UM GESTO DE REBELDIA

Eu, que à certa altura recebi na testa o carimbo de “polemista”, cravado por ninguém mais, ninguém menos, que Aldir Blanc (e olha que o homem entende de polêmica) – complementado por um “dissidente de si mesmo” – acho que fui mais polemista que nunca quando, em setembro de 2000, deixei uma repórter da TV GLOBO com cara de bunda, ao vivo, depois de gritar o nome de Leonel Brizola em resposta a uma pergunta qualquer (revejam o lance aqui).

Pois na madrugada de segunda-feira, em São Paulo, exerci, de novo, minhas habilidades para criar tumulto. Estava eu na casa de amigos, no domingo, quando desabou uma chuva torrencial sobre a cidade que comemora hoje, ao lado de meu velho pai, seu aniversário. Um de meus anfitriões foi taxativo:

– A que horas é teu ônibus?

– Meia-noite e vinte.

– Tente trocar por uma passagem de navio! – fez a blague.

Às 23h30min partimos em direção à rodoviária (ele, gentilíssimo, ofereceu-me a carona). O trajeto, em condições normais, seria feito em no máximo 20 minutos, mas depois da chuva…

Marginal parada. Ruas cheias. Árvores derrubadas. Até que, depois de uma ginástica sobre quatro rodas, fui deixado na rodoviária faltando 10 minutos para o horário marcado para o embarque. Fui ao guichê da empresa, percebi o tumulto diante dele, e perguntei à funcionária sobre a partida do leito:

– Ihhhhh… – foi só o que ela disse, coçando o ouvido com a tampa de uma caneta Bic.

– Algum problema?

– O ônibus das sete ainda nem encostou…

– Previsão, senhora?

– Sem previsão. Mas eu acho, pelo andar da carruagem, que não sai antes das três… – e checou o cerume na tampa da caneta, arrancado com a unha do polegar.

Bufei. E ela disse, simpática:

– O senhor pode esperar em nossa sala vip… – e indicou-me a direção.

A tal da sala vip nada mais é do que um salão gigantesco com muitas cadeiras e uma TV exibindo um troço qualquer, desinteressante. Fui à mocinha no balcão de mármore:

– Tem algo para beber, senhora?

– Não.

– Para comer?

– Não, senhor.

Bufei de novo. Estendi os olhos pro lado de fora e avistei um único quiosque aberto. Uma fila gigantesca diante do caixa. Desisti. Voltei à mocinha:

– Vip a sala, hein?!

– Que bom que o senhor gostou…

Puxei um cigarro e o acendi.

– Não pode fumar aqui, senhor…

Bafejei a fumaça para o alto, fazendo estilo:

– Encher a porra do rio Tietê, pode?

Silêncio.

– Atrasar a viagem do cliente, pode?

– Fumar é que não pode, senhor.

– Mas eu vou fumar.

Sentei-me e, quando apaguei o cigarro no chão (nem sombra de cinzeiro no ambiente), veio um segurança acompanhado da mocinha do balcão. Ele, um mulatão parrudo, disse:

– Senhor, é proibido fumar em ambiente fechado.

– É?

– É.

– Sei. É proibido também deixar um passageiro sem informações precisas sobre o serviço de transporte contratado. Proibido, também, não oferecer acomodações decentes para um atraso que se desenha gigantesco, sem comida, sem bebida.

– Mas, senhor…

Acendi o segundo cigarro. O mulatão:

– Senhor, vou ter de chamar a polícia…

– Pois não. Estou esperando.

Percebi um cara, perto de nós, sorrindo. Ele apontou pro maço que tinha nas mãos e disse:

– Posso?

Eu:

– Deve.

Em coisa de 15, 20 minutos, mais ou menos uma dúzia de pessoas fumava dentro da sala vip (a bem da verdade, anti-vip).

Vem outro elemento em minha direção (mehor dizer em nossa direção, éramos muitos fumando àquela altura):

– Boa noite, senhores. Sou o gerente da 1001… Os senhores não podem fumar aqui dentro, por favor…

– O senhor sabe a que horas eu embarco? – eu disse.

– Ainda não, senhor…

– Então… Algo para beber? Para comer? – outro que também fumava.

– Infelizmente não, senhor…

– Então eu vou fumar de novo! – eu disse.

Já tinha gente gargalhando, e formávamos uma roda de fumantes.

Um abnegado saiu e voltou com um saquinho de pão-de-queijo, que passou a distribuir.

Alguns (poucos, na verdade) protestavam contra aquela fumaça, faziam das mãos leques abanando em direção ao próprio rosto, outros diziam “vamos chamar a polícia”, uma histérica gritou “sou prima do Kassab!”, e eu estava era gostando daquilo ali.

Às duas da manhã, anunciaram meu ônibus. Parti em direção à plataforma. Fui ao balcão (fumando) e me despedi da mocinha. No caminho, cumprimentei e pedi desculpas ao mulatão (que até achou graça) e diante do ônibus o gerente ensaiou uma ameaça:

– Senhor, serei obrigado a comunicar à polícia que o senhor fumou na sala vip, temos os seus dados na passagem…

E eu disse, já entrando no leito:

– Se o senhor insistir com isso fumarei durante a viagem…

Entrei e nem mesmo vi o coletivo sair da rodoviária.

Acordei no Rio, franca e sinceramente, com a sensação do dever cumprido.

Até.

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13 Comentários

Arquivado em confissões

13 Respostas para “UM GESTO DE REBELDIA

  1. >Espetacular! Queria estar lá com você e ajudar no barraco! E a "prima do Kassab", hein? Que carteirada mulamba!

  2. >Respeito pelos outros passageiros – que estavam igualmente cansados, com fome e sede E AINDA tiveram que receber as suas baforadas na cara – nem pensar, né?Rebeldia assim é fácil.Marcos

  3. >Não, Marcos, nem pensar. Um abraço.

  4. >Não fumo, mas também não consigo achar justa essa perseguição aos fumantes. O cigarro alheio não me incomoda nem um pouco. Bar, boates e afins são lugares próprios para o cigarro, para os bêbados, não para os frescos. Abraço.

  5. PBL

    >Eu não gosto de cigarro… Na verdade ODEIO, mas com toooda certeza apoiaria o manifesto, visto que a 1001, mesmo em dias ensolarados não respeita o passageiro e nem os motoristas de seus onibus !Da-lhe Edu !!

  6. >EhehehheheheSem entrar no mérito do ato, admiro a coerência ("Se o senhor insistir com isso fumarei durante a viagem")…..KKKKKKKOutra coisa boa foi ver o evento "Brizola 12", numa versão Edu Moleque (no melhor sentido da pelavra) Eu que sempre frequeno blog e volta e meio leio as postagens antigas não tinha visto essa. Falar nisso, como é que está ficou o episódio/ação do cara do Plágio de vinhedo ?? Podia nos atualizar ou informar o número do processo.BRUNO

  7. >Lembrei de outra sua. Há algumas semanas estava no RB com minha esposa e filho e você foi reclamar com os funcionários daquela "lanchonete" ali do lado que eles estavam colocando o lixo deles na porta do RB. Tava uma cheiro insuportável para nos frequentardores. Minha esposa adorou quando você pegou o lixo e levou de volta pra "lanchonete".kkkkk

  8. >Caro Edu:Ótima essa de falar do Brizola no programa da TV Globo. Nessa semana publico aqui no meu blog bauruense, o http://www.mafuadohpa.blogspot.com algo sobre a unica vez que Brizola esteve em Bauru, quando filiou ao PDT mais um dentre tantos que o trairam. Peço sua permissão para reprodução no meu blog do video do seu grito em prol dele. Claro que vai com citação de fonte. Precisamos cada vez mais de atos como esse.Henrique P. Aquino – Bauru SP

  9. >Ô, Tande, e como é que você está lá e não diz "presente", pô?! Acredita que o Joaquim – o escroque dono da lanchonete – teve a pachorra de chamar a polícia? Abraço.Henrique: é claro que você está autorizado! Abraço.

  10. >só fumou porque sabia que não seria preso ou responder processo. Numa sociedade, onde as leis são respeitadas, isso jamais aconteceria e o transgressor não se jactaria disso.

  11. >Marco Bastos Jr.: sou desrespeitado quando impedido de fumar livremente, mas isso são outros quinhentos. Estava, naquele momento, sem transporte, sem assistência, e eu escolho a forma do meu protesto. Obrigado por seu pitaco.

  12. >KKKKKKKK… a "prima do Kassab", a mocinha do balcão… KKKKK… o segurança até que era boa gente… KKKK… e esse Marcos, hein? KKK… pera aí… deixa eu tomar fôlego… e o Júnior… que pândego!… KKKKK…

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