O ESPÓLIO DE MINHA AVÓ

(dedicado a meus irmãos, Fernando Braga Goldenberg e Cristiano Braga Goldenberg, e a minha mãe, Mariazinha)

Mamãe viveu ontem, ao lado de minha menina, de certa forma (infinitamente menos dolorosa, é verdade), o drama de “arrumar o quarto de um filho que já morreu”. Esteve na casa de vovó, na Tijuca evidentemente, para tratar das coisas práticas que o evento morte exige. Eu, um poltrão (como diria minha bisavó), evitei a tarefa. Mas vamos ao que quero lhes contar, sempre norteado pela lição de grandeza que o samba me ensinou: erguer o copo ao humor (apud Aldir Blanc).

Minha infância é povoada de mulheres. Bisavós, tias, avós, a parentalha toda (e fomos sempre uma família, digamos, regida pelo matriarcado – refiro-me à linhagem de mamãe) virava e mexia soltava uma frase que era, na verdade, o brandir de um brasão imaginário:

– Somos parentes do Barão de Paraopeba!

Isso era usado em qualquer situação. Encerrava-se uma discussão com algum vizinho com essa sentença fatal:

– Somos parentes do Barão de Paraopeba!

Pequena pausa: isso me vinha sempre à cabeça, anos depois, quando eu ouvia o anúncio “ninguém, ninguém, ninguém segura o Khalil!” (entendam isso, aqui).

O Barão de Paraopeba era, para mim, na mais tenra infância, um mito. Vamos em frente.

Antes, porém, nova pausa: peço ao meu dileto e fraterno Diego Moreira, especialista na arte de escarafunchar o passado das famílias, que me auxilie com os graus de parentesco daqui por diante. Vamos lá.

Romualdo José Monteiro de Barros era o nome do Barão de Paraopeba. Teve, o dito cujo, 11 (onze) filhos, sendo que o mais velho era o Desembargador Francisco de Paula Monteiro de Barros. Este, por sua vez, teve 08 (oito) filhos, um deles Eugenio Monteiro de Barros, nascido na fazenda Boa Esperança, de propriedade do Barão, em Congonhas do Campo, MG, em 20 de agosto de 1835. Vida que segue, Eugenio Monteiro de Barros casou-se, já no Rio de Janeiro, com Francisca Carolina Werna da Fonseca Monteiro de Barros, nascida em 25 de maio de 1845, tendo morrido a dona Chica em 28 de fevereiro de 1918. Eis que dona Chica era outra personagem de minha infância. E isso porque as minhas velhotas particulares tinham uma outra frase impactante:

– Cadê o postal que a Isabel mandou pra Chica?

Era essa frase ser lançada no ar e havia sempre um atropelo em direção a uma das cômodas de um dos cômodos da casa de minha biasavó.

Vamos em frente. Eugenio Monteiro de Barros e Francisca Monteiro de Barros tiveram 08 (oito) filhos. Um deles? Francisco de Paula Monteiro de Barros, nascido em 12 de fevereiro de 1871. Foi este Francisco (que já tem nome idêntico ao Desembargador lá do começo da história) que casou-se, em 17 de setembro de 1892, com Leonor Isabel de Sá Caminha. Dentre os filhos que tiveram, nasceu meu bisavô, Eugenio Augusto Monteiro de Barros (tenho histórias dele pra contar, a quem não conheci, mas fica pra outro dia, vamos em frente), no dia 22 de novembro de 1893. Meu bisavô exerceu durante muitos anos o alto cargo de contador da Companhia de Navegação Costeira, foi presidente da União dos Empregados do Comércio do Rio de Janeiro, deputado federal classista tendo assinado a Constituição de 1934 e casou-se em 17 de maio de 1913 (mesmíssimo dia em que nasceu, anos depois, minha mãe), com a dona Mathilde Veloso, minha amada bisavó, que passou a assinar Mathilde Veloso Monteiro de Barros, ela filha de Francisco Veloso, português, e de Julia Pinheiro Veloso, egressa de São João da Barra.

Agora é que eu preciso do Diego! Eu sou o quê da dona Francisca, meu Deus?! Isso deixa para lá, vamos em frente.

As velhotas se engalfinhavam, de vez em quando, em busca de ver, de tocar, de ler o tal “postal que a Isabel mandou pra Chica”.

É que a dona Francisca, a Chica, era amicíssima da dona Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon. Filhota de Dom Pedro II, Isabel casou-se com o Conde d´Eu dando origem aos atuais herdeiros da coroa imperial, os Orléans e Bragança. Eis o fato: dona Chica era muito amiga da Princesa Isabel.

Isabel deixou o Brasil com 43 anos de idade (e se eu estiver errado me corrijam) em 17 de novembro de 1889, pouco depois da proclamação da República. Consta que teria partido “aos soluços, sob as ordens e intimações do tenente-coronel João Nepomuceno Mallet”.

Consta das lendas familiares que Chica traficava feijão preto pra França, a fim de matar as saudades que Isabel sentia do Brasil, do Rio de Janeiro. Consta, ainda, que eram muitas as correspondências mantidas guardadas sabe-se lá por quem.

E eis o que eu queria lhes contar.

Vovó mantinha em casa um dos postais – o tal, o tal! – e mamãe, ontem à noite e a pedido meu, fez de mim o fiel depositário do que é, pra nós, um documento.

O postal, datado de 08 de outubro de 1915, foi enviado de Paris e traz, na frente, uma fotografia de Isabel, onde se lê:

“Saudosos agradecimentos, Isabel Condessa d´Eu”

No verso, lê-se:

“Minha querida Chica: quanto lhe agradeço suas boas acções por ocasião do dia 29 de julho! (…) na saudosa Cathedral! Quantas recordações!

Não me lembro se você já tem esta photographia. Em todo caso lhe mando e com ella nossas lembranças muito affectuosas.

Isabel Condessa d´Eu.

O Silva Costa lhe fará entregar os 500$ que lhe serão úteis queridíssima!”

É, de fato, emocionante, estar com o cartão em mãos, 95 anos depois dele ter sido expedido de Paris, manuscrito pela Princesa Isabel, de ter chegado às mãos da dona Francisca (segundo minhas parcas contas, minha tataravó), de ter ficado tantos anos com minha bisavó, Mathilde, e outros tantos com minha avó, também Mathilde.

É desse patrimônio, imaterial e afetuoso, que é feito o espólio de minha avó.

E tem sido tão fascinante o revirar do baú que me foi entregue que tenho ouvido, em estado febril, o alarido das velhotas em êxtase diante das lembranças que guardo dentro de mim, agora amparadas pelos documentos, pelas fotografias, pelos bilhetes e pelas cartas que mamãe me entregou.

Com o passar dos dias, se os deuses assim permitirem, divido muitas coisas com vocês, contando as histórias que cresci ouvindo e que ainda hoje me assombram de deslumbramento de tanto amor que minha família semeou.

Até.

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12 Comentários

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12 Respostas para “O ESPÓLIO DE MINHA AVÓ

  1. >Velho, vi que você caiu dentro do link com as ramificações genealógicas que eu te mandei, né?É exatamente um modelo como esse que estou começando a escrever para minha família.Bom, apesar do "deixa pra lá", venho dar o meu pitaco quanto ao grau de parentesco dos seus ancestrais a seguir:1 – Eugenio Augusto Monteiro de Barros (bisavô)2 – Mathilde Veloso Monteiro de Barros (bisavó)3 – Francisco de Paula Monteiro de Barros (tataravô ou trisavô)4 – Leonor Isabel de Sá Caminha (tataravó ou trisavó)5 – Dr. Eugenio Augusto de Miranda Monteiro de Barros (tetra-avô)6 – Francisca Carolina Werna da Fonseca Monteiro de Barros "Chica" – (tetra-avó)7 – Desembargador Francisco de Paula Monteiro de Barros (penta-avô)8 – Ana Carlota de Miranda (penta-avó)9 – Romualdo José Monteiro de Barros "Barão" (Hexa-avô)10 – Francisca Constança Leocádia da Fonseca "Baronesa" (hexa-avó)11 – GUARDA MOR MANUEL JOSÉ MONTEIRO DE BARROS (Hepta-avô)12 – Margarida Eufrásia da Cunha Matos (hepta-avó).No mais, meu velho, acho de uma beleza comovente esse espólio. Esse postal é um documento histórico, velho. Tenha certeza disso.Uma beleza. Estou comovido. Abraço!

  2. >qual eh o link, diego?r.pian

  3. >Maravilha esses seus relatos, Edu. De tempos em tempos volto a esse buteco. E é sempre um prazer muito grande.Abraço de seu leitor.Fred Nicholson

  4. carlos campos

    Edú , meu pai um Gomes de Campos, vivia dizendo ser da familia do barão de Paraopeba, ele ,meu pai , era de Carangola-MG, como acreditar nisto??.

  5. Angela Paula Jucá Monteiro de Barros

    Olá Edu, meu nome é Angela Paula Jucá Monteiro de Barros, filha de um Francisco de Paula Monteiro de Barros e neta de Dona Mathilde Velozo Monteiro de Barros. Então, entendo que devemos ter nosso grau de parentesco. É engraçado ler sua história pois também cresci ouvindo falar no Barão de Paraopeba… mas enfim, um grande abraço e parabéns pelos relatos. A próposito, teria você mais notícias do restante da nossa família?

  6. Marcelo Reis

    Como vcs descendo tb, meu ramo é através de Francisca de Paula Monteiro de Barros casada com Dr . José Rezende Monteiro de Barros Galvão de São Martinho. Estou achando isso tudo maravilhoso, cresci ouvindo muitas histórias de nossa família, contadas por minhas avó e bisá.

  7. Marco Aurélio Ferreira Xavier

    Curiosamente em minha família, ramo materno, ouço a mesma história desde criança, sobre a descendência de algum monteiro de barros.

  8. marcos maurício mendes lima

    Queria saber onde encontro o livro: “Genealogia da Família Monteiro de Barros”. Estou tentando identificar as famílias do Padre Álvaro José Monteiro de Monteiro de Barros (1921/2014), falecido em janeiro no Bairro Durval de Barros, em BH. O Padre Álvaro, era natural de Belo Vale, onde havia também descendentes do Barão de Paraopeba. Estou tentando identificar a família de Ana Carolina Nogueira Penido (nome de solteira Ana Carolina Monteiro de Barros), provavelmente nascida em Bonfim. Gostei muito desta matéria, pois a história me fascina, principalmente as com raízes mineiras. Obrigado.

  9. marcos maurício mendes lima

    Prezado Carlos Campos, não devemos duvidar das lembranças alheias, elas podem às vezes surpreender-nos. Carangola no passado pertenceu a comarca de Muriaé. Em 1865, havia em Muriaé o bacharel Miguel Eugênio Monteiro de Barros, nas funções de Juiz de Órfãos e e Delegado. Havia também um certo Fortunato Rodrigues Campos, que segundo o censo daquela época, fazia parte da Câmara Municipal de Muriaé (veja referência dele no Projeto Compartilhar). Outro detalhe, o bacharel Miguel Eugênio Monteiro de Barros, era nada menos do que o filho do Barão de Paraopeba. Vou pesquisar mais sobre o bacharel Miguel Eugênio.

  10. Marcia M. Barros Carvalho

    Prezados familiares, tenho como ancestral o Sr. Romualdo José Monteiro de Barros, inclusive já vi um livro da família, que nosso primo Eduardo Monteiro de Barros possui. Temos um primo, o Maurício, que faz juntada de documentos da nossa família e está a escrever um livro. Inclusiva já participei de dois encontros da nossa família, para almoçarmos juntos, um no RJ, outro em Niterói. Foi maravilhoso! Resido em Macaé. Um grande abraço a todos. Márcia M. Barros Carvalho

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