O EDSON – CONFISSÕES

Esse exercício que faço constantemente aqui no blog, de voltar ao passado pelas espirais da memória, me é duríssimo – e explico. Em primeiro lugar porque ele me joga na cara o peso de meus 41, quase 42 anos: é cada vez mais doído voltar à infância, cada vez mais emocionante reviver os cenários e os personagens que compõem minhas histórias. Em segundo lugar porque os efeitos colaterais do arremesso ao passado são muitos e difíceis de administrar: dá-me como se fora uma epidemia, e eu começo a acreditar (eis um prato cheio para um psicanalista) de verdade que estão todos vivos, que ainda uso calças curtas, camisa de listras e mais um sem fim de pequenos problemas. Vamos em frente.

Eu não sei se vocês repararam, mas quando escrevi o texto do dia 02 de fevereiro – aqui – citei, de passagem, o nome de uma das professoras de mamãe. Pois seu nome ficou ecoando em torno de mim e eis que saltou, num átimo, também diante de mim, o Edson. Eu acabo de escrever “Edson” e já começo a rir. O Edson, que foi padrinho de casamento de meus pais – meu Deus, o Edson ainda está vivo? Não sei. – foi protagonista, ao longo da vida, das mais inacreditáveis histórias que eu jamais ouvi. Era sempre assim: papai chegava do trabalho. Mamãe, ainda da cozinha:

– Meudi, sabe a última do Edson? – Meudi é como mamãe chama o papai.

E ele, excitado, largando a pasta sobre a mesa:

– Conta, conta, conta!

Não quero mais lhes contar do Edson. Vou lhes contar sobre meu pai – ele é um personagem e tanto. O Edson fica para outra altura.

Vocês todos que me lêem sabem que vovó, mãe de mamãe, morreu em dezembro – lhes contei aqui. O que quero lhes contar aconteceu durante o período em que vovó ficou hospitalizada. Vamos porém, antes, a alguns detalhes.

Papai é um homenzarrão, altíssimo, forte, e ainda assim é um poltrão olímpico. Não pode ver sangue, que desmaia. Não agüenta visitar ninguém no hospital – e a palavra “hospital” já lhe dá náuseas. Não suporta – por fobia – os trancos mais violentos, digamos assim. Mamãe, por quem papai é completamente apaixonado, vive cercada de cuidados por parte do velho, e sabendo disso vamos em frente.

É evidente que papai não foi, dia nenhum, visitar vovó. Ia, diga-se, até o corredor do quarto fazendo companhia para mamãe. Mas não entrava. Vovó, uma mulher iluminadíssima e compreensível, disse, dia após dia (foram poucos, graças aos deuses), a mamãe:

– Tadinho do Isaac, eu sei que ele não suporta hospital.

Quando eu entrava, mudava pouco:

– Tadinho do seu pai, eu sei que ele não suporta hospital.

Pois bem. Vovó não estava bem, tínhamos pouco tempo para a visita, e decidimos sair para almoçar no primeiro dia em que as notícias não foram muito boas – eu, papai e mamãe.

À mesa, já mais relaxados, papai disse:

– Minha filha… – o “minha filha” era a certeza de que vinha emoção pelo caminho.

Alisando as mãos de mamãe, olhos ligeiramente marejados, ele soltou o petardo:

– … você não se preocupe, viu? No dia em que sua mãe… é… no dia em que sua mãe… hum… Minha filha, no dia em que sua mãe bater as botas, eu cuido de tu…

Quando ele pronunciou “bater as botas” eu e mamãe explodimos numa gargalhada que o deixou constrangido. Éramos nós, mãe e filho, diante daquele gigante tentando fazer poesia. Mudamos o rumo da prosa e deu-se o mesmo roteiro no dia seguinte.

Ele pediu sua dose de Red Label, pigarreou, piscou os olhos numa velocidade absurda – outro sinal de que lá vinha emoção – e disse, com as mãos de mamãe entre as suas:

– Minha filha, eu já te disse… Quando sua mãe… é… Bem… Quando sua mãe… Minha filha, quando sua mãe descansar em definitivo…

Outra explosão. O mesmo constrangimento. Mudamos o rumo da prosa e deu-se tudo como dantes no dia do terceiro almoço. Papai, escolado pelas falas dos dias anteriores, inspirou muito fundo, pôs as mãos nas orelhas da mamãe, diante dele, e disse, de sopetão (ali eu tive a certeza de que ele ensaiara a nova performance):

– Minha filha, quando sua mãe atravessar para o outro lado…

Não conseguiu, pela terceira vez, completar a frase. Nesse dia ele reagiu. Explodiu:

– Vocês querem que eu fale o quê?! Quando ela morrer?!

Eu e mamãe rolando no chão do restaurante.

Passaram-se mais uns dias e eis que vovó foi oló.

Coisa de umas semanas depois fomos todos jantar na casa de meus pais – eu e meus irmãos.

E durante o jantar, o momento solene depois de um pigarro circunspecto de meu pai:

– Gente… Tenho uma coisa pra contar pra vocês…

Houve um burburinho de risos contidos. Minutos antes, abrindo os trabalhos à mesa, mamãe havia proposto um brinde à memória de vovó, estávamos todos emocionados. E meu pai, sério:

– Prrrrr…

Pequena pausa. “Prrrrr” é o som que ele emite quando quer dizer “porra”. Mas como papai não fala palavrão na frente de mamãe, sai “prrrrr” mesmo.

Voltando.

Ele disse:

– Prrrrr… Como se não bastasse a morte da dona Mathilde…

Houve um entrelaçar alucinante de olhos. O que vem por aí?, era a pergunta em neon na testa de cada um à mesa.

– Eu perdi a eleição ontem. Não fui reeleito síndico… – disse, sorumbático.

Deu-se uma explosão de risos, soquinhos sobre a mesa, uivos de tanto que se ria, e papai ali, tadinho, achando que ninguém compartilhava sua decepção com a derrota da véspera.

Até.

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3 Comentários

Arquivado em confissões

3 Respostas para “O EDSON – CONFISSÕES

  1. >estou rindo pra cacete. grande isaac!

  2. >olá…gostaria muito de te agradecer por tantas palavras…distintas e singelas…mas de de grande efeito…sou uma fã …tua …adoro ver suas receitas que para mim são de grande valia…abraços …

  3. >perder uma campanha eh sempre muito chato…absr.pian

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