BAR DA BOA, NA LAPA, RJ

Eu nunca publiquei, aqui no blog, textos inéditos de terceiros. O espaço é meu – pombas! – e vai daí que nunca me passou pela cabeça tomar a iniciativa de fazê-lo. Ocorre que na semana passada recebi simpaticíssimo e-mail de uma de minhas poucas mas fiéis leitoras. Disse, a moça, no tal e-mail:

“Caro Edu, leio seu blog há alguns anos. Sou amiga do Vitor, o cara que trabalha na Maré – talvez você lembre – e juntos costumamos ir aos bares que você indica no blog ou mesmo repetir alguns de seus jargões. A coisa é que uma das características que mais me atrai no blog é a forma como você detona um certo tipo de gente que acha que o Astor pode ser chamado de buteco e também, claro, este tipo de estabelecimento – “belmontes” também servem. E daí que ontem tive uma experiência que me causou horror num tal de Bar da Boa – Vitor estava comigo e é personagem no meu relato. O relato segue em anexo e gostaria de, humildemente, pedir que você o lesse, com a intenção mais humilde ainda de vê-lo publicado no seu blog. Nem sei se você publica textos dos outros, mas é que eu o escrevi muito inspirada no que leio na sua página.”

Fiquei – confesso – envaidecido. E quando a Vaidade bate à minha porta eu trato de enxotá-la rapidamente. Bola baixada, reli o troço e gostei. Gostei a ponto de, então, pela primeira vez, publicar aqui um texto inédito que não me pertence.

O texto é de Marianna Araujo, jornalista baiana (de Salvador), torcedora do Botafogo e moradora do Flamengo. E durante a troca de e-mails, disse que “bebe cerveja, porque limão é pra gripe e jurubeba pra azia”.

Ei-lo aí:

TEM BATERIA NO SAMBA. QUE SAMBA?

“Antes de entrar no tema que justifica esse texto, adianto um dado que pode ser útil ao leitor. Lá em casa tem um ditado que é o seguinte: menino e tamanco, debaixo do banco. E eu, como boa filha de milico, respeito e muito a antigüidade. O que quero dizer é que do alto dos meus 25 anos, ainda que seja uma profunda admiradora das ampolas de cevada e dos butecos que as oferecem, me sinto pouco à vontade no papel de “entendedora” de bares ou cervejas. Claro que entre os amigos – que salvo um caso ou outro estão na mesma faixa etária – sempre dá para gastar um tempo comentando uma dada marca de cerveja ou um buteco recém conhecido. Pura bravata. Falta-me barriga e experiência para de fato dominar o assunto que tanto me interessa. Razão pela qual, por exemplo, quando estou na extensão da minha casa – bar Sinhazinha, um dos mais belos pés-sujos do Catete -, mais ouço do que falo. Imaginem vocês que Chicão, acreano e tricolor, bebe lá há pelo menos 15 anos. E o quê dizer de Ricardinho, o homem que só toma cachaça? Todos os dias, pela manhã e à noite, no mesmo lado do balcão. Pior, Rogério, que vem da Gávea diariamente há 16 anos para beber sua cerveja à noite. Este não tem CPF há pelo menos 15 anos. Eles sim entendem do ofício e têm muito a ensinar. Eu, apenas iniciada no assunto, gostaria só de apontar algumas poucas questões que me surgiram ontem, embaladas na cerveja, ao som de – perdoem o termo – Djavan.

A história começa com uma troca de e-mails no meio da tarde. Alguns companheiros de bar em torno de uma questão fundamental para a noite de quarta-feira: onde assistiremos o jogo da seleção? Papo vai, papo vem e nada certo. Estava com um amigo – Capilo, o nome do gordinho – com quem disputo uma corrida interessante: com essa quantidade de torresmo e cerveja por semana, quem de nós dois chegará aos 35? Pois bem, estava com Capilo a caminho de uma reunião na Lapa. Coincidências dessa que apenas São Baco oferece, passando pela Glória, damos de cara com os amigos com quem havíamos trocado e-mail à tarde. “Um sinal, precisamos ver o jogo juntos”. Fomos à reunião com a missão de fazê-la acontecer em 15 minutos. Eles achariam o bar. Um erro, que verão vocês, não teve reparo. Jamais poderia deixar que escolhessem. Ingênuos, se deixariam levar por promessas vãs.

Saio com Capilo da reunião e descubro que estão num tal de Bar da Boa, Lapa, esquina da Lavradio, local mais conhecido como quadrilátero do terror. Ali estão três bares da franquia Belmonte e agora, o tal Bar da Boa. Na sede que já me causava delírios naquele fim de tarde de calor, pensei rápido e conclui: não deve ser tão ruim. Vamos ao bar. E partimos, eu e Capilo, para uma quase-aventura.

A coisa começa na entrada. Chegamos e comecei a procurar os amigos. Um rapaz com pinta de segurança me chama: “senhora, pois não”? Pois não o que? Vim tomar cerveja, ué. Não é um bar? Neste momento chega a – desculpem o termo de novo – hostess, a recepcionista. “A senhora tem reserva, quer uma mesa ou tem alguém aqui esperando”? O susto de ver aquela senhorita em trajes curtos e pretos, com olhos bem pintados, às 18h no horário de verão, deixou-me sem resposta. Capilo, ainda bêbado da noite anterior, permaneceu mudo. Passados uns minutos, balbuciei: tenho amigos ali. Acho que ela não acreditou muito e ficou me seguindo dentro do bar, até que eu achasse a mesa. Passado o susto, traz a gelada e o copo que o jogo já havia começado.

Daí em diante foi só surpresa. O bar tem muito estilo. Televisões bonitas, copos personalizados, cardápio de metal que vem gelado, uns cartazes antigos da Antártica decorando, um cooler em formato de surdo, banquinhos feitos com engradados de cerveja. Tudo muito “contemporâneo”, funcional e todos esses jargões arquitetônicos. Nada contra, inclusive. Mas pera aí, me chamaram para o Fasano ou para um bar na Lapa?

Sigamos em frente. Passada uma hora, anunciaram: vai começar o samba. No Bar da Boa tem samba todo dia. Olho para o centro do bar, onde ficaria o suposto grupo de samba e vejo uma bateria e um teclado. Pensei: hoje não deve ser samba, deve ser aquele horror chamado “música ao vivo”, começa com Djavan e termina em Zeca Pagodinho. Os amigos me repreenderam: não, é samba mesmo! Tive que levantar e ir ao banheiro para não passar mal ali mesmo. Interessante foi observar que lá uma das paredes é “decorada” com instrumentos musicais. Tantã, reco-reco, cavaquinho, violão, repique, chocalho. No Bar da Boa os instrumentos do samba decoram a parede e o samba mesmo se faz com teclado. Com exceção do violão, nenhum dos instrumentos da parede estava na música que era tocada – sim, porque o pandeiro que o cara da percussão balançava, não pode ser chamado de pandeiro e nem ele de pandeirista (não me ocorre um nome melhor).

Essa é questão do Bar da Boa. A sensação que eu tive é que nada era o que parecia e havia uma confusão nos termos usados para designar tudo que ali havia. Aliás, este é um equívoco recorrente nos dias de hoje. Mas, enfim, não é minha intenção entrar numa análise na forma como o mercado se apropria da tradição e da nossa cultura para transformá-las em nada mais que mercadoria – o tantã na parede é a metáfora perfeita. E essa coisa toda me veio na cabeça quando a moça que cantava. Depois de mandar Jorge Aragão, Sombrinha e Candeia, cantou Djavan – em ritmo de samba, claro. E daí foi ladeira abaixo, Tim Maia em ritmo de samba, Roberto Carlos em ritmo de samba e qualquer-coisa em ritmo de samba. Fiquei confusa ao tentar compreender o que acontecia ali – o que eu via, ouvia e comia simplesmente não tinha identificação com o que eu conheci ao longo da vida como samba e croquete, por exemplo. Com alguns copos de cerveja as idéias clarearam e eu entendi tudo: óbvio que não poderia haver identificação. Aquilo ali não era croquete, o que se ouvia não era samba e, como não podia ser diferente, o Bar da Boa, nem com um caminhão de condescendência da minha parte, pode ser chamado de bar ou buteco.

Agora uma anedota da noite. Capilo me chama com o cardápio na mão:

– Que isso aqui no cardápio? – havia foto do tal item.

– Parece caldo de feijão. Embaixo o que diz? – respondi.

– Aqui diz: caldo de feijão acompanhado de croutons. O que é isso?

– Crouton – disse, puxando o sotaque em francês. Croutons, porra. Pão.

– Aaahh, então porque não colocam caldo de feijão com pão ou então, torradas?

Rimos e fomos ler o que mais dizia no cardápio. E era assim – espero que estejam sentados: caldinho de feijão, com croutons e gominhos de laranja. Capilo:

– Gominhos de laranja? Gominhos? Que porra é essa?

– Laranja, ora.

– Gominhos? E cadê o torresmo?

Conclusão: o pão era crouton, a laranja era gominho. Quer dizer, nem o caldo de feijão era caldo de feijão. E aquele que quiser ir a um bar no Rio de Janeiro, que passe longe do Bar da Boa.”

Até.

12 Comentários

Arquivado em botequim

12 Respostas para “BAR DA BOA, NA LAPA, RJ

  1. >Ah Buteco não sabes como me ajuda..estou indo passar o carnaval no Rio..e sempre estico um pouco mais..como gosto de ir à Lapa..claro o Bar da Boa só mesmo se for pra olhar a propaganda na rua..valeu..valeu mesmo…Abs

  2. >Obrigada….valeu a dica…Abs

  3. >Ah, Samia Helena, queres mesmo uma dica? Fuja da Lapa. Vá de dia pra ver os Arcos da Lapa, apreciar o casario da rua do Lavradio e pra beber um grande chope (talvez o melhor da cidade hoje em dia) no Bar Brasil, quase na esquina da Mem de Sá com a Lavradio (procure pelo Ézio, um grande garçom). Nada mais ali se salva. À noite, então, trata-se da maior arapuca de otário da cidade.

  4. >Que texto maravilha!!! Abraços Edumirtes

  5. >edu,muito obrigada pelo carinho. tbm fiquei vaidosa. só queria ressaltar que este texto tem forte inspiração no que leio aqui neste balcão, razão que me fez enviá-lo para vc.de resto, precisamos – eu, vc e vitor – marcar uma cerveja. de preferencia no rio-brasilia.marianna

  6. >marianna, dia desses te levo no embalo bar, no leblon!pe-sujo de primeira em plena dias ferreira.r.pian

  7. >Oba! Poupei tempo, dinheiro e paciência lendo este post. E, trazido até aqui pelo interesse em ler tudo o que Marianna escreve, virei cliente. Passarei por aqui regularmente.

  8. >Gostei.E o Sinhazinha é, de fato, um belo e autêntico buteco.

  9. >Vc o conhece, Daniel? Frequenta? Conhece o seu Ramos?

  10. >Marianna,Só fui lá umas 3 vezes, com amigos que moram ali por perto. É na esquina da Praia do Flamengo com Machado de Assis, não é?Não tenho como frequentar muito porque moro em Niterói.Mas, nas poucas vezes que eu fui, bebi cerveja sempre gelada e comi uma carne assada gostosa a um preço justo.Não tive ainda o prazer de conhecer o Seu Ramos.Abraços

  11. >não tem jeito….eu gosto do belmonte e não tenho vergonha de admitir…talvez porque infelizmente não tenho mais 25 anos.

  12. >O boteco da garrafa também desconfigura a Lapa. Agora, que samba esquisito. Só falta o Frank Aguiar ser o sambista! Até potei no blog http://www.tulipafurada.blogspot.com – com referência ao colega, claro!

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