>EM NOME DA VERDADE

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Costumo dizer aqui, no blog, com bastante freqüência, que sou um homem preciso do início ao fim. Fui moldado no barro da mais rigorosa verdade, alicerce assentado por meus pais e solidificado, ao longo da vida por conta dos livros que li, das histórias que vivi, dos amigos com os quais convivi. É isso – e a isso também sempre faço menção – o que mais incomoda os meus detratores: nada do que digo é desprovido da verdade, por mais doída que a verdade seja. Feito o brevíssimo intróito, vamos aos fatos que trago hoje à tona, pretendendo costurar um pano de fundo para que ao final a coerência, de mãos dadas com ela, a verdade, deixe cada um dos que me lêem com os elementos necessários à formação de sua própria convicção.
No dia 07 de outubro próximo passado, publiquei aqui, em primeira mão, a declaração pública de voto do compositor Aldir Blanc em Dilma Rousseff. Imediatamente, diversos sites, portais e blogs replicaram o contundente recado do bardo tijucano. Verdadeiros portentos da grande rede, com centenas de milhares de leitores diários, ajudaram a espalhar aos quatro ventos sua declaração. Cito alguns exemplos, justamente os que estão sabidamente entre os mais lidos da internet brasileira: o portal do PT, aqui, no dia seguinte, 08 de outubro, mesma data da publicação no blog de Brizola Neto, aqui. Luiz Carlos Azenha, que mantém o site VI O MUNDO e que conta com mais de 50.000 leitores diários, no dia 11 de outubro lançou luzes sobre a declaração de Aldir, aqui. No mesmo dia, 11 de outubro, foi a vez de Hermínio Bello de Carvalho, em seu blog, citando Aldir Blanc, dar a sua declaração de voto, aqui. E, como último exemplo, o portal de Luis Nassif, outro portentoso canal de notícias, que no feriado de ontem deu voz e vez a Aldir Blanc, aqui.

Citei, como se vê, pela ordem, o partido que conta com a preferência da maioria do eleitorado brasileiro, um deputado federal afinado com os avanços do governo Lula, um jornalista que hoje mantém um site absolutamente independente, parte do grupo conhecido como “progressista”, esse grande brasileiro que é o Hermínio, propagador das idéias de valorização da brasilidade, poeta, compositor e produtor, e outro jornalista de incontestável posição no cenário brasileiro. Todos, ao lado de Aldir Blanc. Assim como ao lado de Aldir – e de Dilma Rousseff – estão Leonardo Boff, Chico Buarque, Fernando Morais, Emir Sader, Eric Nepomuceno e Oscar Niemeyer, dentre tantos outros que entregarão, na próxima segunda-feira, 18 de outubro, um manifesto de apoio político à candidata petista. Um belo time, quero crer.

Vamos ao contraponto, que é sempre saudável desde que manifestado em bases minimamente racionais, sem apelo ao golpe baixo, à sordidez e à mentira.

Um blog ligado à revista VEJA, um dos maiores esgotos da imprensa brasileira, comandado pelo jornalista Augusto Nunes – que joga no mesmo time de jornalistas ligados à imprensa golpista do Brasil – deu voz e vez a uma suposta resposta dada a Aldir Blanc pelo também compositor Guttemberg Guarabyra. A simples leitura do título da postagem que tornou pública a resposta de Guarabyra já dá o tom da baixeza: para Augusto Nunes, Aldir Blanc delira enquanto Guttemberg Guarabyra faz o que ele chamou de reflexões (vejam aqui).

Em suas “reflexões”, Guarabyra joga sujo. Chama Aldir Blanc de mentiroso. E de covarde, quando faz a incompreensível pergunta “quem é você para falar dos torturados e mortos sendo covarde?”. E ao final, depois de um texto rigorosamente desconexo, fecha sua “reflexão” dizendo “ou você mudou muito ou já houve tempos em que esteve mais lúcido e mais inteligente”. Engraçado, esse troço – e vou lhes contar por qual razão meto minha colher nessa cumbuca.

Quem “mudou muito” foi Guttemberg Guarabyra. Acompanhem meu raciocínio.

Matéria assinada pelo jornalista Hugo Sukman e publicada no jornal O GLOBO de 15 de junho de 2003 – intitulada FERIDA ABERTA NA MPB -, dava conta de um dos episódios mais controversos da música brasileira. Vamos a trechos do relato de Hugo Sukman:

“Que Chico, Caetano, Vandré, Gil e a turma dos anos 60 foram símbolos na classe artística da luta contra a ditadura até as paredes do Dops sabiam. Mas que Guttemberg Guarabira – o cebeludo inventor do rock rural ao lado de Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix – foi o secreto protagonista de uma das aventuras mais eletrizantes dessa luta, isso foi revelado pelo recém-lançado “A era dos festivais – Uma parábola”. O livro, do musicólogo Zuza Homem de Mello, revela que o compositor da doce “Margarida” – canção romântica inspirada em cantigas de roda, vencedora do Festival Internacional da Canção de 1967 – doi o idealizador do célebre movimento que, em 1971, quase detonou o festival ao promover a inscrição de canções-fantasmas de grandes compositores (Tom, Chico, Marcos Valle, Edu Lobo, Sérgio Ricardo e outros) que na hora agá retiraram sua participação e divulgaram manifesto contra a censura.

Pois tal aventura subversiva – reforçada por ele ocupar na época o cargo de diretor artístico do festival – não foi novidade na vida de Guarabira, filho de uma família de comunistas baianos.

– Desde criança estava acostumado a esconder gente no meu quarto –  diz Guarabira ao GLOBO – Cheguei a guardar armas da ALN (Aliança Libertadora Nacional, movimento liderado por Carlos Marighela) em meu apartamento em Copacabana.”

Mais à frente:

“Ao lado de Chico Buarque, a quem ele procurara sigilosamente e que logo aderiu à conspiração mesmo em pleno ensaio do show “Construção”, no Canecão, Guarabira teve que levar vida dupla: de dia batendo ponto na sede do Festival, na TV Globo, e até em reuniões com a Censura e o Dops, que pressionavam o festival e a emissora em parar, e à noite convencendo seus colegas, secretamente, a inscrever músicas falsas no Festival – Tom e Chico mandaram “uma canção meio sombria”, “Que horas são?”, que nunca existiu.

Antes de a Censura perceber, o manifesto foi publicado no jornal “Última Hora” e chegou às agências estrangeiras. Virou caso internacional. A ditadura se desmoralizou onde não esperava.

Guarabira teve que enfrentar desconfianças mesmo entre os colegas. Alguns, como Torquato Neto e Ruy Guerra, consideravam-no um “vendido” ao sistema, pois não sabiam do jogo duplo.”

Tem muito mais na matéria – e são informações desinfluentes no momento – mas quero agora mencionar o fato específico que me faz ter condições de lhes dizer quem é que merece a pecha de “covarde” que Guttemberg Guarabyra, covardemente, lança sobre Aldir Blanc. Preciso lhes dizer, ainda, que escrevo o que quero e porquê quero. Eventual posicionamento do Aldir sobre a “reflexão” de Guarabyra no esgoto da VEJA será dada a seu tempo na coluna mensal que o bardo tijucano mantém no jornal O GLOBO.

A tal matéria publicada em 15 de junho de 2003 n´O GLOBO – que ouviu, além do próprio Guttemberg Guarabyra, como vimos, os compositores Cesar Costa Filho e Aldir Blanc – levou Cesar Costa Filho a distribuir ação judicial de indenização por danos morais contra Aldir Blanc, seu ex-parceiro. Distribuída em 20 de junho de 2003 perante o VIII Juizado Especial Cível da Comarca da Capital do Rio de Janeiro, tomou o número 2003.800.073432-6 e requeria, à época, R$ 9.600,00 (nove mil e seiscentos reais) pelos alegados danos sofridos.

Seguindo o rito processual, foi marcada audiência de conciliação para o dia 20 de agosto daquele mesmo ano, às 14h.

Dentre outras razões supostamente geradoras dos tais danos morais pleiteador por Cesar Costa Filho, estava uma declaração de Aldir Blanc publicada na matéria assinada por Hugo Sukman:

“A culpa do fracasso dele não é minha. Ele não pode dizer isso 30 anos depois – reage Aldir, que rompeu com Cesar assim que soube, por Guarabira, que teria sido ele a delatar os compositores que assinaram o manifesto – O Guarabira estava na sala e disse ter visto e ouvido o Cesar pegar o telefone e passar a história toda. Perdoar esse tipo de falha de caráter é impossível.”

Aldir reagia, na entrevista, à indagação de Hugo Sukman com base na declaração anterior de Cesar Costa Filho, como mostram outros trechos da matéria de 2003 do jornal O GLOBO:

“A bem sucedida conspiração urdida por Guarabira também deixou suas feridas. Que ainda estão abertas. Guarabira conseguiu fugir para Brasília num jatinho do Banco do Brasil (namorava a filha de um diretor do banco estatal). Os compositores do manifesto foram todos convocados para depor, do habituado Chico Buarque a Marcos Valle, e até o insuspeito Tom Jobim.

O problema se deu com os compositores mais jovens que, liderados, segundo o livro, por Aldir Blanc er Gonzaguinha, e também orientados por Guarabira, apoiaram os colegas mais experientes. Ainda segundo o livro, o texto de desistência dessa turma chegou a ser redigido, mas “um deles, integrante do MAU e concorrente, teria ficado com medo e telefonou para o festival denunciando que seu companheiro Gonzaguinha estava passando o abaixo-assinado. Aí os militares resolveram intimar os novatos a depor também.”. Em outras palavras, um concorrente, membro do Movimento Artístico Universitário, teria delatado os companheiros.

Como os outros membros do MAU concorrentes (além de Aldir e Gonzaguinha, Paulo Emílio, Marcio Proença e Silvio da Silva Jr.) assinaram, sobra Cesar Costa Filho, parceiro de Aldir na canção “Medo”.

Quase 32 anos depois, Cesar aceitou dar ao GLOBO pela primeira vez sua versão da história. Compositor emergente na ocasião, participou com sucesso de festivais universitários, do programa “Som Livre Exportação” e, numa bela canção com Aldir, “Ela”, batizara disco de Elis Regina.

Depois do episódio, contudo, sua carreira foi interrompida. Hoje, declara-se vítima de uma conspiração dos próprios colegas, liderados por “um colega” que “queria que todas as portas se fechassem para mim”. Cesar, que está praticamente afastado da vida artística, trabalhando como vice-presidente da sociedade arrecadadora de direitos autorais Addaf, diz que nunca soube de qualquer manifesto:

– Fiquei sabendo que todos os classificados teriam que portar um crachá, que seria obrigatório para apresentarem suas músicas, quando subissem ao palco – diz Cesar – Em princípio estranhei a exigência. Em outros festivais, nunca pediram nada semelhante. Caso eu concordasse, teria que assinar um documento me comprometendo a usar o crachá. Naquele momento, jamais poderia imaginar que, ao assinar tal documento, estaria servindo aos propósitos daqueles vermes. Tudo o que eu mais queria era cantar minha música e não via problema em usar um simples crachá. Imaginei que deveria ser alguma decisão dos organizadores para coibir a entrada de pessoas estranhas ao evento, mesmo porque o letrista da minha música poderia ter impedido que sua letra fosse divulgada, caso assim desejasse.

O letrista da música era Aldir Blanc, signatário do manifesto, não citado nominalmente pelo ex-parceiro, mas claramente “o colega” que, segundo ele, queria prejudicá-lo.”

Foi por conta disso que Aldir deu a resposta que deu, geradora da ação indenizatória a que me referi.

Voltemos à ação. Aldir foi intimado para apresentar sua defesa em 03 de julho de 2003. Preparei sua contestação – com 38 laudas e centenas de documentos – e entrei em contato com diversas pessoas que entendi como importantes para eventual depoimento testemunhal, dentre elas Guttemberg Guarabyra. Falei com ele, diversas vezes, por telefone. Busquei confirmar que fora ele mesmo quem dissera a Aldir Blanc sobre o tal telefonema de Cesar Costa Filho. Falei com Zuza Homem de Mello, com Hugo Sukman, com Leonardo Aversa (que fizera as fotos para a matéria), com Chico Buarque. Todos se dispuseram a colaborar. Menos Guttemberg Guarabyra, que roeu a corda no último momento.

Eis que no dia da audiência, na sala de audiências do VIII Juizado Especial Cível, na Tijuca, diante da contestação, das provas, Cesar Costa Filho desistiu da ação. Para que você, leigo, compreenda melhor o fato, um autor só pode desistir da ação, depois de intimado o réu, com a anuência deste último.

Pois foi o que se deu, como demonstra a imagem abaixo, que traz a ata da referida audiência – tendo sido, então, desncessária a oitiva das testemunhas arroladas.     

Em 02 de setembro, pouco mais de uma semana depois, foi lavrada a sentença que homologou a desistência de Cesar Costa Filho, com o que anuiu o Aldir, com base no art. 267, inciso VIII, do Código de Processo Civil.

Qual não foi minha surpresa – e notem como as peças vão se encaixando e o quadro vai ficando mais nítido – ao ler, meses depois, carta assinada por Cesar Costa FilhoO GLOBO – e em diversos sites – dando conta de que Aldir Blanc teria se retratado judicialmente, o que me obrigou a escrever para o jornal a carta cuja imagem segue abaixo, restabelecendo a verdade dos fatos.

Pouco mais de sete anos depois, deparo-me com a tal “reflexão” de Guttemberg Guarabyra no esgoto da VEJA. Rápida pesquisa me dá a certeza de que Guttemberg Guarabyra tem vaga cativa no blog de Augusto Nunes, ligado a uma das mais abjetas revistas da imprensa brasileira (mero exemplo, aqui). É quase uma parceria.

Não é preciso muito esforço para, comparando as companhias, as posturas, as histórias, as biografias, saber quem é quem nesse imbróglio.

Dar essa pequena contribuição, foi tudo o que pretendi hoje.

Até.

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5 Comentários

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5 Respostas para “>EM NOME DA VERDADE

  1. >Eita ferro, esse período da história do nosso país realmente é obscuro.Quanto a este colunista da Veja, distorce até pensamento de leitor.É tão raivoso que não tem crédito nenhum. Aproveitem passem lá no http://passavantecr.blogspot.com/ e votem no blog , para fortalecermos o verdadeiro trabalho de jornalismo!

  2. >Duas coisas. (1) Não enviei minha resposta à revista. Foi surpresa para mim tê-la visto publicada ali. (2) A entrevista que você citou, dada a Hugo Sukman, foi-me solicitada pelo próprio Aldir que estava sendo processado. Concordei imediatamente em conceder a entrevista e o autorizei a declarar em juízo que eu próprio havia testemunhado os fatos, confirmando o que ele, Aldir, já havia declarado e em conformidade com o teor do que está contido no livro de Zuza Homem de Melo. Portanto, não há nenhuma contradição em minha conduta.Continuo, no entanto, decepcionado com o que prega Aldir em sua declaração de voto, motivo de minha crítica. Ao afirmar que a oposição representa forças retrógradas, entre elas os ruralistas, trata-se de falta de informação. Ao caracterizar o voto em Serra como apoio inclusive à volta de torturadores é desleal, e, nesse sentido, covarde, visto que a oposição também é legado de quem defendeu a liberdade e a democracia inclusive ao custo da própria vida. E ao dizer que votar no candidato da oposição significa ameaça de o povo brasileiro perder a Petrobrás, está simplesmente delirando.No mais, continuo admirando-o como grande poeta e excelente companheiro em outras lutas. E estou certo de que no futuro, após refletir sobre o assunto, pensará em tratar com mais lucidez e respeito quem representa democraticamente correntes divergentes das que defende.

  3. >Guarabyra: vamos ao que tenho a lhe dizer, já que você veio aqui para dizer "duas" coisas.01) quem teria enviado sua resposta à revista VEJA, então? Não creio que tenha sido exatamente uma "surpresa" para você. Não é a primeira vez que Augusto Nunes dá voz e vez a você naquele blog;02) a entrevista que eu citei, dada a Hugo Sukman, não pode ter sido solicitada "pelo próprio Aldir" por conta do processo pelo simples fato de que o processo foi decorrente da entrevista;03) fico satisfeito, entretanto, que você, uma vez mais, confirme que contou ao Aldir os fatos envolvendo Cesar Costa Filho, pois foi por conta disso que este último tentou obter indenização na Justiça;04) sua resposta, publicada no blog da VEJA, é clara: você chama a ele, Aldir, de covarde. Agora, aqui, dá outro tom ao ataque. Não seria de bom tom fazê-lo lá? Embora eu não tenha audiência desprezível, seguramente não se compara com a audiência que os que chafurdam naquele lixo dão ao blog do Augusto Nunes .Muito obrigado.

  4. >Independente de o processo haver decorrido em função de minha entrevista, o fato é que Aldir telefonou-me para solicitar que recebesse o repórter para a realização da matéria, e assim o fiz. A minha atuação no episódio está registrada em livros e reportagens da época e jamais me furtei em esclarecê-la. A desqualificação de Aldir ao voto da oposição acusando-o de representar a volta inclusive de torturadores é covarde no sentido que explicitei. O blog de Augusto Nunes publicou até agora duas opiniões que emiti e em nenhuma delas tive qualquer participação no sentido de promover sua divulgação. A primeira, uma observação notadamente técnica sobre pesquisas políticas, já tinha sido publicada anteriormente em matéria assinada pela articulista Dora Kramer, de onde o colunista a extraiu. O jornalista, inclusive, informa isto no lide da página em que repercute minha opinião. A resposta atual a Aldir postei num fórum de discussão e ignoro a maneira como foi transmitida a Augusto Nunes. Não precisa agradecer.

  5. Pingback: ALDIR BLANC ENCERRA IMBRÓGLIO COM GUARABYRA | BUTECO DO EDU

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