MEU JARDIM DE OBSESSÕES

Preciso lhes dizer umas coisas hoje, e já lhes explico porque começo dizendo que “preciso” – verbo impositivo (quis mesmo dizer impositivo) direto.

Quero, antes, que vocês que me lêem tenham em mente o cenário e os personagens à mão, o cenário e os personagens que presenciaram (e que protagonizaram) o que vou lhes contar. Chegava ao fim a sexta-feira e eis a mesa na rua do Rosário (em ordem de ocupação da mesa, ferindo, que seja, suscetibilidades): Babolé, Leo Boechat, esse que vos escreve, Hans, Betinha, Luiz Antonio Simas, Luiz Carlos Fraga e o Marechal. Diante dos portais da abadia, bebíamos as maravilhas alemãs, belgas, escocesas e holandesas que o abade, sempre infernal, trazia à mesa com um sorriso diabólico. Falei em Luiz Antonio Simas e preciso (de novo, o mesmo verbo) citar uma de suas frases que se tornou célebre:

– Tenho um jardim de preconceitos que cultivo todo santo dia.

Para que meus detratores não digam que estou pondo palavras, jardins e preconceitos na boca do maiúsculo professor, confiram a declaração aqui. Luiz Antonio Simas disse a frase – chegou, em algumas ocasiões, a enfeitá-la pondo um regador em uma de suas mãos [“Todos os dias, ao acordar, vou ao meu jardim de preconceitos regá-lo com o regador cheio para fazê-lo mais viçoso”] – e houve aplausos (eu mesmo, confesso, fui um dos que quase pediu bis) e nenhuma crítica (sou dos que rebatem qualquer crítica em direção a ele). Tomaram nota de tudo? Vamos em frente.

Lá cheguei com a única e exclusiva intenção de beber as delícias trazidas de dentro da caverna pelo diabólico abade. Mas, qual o quê. Foi eu sentar e começou o assédio (omitirei os donos das vozes que me chegavam em tom de fogo flamejante):

– Sabe quem eu acabei de encontrar?! Eliomar Coelho!

– Ih! Nessa mesma mesa, hoje, almoçou a cúpula do PSOL! O Pratinha estava!

– E o Moacyr, hein?!

Outro, mais afoito:

– Como anda tua história com o Moutinho?

Eu mal terminara de dar o primeiro gole, prosseguiu o tiroteio:

– O Astor Bar vai entrar no Comida di Buteco?

Pousei o copo e sorri. Lembrei-me não somente da patrulha dos bombeiros de gasolina. Lembrei-me, sobretudo, de Nelson Rodrigues. Escreveu o pernambucano:

“Eu sou assim, e digo mais – convivo muito bem com as minhas idéias fixas.”

Mais:

“De vez em quando, alguém me chama de “flor de obsessão”. Não protesto e explico: – não faço nenhum mistério dos meus defeitos. Eu os tenho e os prezo. Sou um obsessivo. E aliás, que seria de mim, que seria de nós, se não fossem três ou quatro idéias fixas? Repito: – não há santo, herói, gênio ou pulha sem idéias fixas. Só os imbecis não as têm.”

Sorri porque – nem precisaria desse expediente, é claro – abateu-se sobre mim a certeza de que eu estava, ali, divindo mesa com homens e mulheres (uma mulher, apenas) que não tinham – nenhum deles! – sequer o espectro tênue do pulha ou do imbecil. Todos, conhecedores do que me vai na alma, sabiam que era importante alimentar o obsessivo. E começaram, num movimento que me pareceu ensaiado, a arremessar em minha direção as minha idéias fixas, as minhas obsessões, os meus defeitos consubstanciados e encarnados nos meus personagens fixos.

Foi Luiz Antonio Simas, por exemplo, que num tom paternal (troço que sempre me comove) me sugeriu a retirada do oriki de Ogum que anunciava o Buteco. Foi quando me veio a voz, nítida, do pernambucano obsessivo, me sugerindo a transcrição da confissão em prece que agora ocupa o outdoor eletrônico do blog. Pensei, num primeiro momento, que fosse um delírio provocado pela trapista que eu bebia, servida dentro de uma banheira de cristal. Não era.

E dei de ficar ali, remoendo as vaias de meus detratores que não compreendem – simplesmente não compreendem – as minhas chamadas obsessões. Dão a elas, diversos nomes, diversas justificativas, julgam minhas obsessões sem ao menos reconhecer a genialidade da sacada rodrigueana. “É muita vela pra pouco defunto”, “Deixa o fulano em paz”, “Não ligue para o que diz beltrano”, “Você acaba sendo cabo eleitoral do sicrano”, e vou recebendo, como sapatadas, esses julgamentos e lichamentos públicos que nada – eu disse nada – alteram com relação a meu compromisso com minhas idéias fixas. Como se fosse santo em cavalo no terreiro, a certeza cravou-se na minha cabeça quando entrei no táxi que peguei na Primeiro de Março:

– Tijuca, por favor.

O sujeito me olhou de alto a baixo e disse:

– E aí? Já foste ao restaurante da Sudbrack, Edu?!

Um de meus leitores, o taxista.

Até.

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6 Comentários

Arquivado em confissões

6 Respostas para “MEU JARDIM DE OBSESSÕES

  1. >Acho que você, caro Edu, tem idéias fixas e, às vezes, acende muita vela pra pouco defunto. Foi nesse sentido o meu primeiro comentário no Buteco, já se vai mais de um ano, quando me esbaldava de rir com a pesada artilharia que você disparava contra o PSOL. Mas quem não se diverte diante desse cruzeiro, dessas velas todas? E adianta falar com você para segurar a onda? Nem quero.Como leitor, quero que continue assim mesmo. Mas vou evitar acender cigarro nesse posto de gasolina. Um abraço muito carinhoso,Claudio Renato

  2. >Ô, Claudio, sabe que eu nem me lembrava disso?! Fui agora dar uma xeretada aqui e não achei… De toda forma, estás mesmo certo. Eu mesmo, todos os dias, digo de mim para mim mesmo:- Chega!Mas eu não resisto – nem aos botequins mais vagabundos e nem aos meus personagens fixos.Abração, mano.

  3. >KKKKKMuito bom, Edu…È a fama!!!!Mudando de assunto. E as novidades sobre o encontro do Comida de Buteco, bem como a ofensiva contra o plagiador Chalita.Queremos notícias!!Um abraçoBRUNO

  4. >Acho que cada um tem a vela que merece, alguns merecem várias!Três ou quatro idéias fixas , para o Nelson, mas no seu caso mil e uma idéias fixas! Porém não dá pra mudar nem um tiquinho. Se é pra ler abobrinhas, leio o EGO, se é pra ler mentiras leio O Globo inteiro. Nem imagino , comprar um jornal sem antes saber das opiniões do Buteco, Do histórias do Brasil e do Quem é vivo sempre aparece, das pataquadas do nosso dia a dia!!!Continue assim , um "perseguidor" (moderado) muito bacana !

  5. >E que esse teu jardim seja sempre regado!O Buteco também é leitura obrigatória de minha parte.Um abraço,R.Pian

  6. >EduIgual a você não existe, podem até tentar te imitar porém amigo não conseguem. Continue sendo VOCÊ, "PERSEGUIDOR" eles devem sentir a sua falta pois tenho certeza que você consegue incomoda-los, para você eles apenas passaram pois os verdadeiros amigos continuam juntinhos com você.

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