O BOM E VELHO RIO-BRASÍLIA

O Rio-Brasília, já lhes disse isso diversas vezes, é meu buteco de estimação. Além de ficar a exatos 120 metros de minha casa, é perfeito no que diz respeito à estrutura (azulejos antigos, balcão farto, bebida gelada etc) e ao atendimento. O Paulo, o único garçom da casa, é o pior garçom do Brasil (quiçá do mundo) mas é um excelente garçom. É surdo, bebe mais que toda a clientela, treme horrores, quebra diversos copos e garrafas por dia, derrama metade do maracujá no trajeto entre o balcão e a mesa mas é de uma gentileza comovente. Estive lá anteontem, uma vez mais, na companhia de Felipinho Cereal, Luiz Antonio Simas (acompanhado de sua senhora) e Vidal, a Lenda. Minha menina deu-me o visto para descer com uma condição:

– Já não bastam as 14 horas na rua ontem?! Vê lá, hein?! Vá rápido e traga o Vidal pra beber um uisquinho com você aqui…

Uma doçura que me emociona. A frase “traga o Vidal pra beber” deveu-se a uma de minhas frases clássicas que uso em caso de extrema necessidade:

– Eu preciso ir, sabe? O Vidal não tá nada bem… – dita com uma expressão gravíssima, uma máscara de corredor de UTI.

Ela sabe que é mentira em 90% dos casos mas funciona sempre.

Ao chegar no bar – eis o que eu queria lhes contar – a mesma assistência.

Taí uma das características marcantes de qualquer bom e clássico botequim. A assistência. Vejam vocês que os bares incensados pela imprensa têm sempre um público de museu, e explico: são pessoas estranhas ao ambiente e que chegam em levas intermináveis, ora de van (há quem organize expedições aos bares em vans), ora guiados pelo GPS do automóvel.

Já os tradicionais, não.

Não têm público de museu. Têm, mais que freqüentadores, figurantes fixos. Aqueles que, quando não aparecem no pedaço, merecem a frase:

– Fulano faltou hoje.

Pois o Rio-Brasília é assim. E lembrei-me de lhes contar isso por conta da atuação do Vidal na noite de domingo. Muito provavelmente para ver aflorar minha veia crítica deu de perguntar:

– Quem é esse, Edu? E aquele? E aquele outro? – por aí.

Felipinho Cereal me ajudou nas respostas. Lembrei-me de um detalhe: em um desses botequins clássicos – como o descrito aqui por meu irmão, Fernando Szegeri – poucas vezes se sabe o nome dos figurantes. O que vale é mesmo o apelido.

Lá estava no domingo o Benito di Paula Preto – “com a mesma camisa há três dias”, apontou o Cereal. O sujeito é os cornos do cantor friburguense, aquele cabelão, aquela barbicha. Antes de prosseguir quero lhes contar um troço.

Papai é um homem que anda com uma carteira imaginária de frases prontas no bolso. E sempre – eu disse sempre! – que papai passa em frente a um botequim e vê, lá, sentado numa das mesas ou mesmo de pé no balcão, uma pobre alma solitária bebendo sua cerveja, ele solta em tom de lamento:

– Coitado… Todos os dias esse homem está aí. Não tem família! Não tem família!

Pois estava no Rio-Brasília, também, a Sem Família. Trata-se de uma mulher na casa de seus 45 anos e freqüentadora diária. Parece um daqueles vendedores de bilhete de loteria dos botequins: passa a noite indo de mesa em mesa, filando um cigarro aqui, um gole de cerveja ali, até que é resgatada, todas as noites, pelo filho. Há, é preciso dizer, outras duas com o mesmo comportamento: são a Sem Família I e a Sem Família II. Há também a Cássia Eller da Tijuca, moradora do prédio em cima do bar. Pelo que conta Felipinho Cereal, um observador nato, mora com outra mulher e as duas adotaram uma criança que – vejam vocês! – também tem apelido: Chicão, por conta do nome do filhote da roqueira falecida. Outra figura clássica: o Bigodinho, vizinho do Cereal. Também o Taxista, que todos os dias – todos! – comparece com a mulher e o casal de filhos. Outro que estava lá diariamente – mas sumiu – é o Pica-Pau. Depois que se envolveu num imbróglio que beirou as vias de fato com o Felipinho Cereal e o Espanhol, seu tio, sumiu para sempre. O Felipinho, inclusive, já é chamado pela assistência de Exterminador de Aves, por conta disso. Pois ficamos ali legendando os personagens para delírio do Vidal. Pagamos a conta – e uma vez mais coube a cada um menos de dez reais – e fomos pra casa, eu e meu dentista.

O Vidal, à certa altura, já na terceira dose de uísque – foi-se embora minha garrafa de Blue Label – contou pra minha menina minha atuação quanto à apresentação dos figurantes. E ela, de voleio:

– E tu acha que falam o quê do Edu? Ele também está lá todos os dias, todos os dias!

De olhos baixos – aqueles olhos-faróis, verdíssimos, perdição de suas pacientes – ele disse:

– É… pouco antes do Edu chegar a Cássia Eller da Tijuca comentou sobre a ausência da Baleia de Gravata. Foi quando o Benito di Paula Preto perguntou a ela se a referência era ao Maracujá-Kojak.

Até.

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13 Comentários

Arquivado em botequim, Tijuca

13 Respostas para “O BOM E VELHO RIO-BRASÍLIA

  1. >#MEUDEUUUSSSS#NOOOOSSSSAAAAAAA galera dos butecos não perdoa mesmo.Eu já fui Corujito(por causa dos óculos que usava), Pirulito(Era muito magro e a cabeça proeminente) e em São Gonçalo, era conhecido como Balão Carrapeta("Olha lá, o balão tá caindo aqui").Brabo….Caio

  2. >Preciso como sempre.Valeu meu irmão por mais uma noite memorável.Beijo grande

  3. >Quanto ao título do Paulo, Pior Garçon do Brasil, acho que vc deve uma visita ao Decolores em Niterói, ali no Portugal Pequeno, o único bar de português com bandeira do Fluminense. Pois o Joel, concorrente ao título, além de todos os quesitos bem representados pelo Paulo, ainda é grosso pra caramba, e expulsa os clientes quando tem vontade de fechar a casa.Como se não bastasse, lá ainda se come um ótimo bolinho de bacalhau, arroz com camarão e ervilhas, arroz com polvo (ou lula) e brócolis, e várias modalidades de bacalhau. Tudo isso enquanto se acompanha o sofrimento dos engarrafados na Ponte Rio Niterói, que vemos bem debaixo, quase à sombra da mesma de tão pertinho, não fosse esse aleijão e os estaleiros a pleno vapor dir-se-ia estar em 1960!

  4. >O Felipinho Cereal pode ser o Leôncio (Wally Walrus), a morsa sueca que sempre está brigando com o Pica-Pau.

  5. >Nelson Rogrigues escreveria um livro se ficasse sentado ali apenas por uma noite. Um bar clássico, personagens imundos e esgraçados, e cenas bizarras. É o verdadeiro pé-sujo carioca. O Rio-Brasilia está no coração de todos que o frequentam.

  6. >Digo, "engraçados"…Aliás, o Rio-Brasília, Marreco e Estudantil fazem o trio de ouro da região. Só peça!

  7. >Adorei!Saudades de um bom buteco… Por aqui só tem Pubs. Alguns bons, é verdade. Mas quem é acostumado com o clima dos butecos cariocas se sente fora d'água.

  8. >É disso que eu estou falando!Postaço!

  9. >Eu, que também sou um assíduo frequentador deste grandioso botequim, torço para o dia em que eu possa envergar como uma medalha meu apelido no RB! Grande texto, Edu!

  10. >caro EDU:Conheço alguns botecos do Rio, alguns antológicos, mas o RIO-BRASÍLIA ainda não tive o prazer.Como vou estar no Rio na semana que vem toda, esse seu texto aguçou minha curiosidade por encostar o cotovelo nesse afamado balcão e conhecer o tal garçon.Faltaram fotos, como você fazia antigamente (antes do plágio), para ilustrar o escrito. Passe também o endereço e se paulistas (com espírito carioca) são bem vindos.Saudações bauruensesHenrique Perazzi de Aquinowww.mafuadohpa.blogspot.com

  11. >Vidal, meu irmão: obrigado por confirmar, mais uma vez, que a precisão é minha companheira inseparável. Beijo.Henrique: fica na rua Almirante Gavião, na Tijuca (evidentemente). Quase na esquina da rua Haddock Lobo. Não confundir com uma lanchonete na mesma calçada. O RB fica num cantinho, colado na portaria de um prédio, sem letreiro, sem estardalhaço. E é claro que paulistas são bem-chegados. Muito graças ao blog aquilo ali virou uma espécie de Meca dos que vêm de fora. Um abraço.

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