O ERNESTO

O Ernesto, coitado, é um personagem e tanto. Desses que, uma vez descrito minuciosamente para quem não o conhece, geram a inevitável frase dita pelo interlocutor às gargalhadas:- Ah! Esse sujeito não existe!

Mas o Ernesto existe, coitado. Bebe, todos os dias pela manhã, no Bar do Marreco, na esquina da Haddock Lobo com a Caruso, na Tijuca:

– Para me suportar… – diz o infeliz, com o olhar longe, ao final do primeiro gole.

A bossa é a seguinte: Ernesto é casado com a Jurema há mais de 40 anos. Sempre foi um duro, um pé-rapado, um pobre-diabo na melhor acepção da palavra. É tratado pela Jurema – e desde o casamento – como um traste. O casal – o maior anti-casal da paróquia – teve apenas uma filha, a  Zafira. Esta, por sua vez, já está casada e mora em Portugal. Quando vem ao Brasil, três vezes por ano, hospeda-se num hotel de luxo na orla de Copacabana e faz questão de receber, dia após dia, para o almoço, para o jantar, a mãe. Apenas a mãe.

– Como vai aquele traste, mamãe? – é sempre a primeira pergunta da filhota no primeiro instante.

A mãe, espetaculosa, é sustentada pela única filha, que casou-se, aos 21 anos, com um magnata português, o Castilho (e pensem bem no absurdo que é isso, nada mais anti-magnata que um português de bigodão). Manda, mês a mês, uma boa quantia para dona Jurema. Esta, por sua vez, atendendo orientação de Zafira, repassa ao marido (um despachante em franca decadência há mais de 20 anos) uma mesada modestíssima que permite ao pobre-coitado passar o dia bebendo o que há de pior no botequim mais perto de casa. Outro naco da mesada que vem d´além-mar tem destino certo: custear o tratamento do Ernesto.

Quando em 1982, logo após a tragédia do Sarriá, o sujeito ameaçou o suicídio por conta do choque com a eliminação do escrete, houve festa no modesto apartamento. Jurema não escondia a ansiedade. E todas as manhãs fazia a indagação:

– Vai ou não vai, criatura?

A filha, que soubera da novidade pela mãe – já morando em Setúbal – ligava todas as noites:

– E aí, mãezinha? Cumpriu a promessa, o traste?

Ernesto assistia àquela ansiedade pelo próprio suicídio com uma angústia nunca dantes vista. Até que em dezembro de 82, com o lançamento de Thriller, o álbum de Michael Jackson, deu-se o inusitado.

Ernesto assistiu, impactado, na noite daquele longínquo domingo, ao vídeo-clipe do astro americano. Jurema ficou boquiaberta com a cena: o pobre-diabo não desgrudava os olhos da TV, suas mãos tremiam, e ela não perdeu a oportunidade quando os cadáveres começaram a sair das tumbas do cenário macabro:

– Vai ou não vai juntar-te a eles, infeliz?

Desde esse dia que Ernesto não diz um “a”. Sua única frase é a matinal “para me suportar”, dita após o primeiro gole de cachaça.

Em janeiro de 83 a filha veio com a novidade para a mãe:

– Mamãe, fique com este cartão. É de um psiquiatra que me foi recomendado. Encaminhe o traste para uma consulta. Castilho já tratou dos detalhes que nos interessam. Em questão de meses, anote!, papai leva adiante a idéia do suicídio! Mandarei, todos os meses, o valor dos honorários do doutor!

Há exatos 27 anos, portanto, dá-se o seguinte: três vezes por semana despenca-se o pobre-diabo para Copacabana, para o consultório do doutor  Ribeira. E há 27 anos a cena é a mesma. Ernesto entra mudo e sai calado. Como um sabujo, obedece à esposa, toma o 413, salta na avenida e toma a direção do suntuoso consultório. Doutor Ribeira, seguindo uma técnica pouco ortodoxa, passa o tal vídeo-clipe na TV diante do divã e a cena é a mesma desde a primeira consulta: olhos estacados pra fora da órbita, mãos que tremem de forma descompassada, suores tremendos. Ao final da exibição do filme, à moda de dona Jurema, já de pé, doutor Ribeira faz a pergunta com a supressão do adjetivo:

– Vai ou não vai juntar-te a eles?

E eis o que eu queria lhes contar desde o início…

Ernesto matou-se ontem à noite, horas depois do bar fechar as portas. Foi encontrado hoje cedo, por volta das 5h30min. Junto com o copo americano cheio de cachaça, ingeriu dois vidrinhos de chumbinho. Deixou, no bolso da camisa, um bilhete, sua única manifestação inteligível desde 1983:

“Meus amigos de bar, meus amigos de balcão, meus amigos de copo. Peço perdão pelo silêncio aterrador que impus a mim mesmo já se vão sei lá quantos anos. No bolso direito da minha bermuda tem algum dinheiro. Dá, e sobra, para pagar o pendura do mês de dezembro. Como última homenagem, se é que mereço alguma homenagem, peço uma coisa muito simples. Não quero ouvir Thriller na última morada. Quero que alguém leve um portátil e deixe tocando, durante todo o meu velório, aquele que será meu hino fúnebre. Envelheci mas continuo em exposição, a ex-mulher me chama de sardinha de balcão, eu digo sempre que melhor que apodrecer ao lado dela é ir mofando entre o torresmo e a moela. O tal dinheiro que está no bolso direito compra, também, uma porção de torresmo e uma de moela. Peço que ponham dentro do meu caixão. E que cantem. E que cantem alto. Jurema, essa vaca, não ficará viúva. Ela é, desde que nos casamos, minha ex-mulher. Porque lá em casa a barra era violenta, eu padecia entre a mostarda e pimenta. Obrigado por tudo.”

E graças à mágica que cerca todo e qualquer botequim, o bar e a assistência, hoje cedo, eram um só cenário de desolação. O velório está marcado para hoje, às 17h, depois de o corpo ser liberado pelo IML. Jurema, que nem deu por falta do marido à noite – dormiam em quartos separados há muitos anos – , foi comunicada hoje cedo do acontecido.

– Demorou, o filho da puta. – foi só o que disse.

Às 17h o bar fechará as portas. E o gurufim blanquiano do Ernesto promete.

Até.

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14 Comentários

Arquivado em botequim

14 Respostas para “O ERNESTO

  1. PBL

    >Meu deus..Isso é muito Tijucano !!

  2. >Puta que pariu! O Ernesto era mesmo é de palavra e vai em paz. Vai com enorme honradez esse tijucano… E jamais será esquecido, tenho certeza. Boa despedida a vocês, os companheiros de balcão. Beijo

  3. >História – tristíssima – digna das melhores crônicas de Nelson Rodrigues, extremamente bem contada pela sua caneta, meu velho.

  4. >isso é verdade mesmo cara?assombrosa situação!

  5. >Uma história comovente.Até que ponto pode alcançar a degradação humana?Até que ponto um ente poder ser desprovido das qualidades inatas ao humano?

  6. >Triste, chocante, mórbido e ao mesmo tempo folclórico, nonsense, pitoresco.Somando tudo e numa palavra: Sensacional!!!!! Tijuca em estado bruto!!PS: E isto independe se o relato é real, baseado em fatos reais ou com pitadas de licença poética…(risos)

  7. >O gênero da patroa eu conheço, cresci entre elas, casei com uma ou duas, cuspidas e escarradas, e se Deus quiser (e existir) cagadas.Mártir!O silêncio mais ensurdecedor da vida!Por que é que eu acho que conheço essa história???Deus (se existir) que nos abençoe e o Diabo que nos carregue!Tim tim.

  8. >"Envelheci mas continuo em exposição, a ex-mulher me chama de sardinha de balcão, eu digo sempre que melhor que apodrecer ao lado dela é ir mofando entre o torresmo e a moela" é ótimo! Ouvi uma vez o Marcio Proença cantando isso num samba em que a letra era do Aldir.Sua crônica, Edu, mais tijucana impossível!Um abraço de Niquíti.Caíque.

  9. >q triste… poxa…

  10. Pingback: O ÚLTIMO ADEUS DO ERNESTO | BUTECO DO EDU

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