A CADA TRISTEZA, ERGUER NOSSO COPO AO HUMOR

O título de hoje – a cada tristeza, erguer nosso copo ao humor – é um de meus orikis preferidos. Da lavra de Aldir Blanc, para música de Moacyr Luz, se aplicado diuturnamente representa remédio valoroso contra as dores que nos assolam, a todos, dia após dia. Dito isso, parece-me desnecessário dizer que é evidente que a tragédia que se abateu sobre a população da região serrana do Rio de Janeiro – com mais de 600 mortos (por enquanto) – não merece piada. Mas no seu entorno, soube de uma, realíssima. Preservando a identidade dos elementos envolvidos – e eu soube do ocorrido na noite de quarta-feira – vamos aos fatos.

Antonio estava preocupadíssimo com a situação na serra fluminense. Até que, ouvindo os noticiários, lembrou-se de que dona Iaiá, mãe de sua madrasta, dona Yoyô, morava em Nova Friburgo. Abateu-se sobre ele – um poltrão meteorológico – um terror de proporções de tromba d´água. Não que ele morresse de amores por dona Iaiá, com quem trocara – o quê?! – duas ou três palavras ao longo da vida. Não que ele morressse de amores por dona Yoyô, com quem mantinha a clássica relação de implicância entre enteados e madrastas. Ocorre que, instigado pelos apelos de solidariedade, aterrado diante das imagens da tragédia, ele decidiu “fazer um bonito” – foi o que pensou em voz alta antes de tirar o telefone do gancho:

– Alô? Yolanda? É o Toninho! – e ajeitava o próprio cabelo diante do espelho, sentindo-se o mais solidário dos parentes.

A madrasta derreteu-se. Não falava com o enteado havia muitos meses. Ela e o pai moram em Niterói, Antonio no Grajaú (onde, inclusive, trabalha) e o lufa-lufa do dia-a-dia fazia com que os encontros fossem raríssimos, escassos. Ela foi – como sempre – dramática:

– Oh, Toninho! Que saudade! Hoje mesmo comentei sobre você com seu pai! Como estão as coisas? – mentiu.

E ele, mudando o tom de voz:

– Mal, Yolanda… – e deu uma fungada sonora, artificial, para dar cores de choro à fala.

Do outro lado da Baía de Guanabara, do outro lado da linha, o tom de preocupação:

– Mas o que houve, meu filho? – e quando ela disse “meu filho” ele estendeu o dedo médio, esticado ao lado dos dobrados indicador e anelar, em direção ao bocal do telefone, ele odiava essa intimidade.

– Como o que houve, Yolanda?! Mais de seiscentos mortos e você me pergunta o que houve?! – fingiu que se assoava.

Ela muxoxou do outro lado:

– Tsc. É verdade… E fora isso, Toninho? – despreocupadíssima.

Aquela frieza da madrasta que punha por terra seu plano de fingir-se solidário começou a irritá-lo:

– Fora isso?! Yolanda… – assoou o nariz mais forte.

– Você está chorando, Toninho? Desembucha, menino! O que aconteceu?

Ele achou que era a hora:

– É que… ah, Yolanda, nem sei como fazer a indagação… Como está dona Iaiá depois dos temporais? – sentou no banquinho ao lado do criado-mudo e abriu um sorriso de dever cumprido.

Um silêncio terrível do outro lado da linha angustiou o sujeito. Ele insistiu:

– Yoyô? – foi dengoso.

– Sim, Antonio. – ela foi fria.

– Notícias de dona Iaiá?

Deu-se um suspiro e veio a resposta:

– Antonio, mamãe morreu em 2008.

Ele, um homem de raciocínio rápido, ergueu-se novamente. E diante do espelho, mandou de voleio:

– Morreu?! Morreu?!

E ela:

– Morreu.

Ele, aos gritos:

– Morreu pra você, filha ingrata! Morreu pra você! Pra mim, Yolanda, saiba disso, dona Iaiá está viva, está presente, dona Iaiá é imortal, Yolanda! Imortal!

E desligou com fúria, batendo o telefone no gancho e do gancho o tirando novamente, segundos depois. A pobre da madrasta ainda insistiu, por uma meia-hora, mas só deu sinal de ocupado. Encontraria com o pai, e com a madrasta, sabe-se lá quando. Foi o que decidiu, entre envergonhado e orgulhoso de si mesmo.

Até.       

1 comentário

Arquivado em ficção

Uma resposta para “A CADA TRISTEZA, ERGUER NOSSO COPO AO HUMOR

  1. Sagacidade não tem hora nem lugar. Saiu bem e provavelmente deixou a pulga atrás da orelha da velha…

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