>MEMORABILIA DO MARACANÃ – PARTE II

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Hoje publico o segundo texto da série em homenagem às minhas memórias relacionadas ao Maracanã, gigante de concreto que está nos estertores graças à sanha nojenta dos homens que comandam o futebol no Brasil, contagiados pelos vermes que comandam o futebol no mundo. Se ontem, aqui, fui arremessado para o ano de 1978, hoje avanço um bocado e volto apenas 25 anos no túnel do tempo.

Estamos em 31 de julho de 1985, noite de quarta-feira. Eu, então com 16 anos (sou uma múmia, eis a tristíssima constatação), acompanhado de meu velho pai (a anotação no verso do ingresso não me permite errar), fui ao Maracanã (o quadragésimo sexo jogo daquele ano, notem no final que os ingressos da época marcavam a seqüência dos jogos) para assistir à improvável final do campeonato brasileiro daquele ano entre Bangu e Coritiba. Mais de 91.000 torcedores lotaram o estádio e o que se viu foi uma festa carioquíssima, com torcedores de todos os grandes clubes do Rio de Janeiro unidos e torcendo por uma vitória do vermelho-e-branco da zona oeste.

Para que você que me lê – e é de fora do Rio – possa entender, preciso dizer uma coisa: o presidente de honra do Bangu era ninguém mais, ninguém menos, que o todo-poderoso Castor de Andrade, famoso contraventor no Rio de Janeiro, e mesmo no Brasil, que viveu seus anos de glória nos anos 80. Era o dinheiro de Castor, que jorrava por aquelas bandas (no clube e na Mocidade Independente de Padre Miguel), que permitia ao modesto Bangu pagar altíssimos salários e atrair bons jogadores para defender o clube. Dirigida por Moisés, o esquadrão banguense contava com Fernando Macaé, Pingo, Ado (que perdeu o pênalti que deu o título ao Coritiba) e Marinho, entre outros destaques.

Das muitas lendas que envolvem Castor de Andrade, uma contava que o patrono não apenas pagava altos salários e em dia, mas também pagava “bicho” até em treino!

Vale dizer – para explicar a trilha sonora das arquibancadas – que naquele ano de 1985 Castor de Andrade já havia comemorado o título do carnaval carioca com a vitória da Mocidade Independente de Padre Miguel. Razão pela qual – lembro-me muito bem disso! – as arquibancadas explodiram durante todo o jogo:

“Desse mundo louco / De tudo um pouco / Eu vou levar pra 2001 / Avançar no tempo / E nas estrela fazer meu ziriguidum (meu Ziriguidum) / Nos meus devaneios / Quero viajar / Sou a Mocidade / Sou Independente / Vou a qualquer lugar / Vou à Lua, vou ao Sol / Vai a nave ao som do samba / Caminhando pelo tempo / Em busca de outros bambas”

Meus delírios febris de hoje me fazem ter a certeza de que o então governador do Estado, Leonel de Moura Brizola, esteve presente ao estádio e foi saudado, em delírio, pela multidão de torcedores – mas isso não lhes posso garantir. Brizola, sempre que instado a declarar seu time, dizia:

– Bangu!

Lembro-me bem, ainda, de um gol mal anulado, marcado pelo Marinho, pelo árbitro paulista Romualdo Arpi Filho, que selaria a vitória do Bangu. E da invasão de Castor de Andrade, quando do apito final (o placar estava 1 x 1), para incentivar seus jogadores que cobrariam as penalidades que decidiriam o título. E as arquibancadas, em côro:

“Castor! Castor! Castor!”

Fecho o texto de hoje transcrevendo, na íntegra, o artigo que o escritor Jorge Amado, então em Paris, publicou na revista PLACAR do dia 09 de agosto de 1985, pouco mais de uma semana depois da derrota do Bangu:

“Eu sou um velho torcedor do Bangu. Logo que cheguei ao Rio de Janeiro, um grande jogador despontava, justamente lá: Domingos da Guia. Ele era a sensação da época. Sou muito de acompanhar a carreira de craques e comecei a ir aos jogos do Bangu. Além disso, é um clube proletário, um clube dos operários. Aquela fábrica de tecidos, daquele bairro tão popular que é Bangu. E um time do povo, no sentido do povo trabalhador.

Fiquei contente e triste ao mesmo tempo com o desfecho do Campeonato Brasileiro de futebol. De um lado, estou contente porque o Bangu fez uma campanha excelente até chegar à decisão: pelo que ouvi falar, creio que não houve nenhum outro time com mais bonito estilo de jogo. E é claro que estou triste por ele ser apenas o vice-campeão. Mas o Bangu é assim mesmo: um time há muito tempo à procura de títulos. Se eu tivesse de deixar uma mensagem ao pessoal do clube seria para que não se deixasse entregar ao desânimo e à tristeza. O negócio é ir para a frente. Gostaria de deixar claro meu absoluto repúdio a estas decisões por pênaltis. Se deu empate, então que se marcasse uma outra partida para o domingo seguinte. Porque, no fundo, existe uma enorme frustração. Duvido que o torcedor do Coritiba esteja inteiramente satisfeito. Ele está contente com o título, mas não com a forma como ele foi conquistado. Empatou? Um outro jogo lá em Curitiba. Já imaginaram essa final lá no Paraná? A beleza de um estádio lotado, com o Coritiba sagrando-se campeão vencendo o jogo? O título teria outro sabor. Seria uma decisão mais brasileira – quer dizer, mais bonita.

O FUTEBOL É UM BALÉ

É isso. A gente está sentindo que falta ultimamente um jeito brasileiro de se jogar futebol. O futebol no nosso país, ao lado da capoeira, sempre foi uma arte. Em ambos, o brasileiro se exprime maravilhosamente. A capoeira nasceu nas senzalas, uma herança dos escravos que se tomou uma das mais belas criações do gênio artístico nacional. Igualmente, o futebol é um balé – desde que, repito e carrego na ênfase, seja jogado à maneira brasileira. E o que é isso? É difícil de se definir. É… uma arte. Porque nem sempre o futebol é arte. Aqui na Europa, por exemplo. Às vezes é um esporte violento. Às vezes, o que se vê é uma forma defensiva de disputa visando apenas ganhar o jogo. O futebol é arte quando jogado possessivamente. E um esporte para se fazer gols. E para se tomar gols, também – e por que não? Quando você joga para não fazer gols, você abandona a arte. Abandona mesmo o princípio maravilhoso desse espetáculo, o que lhe dá grandeza.

CASTOR, UM APAIXONADO

Por isso volto ao exemplo do Bangu: é lá que se tem jogado o futebol realmente brasileiro. Tem um técnico excelente – Moisés, que foi um grande jogador – que se revela de muita competência, a quem mando meus parabéns. E tem uma meninada muito boa. Já vi jogar Marinho, que é um craque (prefiro deixá-lo como exemplo para não cometer injustiças, com os demais). Uma ressalva: cumprimento também o pessoal do Coritiba que chegou ao título. Só que a campanha do Bangu foi uma campanha superior. O que eu senti no Bangu foi um trabalho feito com seriedade. Trabalho de homens devotados, como Castor de Andrade. Ele é um apaixonado: briga, bota dinheiro, comete injustiças, entra correndo em campo e coisas assim. Ele formou uma equipe de jovens, que, exatamente por não estarem nos grandes clubes, sem estrelismos, estão jogando um futebol muito solto. Esse time não se dispersou em individualidades. Concentrou-se num todo, num jogo profundamente coletivo. Além do mais, o Bangu é o próprio bairro onde tem fincadas suas raízes. Veja o Botafogo: era um clube que se identificava com os moradores do bairro. De repente se mudou para o subúrbio. Já não era a mesma coisa. Você tem a impressão de que passa a faltar algo. O que falta é o bairro, o calor da vizinhança – mesmo que mantenha a fidelidade de velhos torcedores, como João Saldanha, Sandro Moreyra, Alfredo Machado…

Às vezes, são esses pequenos detalhes que passam despercebidos que fazem a diferença da vitória e da derrota. Outras vezes, nem isso: por que, por exemplo, perdemos a Copa de 1982, na Espanha? Por pura infelicidade contra a Itália, só isso – assim como o Bangu foi infeliz com o Coritiba. Muitos me falam que contra os italianos entramos em campo de salto alto. É possível, não sei. Só sei que o brasileiro, nessa hora, não é de fazer isso, não. Veja o caso do Joaquim Cruz, um exemplo do que é capaz um brasileiro. E maravilhoso: um menino que veio de lá de baixo, que veio do povo, que batalhou e está vencendo. Isso é bom e ao mesmo tempo um reconforto para o povo brasileiro, tantas vezes xingado, humilhado e de quem se diz não ser capaz disto ou daquilo. Que é preguiçoso e outras coisas miseráveis. Esse rapaz é o símbolo exatamente da força, da energia, da coragem desse povo. É o talento e a maneira de ser do brasileiro. Essa deliciosa malícia, fruto da mistura de sangues que dá esse tipo de personalidade exclusivamente nossa. Isso você não vê só no esporte, mas também na nossa vida cultural. Uma mistura de cultura, uma cultura mestiça. Uma mistura capaz de dar um Pelé, um Garrincha. E que, quando é levada devidamente a sério, nos toma quase imbatíveis.”

ingresso do jogo Bangu e Coritiba, 31 de julho de 1985, no Maracanã, final do Campeonato Brasileiro Até.

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3 Comentários

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3 Respostas para “>MEMORABILIA DO MARACANÃ – PARTE II

  1. >Eu estava lá tbm, com meus 13 anos de idade. Fui à final e à semifinal, contra o Brasil de Pelotas. O Bangu mereceu muito o título, mas Rafael, o goleiro do Coxa, estava mesmo numa noite inspirada…

  2. >Nesse boteco só rola história porreta e bem contada.Parabéns.R.Pian

  3. >Edu, reza a lenda também que o Ado entrou na porrada dentro do vestiário. Porrada essa iniciada pelo próprio Castor.

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