Arquivo do mês: julho 2010

>HORTO GRAFIA

>

A série HORTO GRAFIA, que mostra como é bem tratada a última flor do Lácio, inculta e bela, já exibiu isso aqui e isso aqui.

Hoje exibo no balcão uma pérola que foi capaz de me fazer rir logo depois da derrota do Brasil para a Holanda. Eu no banco da frente do táxi, Luiz Antonio Simas e Candinha no de trás, somos testemunhas (como se a foto não bastasse) de que não se trata de manipulação.

fotografia tirada no interior de um táxi no Rio de Janeiro

Eu não agüentei e travei o diálogo:

– Mateus é seu filho, certo?

– É, doutor!

– Mexeu contigo, mexeu com ele!

– Isso aí!

– E se mexerem contigo com xis?

Tomei uma espetada nas costas da Candinha.

Até.

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

>ANHANGÜERA DÁ SAMBA

>

Estive, na semana passada, mais precisamente na última sexta-feira do mês de junho, quando ainda tínhamos a esperança de um maior avanço nesta Copa do Mundo, véspera de Brasil e Portugal, na sede do Anhangüera, no Bom Retiro, em São Paulo, na companhia de Danilo Medeiros e Leo Boechat, este último egresso do Rio de Janeiro, como este que vos escreve. Haveria mais uma edição do ANHANGÜERA DÁ SAMBA, em homenagem aos 10 anos da morte de João Nogueira. Mas não é do samba – que foi, como de se esperar, sensacional – que quero lhes falar. Quero é lhes contar sobre a emoção que foi estar ali ao lado de meu mano Arthur Tirone, o Favela. Os Tirone são, como bem me disse o Leo dia desses, numa sacada genial, uma família de novela das sete. Lá estavam Mimi e Denise Tirone, seus pais, e seus irmãos Angelo (gêmeo do Favela) e Bruno. Lá estava também o velho Osvaldo Tirone, avô de meu irmãozinho, pairando sobre o samba e em cada palmo daquele chão que é sagrado pro Arthur. O brilho dos olhos do malandro, de coração e braços permanentemente abertos, dava bem conta da emoção que ele sentia por estar recebendo ali, depois de tantos anos de promessas não cumpridas, um amigo que mantém, na parede de casa, a flâmula rubro-negra do Anhangüera.

Pausa: impossível cantar “com Silas tô em boa companhia” por lá. Voltemos.

É absolutamente comovente a sensação viva de pertencimento que o Favela mantém com o clube. A noite fria, a lua alta, a cachaça aos montes, a presença maciça dos Tirone e de tantos amigos – e de tantos leitores! -, o chôro descontrolado do Danilo à certa altura, a voz do Didu Nogueira, a emoção contida da Gisa Nogueira, a presença efetiva do malandro do Méier que deixou saudade por aqui, tudo contribuiu pra que minha primeira incursão ao Anhangüera se tornasse olimpicamente inesquecível.

Fico me devendo uma ida num domingo qualquer pela manhã para assistir ao futebol sagrado de todos os domingos. Não sei se foi a noite escura ou se foi o embaçar dos olhos que me impediu de ver o campo onde eu já vi, entretanto, o Barthô jogar.

Só uma besta, da cabeça à sola do sapato, pra duvidar disso.

Até.

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

>DO DOSADOR

>

* Fim de papo pro Brasil na Copa do Mundo de 2010. Um fim melancólico se levarmos em conta que perdemos de virada pra Holanda depois de nosso melhor primeiro tempo desde o início da competição. Inexplicavelmente, deixamos de atacar depois do primeiro gol, de Robinho, feito poucos minutos depois de um gol, do próprio Robinho, acertadamente anulado. O intervalo marcou uma espécie de apagão na seleção canarinho. Sofremos o gol de empate após a primeira (e fatal) falha de Júlio César nesta Copa do Mundo e o gol de virada depois de um escanteio infantilmente cedido pelo também regular (e muito bem) Juan. Depois, foi o que se viu. O inacreditavelmente convocado Felipe Melo – chamado por Aldir Blanc de “arma de destruição em massa” pouco antes da estréia do Brasil na Copa – que já havia participado da trapalhada que resultou no primeiro gol holandês, fez uma falta em Robben, nas barbas do bandeira, e, não satisfeito, pisou ferozmente no adversário, o que resultou na sua merecida expulsão. Foi quando ficou mais evidente que nunca o equívoco da escalação do (já) ex-treinador Dunga. Sem banco, trocamos seis por meia-dúzia e vimos escapar a chance do hexacampeonato;

* não custa tirar uma onda por aqui. No dia 29 de junho, escrevi aqui: “Alemanha e Argentina farão um jogaço, como jogaço será o Brasil e Holanda. No bolão – e dane-se o bolão! – pus a Holanda derrubando o Brasil. Não creio nisso, sinceramente. Faremos, tenho certeza, mais um jogo-teste-para-cardíaco. E aposto, de leve, na seleção alemã. Continuo achando uma teta a defesa argentina. E acho que a Alemanha, que vem de um portentoso 4 a 1 contra a Inglaterra, vai mamar nas tetas dos hermanos. A conferir;”. Pois a defesa argentina mostrou-se, de fato, uma teta na boca dos alemães. O 4 a zero, inapelável, mostrou a fragilidade da defesa da seleção da Argentina e o absurdo que foi a aposta de Maradona apenas no talento individual de seus jogadores, prescindindo de qualquer esquema visivelmente compreensível;

* vejam vocês do que é capaz o equilíbrio e a inteligência emocional de um jogador de futebol. Felipe Melo, uma tragédia nos dois quesitos, tomou um cartão vermelho por conta de sua irresponsabilidade e por conta de seu agudo desequilíbrio, reverberado por causa da mesma irresponsabilidade e desequilíbrio do treinador brasileiro. Em uma jogada boba, na lateral do campo, que não oferecia risco para a selação canarinho, fez o que fez e desfalcou o escrete num momento crucial da partida. O (bom) jogador Suárez, do Uruguai, optou por meter a mão na bola no último segundo do segundo tempo da prorrogação do jogo contra a seleção de Gana. Em cima da linha, impedindo o que seria o gol da seleção africana e o selo de desclassificação uruguaia, recebeu o cartão vermelho como um troféu por sua ousadia, fruto de equilíbrio (o que fazer agora?!) e inteligência (impeço o gol, sou expulso e dou mais uma chance à minha seleção). Suárez foi premiado pela sorte, e uma das imagens mais bacanas dessa Copa foi sua comemoração, já do lado de fora, após o pênalti perdido por Gyan, artilheiro ganês, levando a peleja para os pênaltis. Foi quando o Uruguai levou a melhor, fechando a tampa do caixão dos africanos após pênalti, à cavadinha, cobrado por Loco Abreu. Uma brincadeira estúpida do uruguaio que poderia – poderia, eis uma das graças do futebol – ter custado muito caro;

* Espanha e Paraguai também fizeram um jogo pelas quartas-de-final bastante interessante do ponto de vista da emoção, fundamental ingrediente dos grandes jogos e da epopéia que é uma Copa do Mundo. Com dois pênaltis perdidos, um pra cada lado, um logo após o outro, com trapalhadas do árbitro (que se valeu de critérios pouco compreensíveis, mandando repetir a primeira cobrança da Espanha, convertida e depois desperdiçada, por conta de uma invasão de área que havia ocorrido também na cobrança a favor do Paraguai, desperdiçada e não anulada) e um gol chorado da seleção espanhola a poucos minutos do fim, entrou pra galeria dos jogos de fazer sofrer do coração o mais frio dos espectadores;

* teremos agora, pelas semifinais, Uruguai e Holanda amanhã e Alemanha e Espanha na quarta-feira. As previsões têm sido difíceis nessa Copa de resultados tão inesperados. Mas até os mortos dão seus palpites. Aposto na raça dos uruguaios contra a frieza dos holandeses. Aposto no talento individual de Forlán. Reconheço que fará falta o Suárez. Mas é nos uruguaios que aposto minhas fichas. Alemanha e Espanha se enfrentarão novamente depois da decisão da Eurocopa 2008, quando os espanhóis levaram a melhor num apertado 1 a zero. Como a Alemanha joga e deixa jogar, o jogo deverá ser franco e bonito de se ver. A Espanha, que vem se destacando pelo volume de posse de bola e que mostra dificuldade quando enfrenta seleções com forte esquema defensivo, deve – digamos – gostar do jogo. O que é garantia de um partidaço;

* e pra terminar. É absolutamente incrível o fanatismo da torcida argentina. A recepção à seleção e os pedidos eufóricos pela permanência de Maradona são, mesmo, quase-inacreditáveis. O que não justifica a também inacreditável torcida de alguns poucos brasileiros pelo êxito argentino na Copa do Mundo. Luiz Antonio Simas, por exemplo, com quem assisti à partida entre Brasil e Holanda, chegou à minha casa brandindo o celular e gritando:

– Veja que absurdo intolerável!

E mostrava, incrédulo, a mensagem enviada minutos antes do começo do jogo por um dos nossos:

“Querido, ninguém tira a Argentina da final”

Lastimável.

Até.

10 Comentários

Arquivado em Uncategorized

>DIPLOMACIA AO EXTREMO

>

Já lhes disse um sem número de vezes que na Tijuca tudo se sabe. Um segredo contado na Tijuca nada mais é do que o prenúncio inevitável de manchetes imaginárias espalhadas pelos outdoors do bairro. Mantendo a tradição tijucana vou lhes contar uma muito boa que veio à tona na segunda-feira à noite quando eu chegava das compras, depois da vitória do Brasil sobre o Chile naquela manhã. Mal entrei no prédio e dei de cara com a dona Semíramis que, com esse nome – creiam – é judia. Estava esbaforida num dos bancos dos jardins do edifício, mais portentoso que os da Babilônia. Vamos a um breve histórico familiar.

Semíramis é casada com o seu Ninrode, mais conhecido no pedaço como Nino. Ele, por sua vez, é amicíssimo do seu Brasil e freqüentador assíduo do BAR DO MARRECO. Têm um único filho, Tamuz, mais mimado que filho-emo de mãe compreensiva e tolerante. Tamuz é, entretanto, espada. Já perdi a conta do número de moças que atravessaram os portais do edifício de mãos dadas com Tamuz. De uns bons anos pra cá, entretanto, vejo que Tamuz – como me disse sua mãe, há tempos – “sossegou o facho”. Seu Nino é louco pelo filho e conseqüentemente pela nora, está sempre tecendo e rasgando elogios à moça no balcão do buteco na esquina da Caruso com a Haddock Lobo. “Nada mais importante do que a harmonina em família”, é seu chavão predileto. Aproximei-me, dei o boa-noite de praxe e perguntei diante da imagem daquela mulher em prantos:

– Tudo bem, dona Semíramis?

– Imagina! O Nino enlouqueceu!

Vamos aos fatos.

Deu-se que na segunda-feira, após o jogo, seu Nino foi pra rua festejar a passagem do Brasil para as quartas-de-final. Chegou em casa no final da tarde e encontrou as mesmas pessoas na sala, diante da TV. Estava passando a novela das seis. Pôs a chave na porta e pediu à mulher que desligasse a televisão. Ele tinha um importante comunicado a fazer. Semíramis, ligeiramente preocupada com o tom de voz do marido (pastosa também), desligou a TV. Diante da mãe, da sogra, de duas irmãs e quatro primas (a mesma escalação desde a Copa de 1970, tirante os falecidos) teve uma certeza que deixou escapar:

– Passando mal, bem?!

É que pela manhã, logo após o primeiro gol do Brasil, seu Nino chorou durante uns 15 minutos, levando a mão ao peito diversas vezes, anunciando, trágico:

– Vou morrer! Vou morrer!

Não era nada disso. Ele sentou-se à mesa. Pediu silêncio. As mulheres – dezoito olhos – se entreolharam. Antes, puxou um cigarro do bolso, acendeu com calma e pediu uma dose de conhaque à mulher. Lá foi ela servi-lo, bufando:

– Quanto mistério, meu Deus!

Voltou. Entregou o copo ao marido, sentou-se no sofá, ajeitou a saia, o lenço na cabeça, e houve uma atenção de nove silêncios:

– Bem… – pigarreou. Fez uma pousa longa esticando o pescoço pro corredor.

– O que foi, homem?!

– Tamuz não está, está?

– Não.

– Ótimo!

E prosseguiu:

– Vocês sabem que há uma possibilidade de… (bateu na madeira)… enfrentarmos a Argentina na final, não sabem?

Nove cabeças fizeram que sim.

– E sabem, claro que sabem, que o Tamuz está namorando uma argentina, não sabem?

O mesmo balé dos nove crânios.

– Pois bem. Em nome da diplomacia, em nome do Tamuz, a quem não quero magoar em nenhuma hipótesa, em nome da Eva (os olhos se encheram d´água), temos de ser rigorosamente isentos no dia 11 de julho. Isentos!

Pra quê? Deu-se a bulha.

Semíramis mal deixou o marido terminar:

– Peralá, Nino! Filho é filho, nora é nora, Copa é Copa! Euzinha? Isenta? Nunca!

As demais mulheres insinuaram um protesto:

– Exagero, Nino!

– Nem o Tamuz vai ser isento!

– Devagar com o andor, Nino!

– É! O santo é de barro!

Semíramis sapateava sobre os tacos da sala e dizia impropérios ao marido. Tentou ser didática a fim de demonstrar o absurdo da proposta:

– Vem cá, meu filho… E esse homão que chorou hoje no primeiro gol… Vai ser isento se a gente sacudir a rede dos hermanos?!

As outras riram. Nino ficou nervoso, estrilou:

– Tão rindo do quê?! Velhas! Caquéticas!

A mãe e a sogra iam reagir quando ele socou a mesa com força fazendo quicar o cinzeiro e o copo:

– Desculpa, desculpa… Perdi a cabeça…

Pôs as duas mãos no rosto, desceu as mãos em direção ao queixo e disse:

– Exagerei, vá lá. Sejamos então, pelo menos, comedidos!

Tudo de novo.

A mulher estacou diante de dele com as mãos na cintura:

– E o bebê-chorão vai conter as lágrimas? Seu comedimento será capaz disso, Nino?! Ora, vá lamber sabão!

Nino ergueu-se e foi até a porta. Perguntou:

– Tamuz assistiu o jogo aonde?

– Na casa da Eva, Nino. Você está cansado de saber disso!

– Pois eu vou convidar a Eva pra vir ver a final aqui conosco. E quero ver qual de vocês será capaz de um gesto de deselegância!

– Aqui, não, Nino! Aqui, não!

– A casa é minha, Mirinha. Mando eu!

Antes de sair batendo a porta, fez a ameaça:

– Vou sair. Não volto hoje. E atenção, bruacas! No dia da final, juízo!

Estava lá, na portaria, desolada, dona Semíramis.

Achei melhor atender ao pedido do seu Nino, com quem havia encontrado, minutos antes, na saída do supermercado, na QUITANDA ABRONHENSE. Lá estava o velho Nino, judeu ortodoxo de araque, combinando com a macumbeira mais famosa da rua do Matoso um trabalho pesado pra que a Alemanha detone, de vez, a Argentina da Copa do Mundo.

Até.

9 Comentários

Arquivado em Uncategorized