os carnavalescos pensam um enredo e os colocam na avenida numa determinada ordem lógica a fim de que se tornem compreensíveis para quem assiste. O que faz a abjeta Rede Globo? Exibe tudo na ordem que a ela convém. Daí você é obrigado a ver o terceiro carro antes do primeiro porque naquele está um astro da emissora. Outro troço irritante, de dar nojo: Luis Roberto e Glenda Kozlowski conversavam o tempo inteiro e foi simplesmente impossível para quem assistia de casa ouvir o canto da escola, a bateria da escola. Mais grave: tirando a Mangueira e a Beija-Flor, todas as outras escolas não foram mostradas durante um dos momentos cruciais, o grito de guerra, o canto que dá início ao desfile. Eu, salgueirense de quatro costados, não pude ver a saída da escola… Graças à transmissão da Rede Globo. Tem mais, tem mais: no chamado “estúdio Globoleza”, Ana Paula Araújo comandava o quadro de comentaristas. Quais comentaristas? Chico Pinheiro (sabe bastante, falou pouquíssimo), Teresa Cristina (triste ver a cantora fazendo aquele papel modorrento durante os desfiles), Haroldo Costa (sabe muito, falou pouquíssimo) e, como destaques negativos, Fernanda Abreu (que entende tanto de samba quanto eu, de física quântica) e Hélio de La Peña (que não conseguiu acertar uma só piada). Vai daí que os desfiles eram interrompidos para que ouvíssemos as besteiras que esses caras diziam… Uma outra repórter, Mariana Gross, destratava o povo no Setor 1 do Sambódromo, sempre com intervenções desnecessárias. Renata Capucci, outra repórter que trabalhava na avenida, disse, pelo twitter – vejam aqui – que um componente da Unidos da Tijuca havia caído do alto de um carro alegórico. O telespectador soube? Não, é evidente. E se eu fosse ficar aqui listando as barbaridades da transmissão, não faria outra coisa pelas próximas 24 horas;

* ah, sim, outra barbaridade. Luis Roberto e Glenda Kozlowski interrompiam as transmissões, muitas vezes a cada escola, incentivando o telespectador a enviar, por SMS, mensagens para a emissora (nunca anunciando o custo da ligação, é claro). E éramos obrigados a ler, na tela (com direito a narração nojenta dos dois), as babaquices que os babacas mandavam pra lá. Além disso, fomos obrigados a assistir vídeos enviados por idiotas do exterior. Pergunto eu a vocês: a quem interessa saber que o babaca A está assistindo ao desfile diretamente do Alasca? Ou que o babaca B está super feliz em Portugal vendo o desfile pela Globo Internacional? Tudo um repugnante e agudo nojo. A Globo, que trata futebol e Carnaval como entretenimento, que detém o monopólio dessas transmissões, presta – o que não é nenhuma novidade – um desserviço ao amante do futebol e do Carnaval. E faz – também não é novidade – um jornalismo abaixo da crítica;

* a prefeitura exibe, com orgulho, os quase 700 detidos durante o Carnaval por conta de xixi fora dos banheiros químicos disponibilizados pelo Poder Público. Ontem ouvi, na CBN, entrevista concedida por Alex Costa, Secretário Municipal de Ordem Pública, sobre o tema. Devo dizer, estarrecido, que esse sujeito não seria contratado por mim nem para engraxar meus sapatos. Não respondeu sequer a uma pergunta durante a entrevista. Falou muito, não disse nada. Usou, durante a entrevista (que durou pouco mais de 5min), centenas de vezes a palavra “questão”. Era um tal de “a questão da urina”, “a questão da educação da população”, a “questão dos banheiros químicos”, “a questão da fiscalização”, por aí. Soquei o volante do carro de tanto ódio. A Prefeitura, que nada em dinheiro (graças à parceria com o Governo do Estado, com o Governo Federal, e no Carnaval graças à parceria com uma marca de cerveja), que o desvia diante do nariz do cidadão incapaz de uma reação à altura, agora deu de punir, punir, punir. O incompetente disse que está estudando a possibilidade de, no ano que vem, multar os mijões, que é necessário, sim, haver paciência para esperar uma fila de meia-hora diante dos banheiros, e que não mais autorizará o desfile dos blocos que não cumpriram as regras estabelecidas pela Prefeitura. E a Prefeitura cumpre as mínimas regras de governar com decência a cidade? Haja paciência;

* vamos ao resultado da apuração aqui no Rio de Janeiro. Sabemos todos que há, sempre, armação para determinada escola e chororô por parte dos perdedores. O que quero lhes dizer é que foi simplesmente vergonhoso ver uma nota 9 dada à bateria da Estação Primeira de Mangueira. O que fez a bateria da Mangueira durante o desfile (veja um trecho aqui) foi um absurdo de tanta boniteza. Foi a única escola capaz de me fazer chorar diante da tela (chorei outras vezes, mas de raiva), mas isso não vem ao caso. Anseio, muito, para ver a justificativa que a besta-quadrada deu, no boletim de apuração, para explicar tanta obtusidade;

* foi muito bacana ver a Beth Carvalho de volta à Mangueira. Sentadinha ao lado de Sérgio Cabral, o pai, foi outra que fez valer a pena as duas noites viradas diante da televisão;

* os desfiles da Portela, da União da Ilha e da Grande Rio mostraram o erro que foi a LIESA decidir por não avaliá-las. O incêndio, embora trágico, faz parte do jogo. As três escolas mostraram capacidade de recuperação e podiam, principalmente a União da Ilha, fazer bonito na classificação final;

* só vi uma vantagem na vitória da Beija-Flor, que talvez tenha feito seu mais feio desfile de todos os tempos. A derrota da Unidos da Tijuca e do queridinho da Rede Globo, Paulo Barros. Se vencesse, estaria assinado o atestado de óbito da brasilidade do Carnaval das Escolas de Samba. Todas as alas da Tijuca – todas! – eram coreografadas (nem sombra de samba). Os carros, fazendo alusão ao cinema americano. Um lixo, um absoluto e desprezível lixo, como o cu do King-Kong do Salgueiro piscando.

Acho que era isso o que eu queria lhes dizer.

Até.

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13 Comentários

Arquivado em carnaval

13 Respostas para “DO DOSADOR – BALANÇO DO CARNAVAL 2011

  1. >Realmente inacreditável a transmissão da Globo. Hoje percebi que não sei cantar nenhum dos sambas das escolas porque simplesmente não consegui ouví-los. Mesmo quando a letra do samba era mostrada na tela, os âncoras não paravam de falar; e ainda, a letra não era mostrada de cabo a rabo!Quanto à justificativa do jurado que deu 9 pra bateria da Mangueira (a qual ganhou o Estandarte de Ouro, por sinal), está aqui:"Inovações que não agradaram ao júriHouve criticas à ‘paradona’ da bateria da Mangueira e à Tijuca“Quando é longa, prejudica a cadência da escola”, justificou o percussionista, que não aprovou o som dos surdos. “A bateria da Mangueira usou um segundo naipe de surdos com nota diferente do primeiro. Essa mistura de sons perturbou a marcação”, disse. http://odia.terra.com.br/portal/odianafolia/html/2011/3/inovacoes_que_nao_agradaram_ao_juri_149675.htmlE até agora não consegui entender o desenvolvimento do enredo da Unidos da Tijuca (qual a relação da sinopse com os carros hollywoodianos?!). E como disse o Simas naquela twitcam, mais um samba-enredo "inútil".Abraços

  2. >No mais, por ser fã de Nelson Cavaquinho, torci descaradamente pra Mangueira. Foi um desfile histórico, emocionante desde o pronuncioamento do Milton Golçalves e o choro do pessoal da bateria, até a reaparição da Beth. Só achei uma pena nenhuma menção ao Guilherme de Brito no samba-enredo e só haver uma pequena escultura num carro alegórico. Acho que o abre-alas tinha que ser dele e do Nelson em tamanho descomunal.

  3. >o fiofó do gorila foi demais ….

  4. >Se quem não é mangueirense sentiu a injustiça, imagine eu, que sou Mangueira desde o berço. Fato é que cago baldes para o resultado real do carnaval. O que importa é que a Mangueira fez um desfile irretocável no que tange ao enredo, ao samba e à emoção – os quesitos mais importantes do Carnaval, não é verdade?E concordo com o amigo: pode ter sido o sono durante a transmissão de madrugada, mas não entendi bulhufas o que Harry Potter e Avatar tinha a ver com medo, que era o tema do samba. Do qual, aliás, não lembro um só verso [não sei se por culpa da dupla de tagarelas da Globo ou da baixa qualidade dos sambas enredo em geral…]

  5. >Saudades das transmissões da TV Manchete…Com relação aos banheiros químicos, isso é covardia que a prefeitura faz. Desfilei na 2ª feira na Rio Branco no GRBC Vai Quem Quer. Pois bem, descendo do Metrô da Uruguaiana até a concentração na Pres.Vargas com Miguel Couto não havia UM banheiro sequer!!! E a concentração – de cerca de duas horas – logicamente foi regada à cerveja. O bloco entrou na RB e só fui ver o primeiro banheiro na RB, altura da Rosário!! E o duduzinho acha que segurei o mijo esse tempo todo?

  6. >impressionante foi a absoluta falta de banheiros quimicos…sabe-se lá o que é ficar meia hora quase se mijando numa fila gigantesca? impossível que não se de uma mijada na rua…impossível…

  7. >Tens toda razão, Edu. Sequestraram o desfile e nos mantiveram em cativeiro.

  8. >Não ganhou o queridinho Paulo Barros, ganhou a Beija-Globo!

  9. PBL

    >Eu ja disse… Não me espanto com nada que venha dessa revista ! Esse ano deveriamos ter coroado o Carnaval e não uma escola de samba ! Essa concorrencia tira o fator espontaneidade do momento…E oq era aquela reporter da Globo na arquibancada da Sapucai ?! Eu não sabia se ria ou se chorava !

  10. >Como sempre, mal humorado no ponto certo, rico nos detalhes e infinitamente preciso (do princípio ao fim…!) nas avaliações.Lixo puro a transmissão da "Venus Platinada", como era chamada nos anos 70. Fiquemos em paz e sem reclamar…: vai que no ano que vem eles colocam o Galvão Bueno na transmissão…escola que não tiver "R" no nome tá ferrada!Abraços.

  11. >com todo o respeito aos compositores e aos milhares de anônimos que fazem a escola sair, simplesmente não me interesso mais… prefiro blocos e o samba do resto do ano.

  12. >Edu, A melhor transmissão do Carnaval é feita na FM 94.1 Rádio Roquette Pinto. A Globo fica 40 min somente no comissão de frente e no Abre-alas. Mostra o recui da bateria com câmera aérea e corta para os comentaristas. Simplesmente ridículo !

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