AINDA SOBRE A DEMONSTRAÇÃO DE LENINISMO

Ontem, aqui, escrevi sobre o choque que senti, ontem mesmo, ao ouvir um jovem comunista dizer, ao telefone, para seu interlocutor (ou interlocutora, ele só dizia “cara” ao se dirigir ao pobre-diabo de outro lado da linha):

– Cara, ela ontem deu uma demonstração de leninismo impressionante!

Pedi a opinião de meus poucos mas fiéis leitores a fim de que eu pudesse, eu que sou um beócio de antolhos nas questões vermelhas, compreender que diabos era aquilo. Fui pouquíssimo atendido, eis que apenas três leitores se dispuseram a me prestar auxílio (sou, e isso me dói, um fracasso de audiência). Mas dentre os três, e sem depreciar um deles (que apenas corroborou o comentário esclarecedor do primeiro), dois monstros por quem guardo intenso e agudo respeito: o jornalista velho-de-guerra, com passagem por todos os grandes jornais do Brasil, meu dileto amigo, José Sergio Rocha, e meu irmão de fé, historiador e brasileiro máximo, Luiz Antonio Simas (recomendo vivamente a leitura de seus comentários).

Ocorre que quero lhes contar outra coisa.

Uma comunista (e não lhe direi jamais o nome, nem à fórceps) escreveu-me ontem sobre o ocorrido – eis um fato espantoso! Dizia, ela também assombrada, que lera – confessou-se minha leitora contumaz – meu texto e que se reconhecera. Disse – e eu cheguei a me coçar enquanto lia – que foi pra ela o telefonema do jovem comunista infestado de lêndeas. E passou a me explicar – pobre coitada – o que havia sido a tal “demonstração de leninismo”. Tirem as crianças da sala antes de seguirem em frente.

Em apertada síntese para que a náusea seja pouca (tudo o que estiver entre aspas terá sido integralmente copiado de seu e-mail): disse-me a jovem, também comunista, que havia uma “manifestação” em determinada universidade. E que ela, e mais alguns “quadros da base do partido”, por absoluto acaso, estavam também na tal universidade. Segundo ela a “manifestação” não contava com mais do que 10, 15 “manifestantes”. Foi quando, então, ela e seus amigos (os tais “quadros da base do partido”), passaram a “intervir” na tal “manifestação” (e ela não me contou do que se tratava a “manifestação”).

Segue o relato: em poucos minutos, mais de 500 alunos desceram, como ratos, das escadarias da universidade (“uma coisa linda”, disse-me a utópica). Os “quadros da base do partido”, então, diante do êxito numérico da assistência, “injetaram forte teor político e orgânico à manifestação”.

Ela valeu-se da expressão “foi uma coisa linda” muitas vezes!

E eis o que eu preciso lhes dizer sobre isso…

Vejam como caminha nossa juventude vermelha! O jovem das lêndeas encantou-se com o que ele chamou de “manifestação de leninismo”. A jovem rubriplúmea, então, explicou-me (ou tentou explicar) o que havia acontecido na “universidade” – o que seria, afinal, a tal “demonstração de leninismo”.

Não entendi patavina!

O que pude concluir do que li, foi o seguinte: a ala “jovem” do PCdoB (formada, quero crer, pelos “quadros de base”) faz um tremendo sucesso entre a juventude brasileira. Afinal, convenhamos, transformar uma fila-indiana de 10, 15 pessoas, numa turba de 500, não é pra qualquer um. O que me fez lembrar do PSOL, claro, uma de minhas obsessões que trago no bolso do paletó: sexta-feira após sexta-feira estão lá, em torno do caixote de madeira que cumpre o papel de palanque no Buraco do Lume para os debates políticos do partido (eles não usam palanques e nem fazem comícios, apenas promovem debates), não mais do que 5, 10 quadros do partido.

Aulas de “demonstração de leninismo”, é disso que o PSOL precisa.

Até.

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6 Comentários

Arquivado em política

6 Respostas para “AINDA SOBRE A DEMONSTRAÇÃO DE LENINISMO

  1. >Eu gostaria de ver mais jovens de direita.

  2. >Eu gostaria de ver mais jovens coerentes.Os rótulos (esqerda/direita) é que são negativos. O perfil (diria estereótipo) do jovem de esquerda é conhecido. O problema é que só se rotula a esquerda. O cabeludo com a camisa vermelha do Che Guevara. A direita não tem rótulo. Isso me parece estranho….Eu (que odeio rótulos) e fui tachado na juventude de "de esqerda", por ser defensor do Direito Alternativo, cada vez mais me convenço que os conceitos de direita e esquerda não mais subsistemMe parece que é todo mundo meio ambidestro (risos). Mas aí vão dizer que é de centro !!Enfim……PS: O EDU!!!, faço coro com o pessoal: tá faltando aquelas receitas narradas com seu modo peculiar.

  3. >Bruno,Eu tb achava que direita e esquerda eram conceitos obsoletos.Mas nao eh verdade. Ainda eh uma dicotomia recorrente e observavel em nossos players politicos.Abs de um reacionario meio revolucionario! Ou seria um revolucionario meio reacionario? rsrsrsrsR.Pian

  4. >Eu gostaria de nunca mais ver jovens de direita.

  5. >Mas vc ainda os ve, Boechat?

  6. >Aposto que era aluno de Ciências Sociais…

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