AS ATUAÇÕES DO PAULO

Ontem lhes contei, aqui, sobre os personagens que compõem a assistência do Rio-Brasília, esse portento tijucano de escol. Fiz brevíssima apresentação do Paulo, o único garçom da casa, uma espécie de Nunes, o ex-camisa 9 da Gávea: atua de forma destrambelhada mas salva o sujeito sempre que a coisa aperta. Sobre o Paulo, também manifestou-se o bravo Álvaro Costa e Silva, nosso bom Marechal, aqui. E é sobre ele que quero lhes contar hoje. Sobre suas atuações, pra ser mais preciso.

E para que vocês que me lêem possam construir seus cenários particulares exibo, abaixo, uma foto do Paulo ao lado de Breno Boechat, no dia em que este último fez sua última incursão ao bar antes de sua viagem para o Canadá, onde fica até meados do primeiro semestre de 2011.

Notem bem: nesse dia, 27 de novembro de 2010, o Paulo usava uma boina de feltro cinza. Foi colocá-la sobre a cabeça e um gozador do pedaço bradou:

– Ô, Chico Xavier, materializa um maracujá aqui na minha mesa.

Deu-se a explosão de gargalhadas, quando o Breno me pediu:

– Tira uma foto minha com o médium!

Pois bem, feita a apresentação plástica e visual da figura, vamos ao que quero lhes contar.

Antes, porém, uma informação: o bom e doce Professor Diego Moreira, um dos expoentes do bairro, é testemunha de meu carinho no trato com o Paulo. Confesso que não tenho nenhuma paciência com o modus operandi do operário do buteco. Como lhes disse ontem, é completamente surdo, trabalha à base de doses indecentes de cachaça, treme as mãos agudamente, derruba tudo o que encontra pela frente mas é aquele negócio… quando chega perto trazendo o pedido é aquela figura digna de piedade e idolatria. Vou mesmo lhe contar sobre suas atuações, e começo com uma digna de registro.

Na sexta-feira passada fui com minha menina assistir ao show do João Bosco. Já quase em casa, na volta, ela disse para minha satisfação:

– Vamos beber um maracujá no Rio-Brasília?

Fomos.

E quando lá chegamos, lá estava o bom Paulo. Poucas vezes vi um magnífico (é como papai chama os graçons) fazer tanto salamaleque. Ele parecia, juro, um mestre-sala diante da cabine dos jurados. Estendeu-me a mão, beijou a mão da moça que me ensinou a sorrir, rodopiou, disse frases que eu não entendi, até que sentamos. E atenção, paulistas, para o que eu vou dizer: assim que risquei o Zippo e acendi meu cigarro, Paulo gingou em direção ao balcão e me estendeu um cinzeiro (e ele nunca havia feito isso, era mesmo para impressioná-la). Trouxe (e também pela primeira vez), guardanapos, palitos, azeite, sal, pimenta do reino, sendo que não pedimos rigorosamente nada pra comer.

– Dois maracujás, por favor!

Novos jogos de corpo, rapapés teatrais, uma afetação indescritível. Ela disse, depois do primeiro gole:

– É sempre assim?

– Não. Nunca.

E eis a frase que só mesmo uma mulher:

– Ah, que fofo.

Os marmanjos que me lêem e que já conhecem a peça devem estar guinchando de rir, mas vamos em frente.

Dia desses eu estava com o Felipinho Cereal no Bar do Marreco, que fica a exatos 220m a pé do Rio-Brasília (como seu preciso do início ao fim, eis o mapa aqui). Bebíamos de pé no balcão quando adentrou o recinto justamente o Paulo. Estava disposto a comprar cigarros para um freguês do Rio-Brasília. Cumprimentou-nos e disse ao Danilo, o barman que trabalha pro Marreco:

– Me vê um crshjwjkhsmill. – inaudível.

O Danilo, que já não é muito bom na comunicação, disse:

– Hã?

– Um maço de crshjwjkhsmill. – inaudível de novo.

Eu e o Felipinho já rolávamos, como bolas de gude, pelo chão. Fui voluntário:

– O que você quer, Paulo?

Ele riu, já manjando o clima.

– Um maço de cigarro… o nome parece com camelo, sei lá…

O Felipinho, sem fôlego, em meio à explosão ruidosa e prolongada do riso, disse:

– Camel, Danilo! Camel!

– Não tem isso não.

Seu Brasil, síndico do pedaço, estendeu o indicador em direção ao box de cigarros e disse:

– E que porra é aquele ali, ô imbecil!

– Ah! Ninguém compra essa porra!

Resolvemos o problema do Paulo.

Pra terminar: também na semana passada sentei-me no Rio-Brasília com o Vidal, a Lenda, e com Lúcio Lemos, bissexto na área, mais assíduo no circuito Botafogo, onde trabalha. Papo vai, maracujá vem, papo vem, maracujá de novo, o Lúcio sinaliza em direção ao Paulo. É um carinhoso, o Lúcio:

– Ô, Paulinho, quebra uma pra mim? Compra um Carlton ali no Estudantil pra mim?

Eu senti quando o caboclo tremeu na base. O olhar de esguelha em minha direção foi indisfarçável. Lúcio estendeu a nota de cinco reais e vimos partir o Paulo para sua marcha de não mais que 30m, trajeto ida e volta em menos de cinco minutos.

Quarenta minutos depois chega o Paulo. Imediatamente ele põe sobre a mesa um maço de Lucky Strike. O Lúcio:

– Não tinha Carlton?

O Paulo:

– Não sei.

O Lúcio:

– Por que você trouxe Lucky Strike?

O Paulo:

– Não sei.

Este, meus poucos mas fiéis leitores, é o Paulo.

Quando voltei lá, no dia seguinte, disse-me o pobre-coitado:

– De hoje em diante só saio pra comprar cigarro levando a embalagem pra comprar igual…

Até.

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15 Comentários

Arquivado em botequim, Tijuca

15 Respostas para “AS ATUAÇÕES DO PAULO

  1. >Eu estava neste dia com o Lucio. O Paulo chegou no outro bar para comprar o cigarro e esqueceu o nome, então comprou um com a caixa de cor parecida.

  2. >Este Blog está cada vez MELHOR!!!

  3. >Assino. Caralho, muito bom. Imagina: – Não sei. Não sei… Bicho, eu tô chorando de rir.- Ô, Paulô! Vem aqui, caralho!

  4. >Fala Edu,Morri de rir, dá vontade de ir lá no RB só para conhecer a peça.Abraços

  5. >Diegão: você, que não se segura de rir quando eu me dirijo ao caboclo, eu sabia que iria gostar! Beijo.Nelson: vale muito a pena. Pelo bar e pelo Paulo! Um abraço.

  6. >Caro Edu.Mudar-me para o Rio não posso! O que fazer para não morrer de inveja?? Não de voce! De seus amigos que o tem por perto!!Edu, não acredito que a Tijuca, o RB, a rua do Matoso, etc. sejam o que voce diz!Voce que tem esse dom maravilhoso de contar e descrever fatos, pessoas e lugares!! Felipinho Cereal não pode existir, tão moço e tão maduro!!! Paulo é uma figura que nem Fellini criaria!!Edu, Mirtes e eu amamos voce, a Tijuca, o RB e tudo mais que voce "cria"!Um puta abraçoJairo

  7. >Ô, Jairo, assim você me deixa sem jeito! Mas lembre-se de uma coisa que é um de meus motes: eu sou preciso do início ao fim. Nada, rigorosamente nada do que eu conto é ficção. Quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, meu caro, é capaz de reproduzir o que se passa à volta, manja? E não está o Felipinho aqui, quase todos os dias, atestando a veracidade do que eu conto? Não esteve, dia desses, o Vidal, concedendo-me o título de preciso? É tudo verdade! Um forte abraço pra você e pra Mirtes. Só não repita que isso tudo é criação minha porque não é!

  8. >Edu, logo que vc postou aqui no blog que o RB tinha voltado a funcionar tratei de ir com minha esposa. Conhecemos o Paulo neste dia do retorno e adoramos o cabra logo de cara! E minha esposa se apiedou de sua história de vida. Ah as mulheres!

  9. >Edu, "os marmanjos que me lêem e que já conhecem a peça devem estar guinchando de rir, mas vamos em frente".Eu estou guinchando de rir!!

  10. >Demais, Eduardo!!Demais!Abs,R.Pian

  11. >Caro Edu.Como não sou voce, não fui capaz de me expressar adequadamente! Quando disse que tudo isso só pode ser criação de uma mente privilegiada não quiz, claro, dizer que era invenção sua! Estava eu tão extasiado com o post que só quiz elogiá-lo!Outro abraçoJairo

  12. >Edu, o Jairo só cometeu um equívoco em seu comentário: dizer que o Felipinho é "tão jovem…". Porra, o Felipinho é mais velho do que eu!!!

  13. >Eu contei mais de um equivoco no comentario do Jairo.Abs,R.Pian

  14. >Eduboa noiteo post está ótimo, como sempre, mas eu e com certeza outros habitues estão sentido falta das suas receitas magníficas.um cordial abraço

  15. Pingback: AINDA SOBRE O PAULO, O MAGNÍFICO DO RIO-BRASÍLIA | BUTECO DO EDU

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