A CARNAVALIZAÇÃO DOS BUTIQUINS

Por conta da aproximação do festival COMIDA DI BUTECO 2010 aqui no Rio de Janeiro, que começa em duas semanas (essa mentira, esse engodo, esse arremedo de homenagem a uma de nossas mais caras tradições), reproduzo, na íntegra, texto escrito e publicado por meu irmão Fernando Szegeri, o homem da barba amazônica, em 04 de maio de 2005 – portanto há mais de 5 anos! – e assustadoramente atual, profético à época de sua publicação no saudoso CONEXÃO IRAJÁ, que mantínhamos, nós dois, na companhia do ainda mais saudoso Fernando Toledo (o texto está aqui).

“Confesso que acordei hoje não nos meus melhores dias. Ou será que há dias é que não estou nos melhores hojes? Com certeza, os dias há hojes não estão nos melhores eus.

Acordei com vontade de escrever muito, aquele velho recurso mentiroso de que alguns podemos lançar mão pra poder desfrutar a sensação fugaz de escapar da mudez impingida como pena indelével ao gênero. Com vontade de escrever sobre a descoberta súbita do papel do meu traseiro nos destinos nacionais. Sobre o homem que morreu dançando um samba do Ismael no Bar do Tião e sobre o mau humor que ando destilando nas conversas de elevador. De contar velhas histórias sobre um outdoor do Centro da Cidade com propaganda de lingerie e de dois namorados que, de repente, perceberam que o prato de sopa de ervilha que compartilhavam os desapaixonaria para sempre. De como, quanto e porque eu babo pela Mariana e de como meus conectados amigos apareceram na minha existência bem errante. Sobre todos aqueles assuntos em que somos versados nos primeiros três minutos, como dizia o bom Otto, o original.

Mas eis que o tema é o butiquim, pra variar. Então vou-me permitir sair da casuística e ir pra teoria geral. Sobre o bar da Maria já disse eu certa feita que bom ou ruim, lenda ou realidade, só não se podia negar-lhe a condição de um butiquim típico, autêntico, ou se preferirmos, devidamente carioca. E aí está o xis da “qüestã”, assim mesmo com trema e sem o “o” e com o palito de “fósfo” no canto da boca.

Porque, de uns tempos pra cá, o que era natureza acabou virando artifício. O hábito naturalíssimo de entrar no bar e tomar um cafezinho virou objeto de tese de doutorado. O tira-gosto que servia basicamente pra forrar o ninho da gelada derrubada pela goela foi alçado à condição de iguaria da gastronomia internacional, com direito a livro e, vira e mexe, matéria no jornal. Há sites especializados em botecos e até mesmo um prestigiado guia, igualzinho àquele antigo “Praias de Norte a Sul”, e o muito mais antigo “Igrejas da cidade da Bahia de São Salvador”.

Qualquer Zé Dentro d’Água salta hoje na cidade do Rio de Janeiro munido do seu guia – espécie de vade mecum dos otários – e entra no Paulistinha pedindo uma “sacanagem” apimentada. A experiência básica e essencial de butiquinar entre quitudes insalubres, bebidas duvidosas e papos ainda mais duvidosos está deixando de ser aquela arte iniciática, que se descobre aos poucos, guiada pelos mestres e aprendida pela experiência progressiva e paciente observação daquele doce e simples mistério que congrega as almas abandonadas pelos bares.

Agoniza e estrebucha pelas esquinas fedorentas do Centro da Cidade a figura do butequeiro prático, aquele que faz do bar a sua sala de visita, copa, escritório e consultório sentimental, valendo-se do anonimato necessário e quase envergonhado que só os grandes pés-sujos propiciam. Que usa daquela agregação forçada e forçosa e da conseqüente profusão de conexões – ói nóis aí! – superficiais ali formadas como expediente pra driblar a solidão, a impessoalidade e a crueldade do mundo porta-afora. Esses são os nossos bares, com nossos bêbados chatos, os sentimentais, os filósofos, políticos. Brilhantes ou idiotas. Humanos.

Pululam, de outra parte, os butequeiros teóricos, aqueles que reconhecem na instituição butiquim um mediador social relevante para o encontro do ethos da cultura popular com as categorias abstratas imersas no inconsciente coletivo. São o correlato necessário dos sambistas de Internet. Os doutores do balcão, que batem no peito propalando sua condição de bebedores e escrevem artigos e criam teorias que engendram modelos. Dos modelos surgidos não tardaram os simulacros, pensados, planejados. Tá cheio de pseudo-buteco em que a gordura escorrida no azulejo consta do projeto arquitetônico. Daí pros marqueteiros, um pulo. O Bar da Maria é só mais uma vítima, assim como o saudoso Belmonte da Praia do Flamengo.

Igualzinho fizeram com o carnaval, o futebol etc. etc.”

Até.

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4 Comentários

Arquivado em botequim

4 Respostas para “A CARNAVALIZAÇÃO DOS BUTIQUINS

  1. Edu, refletindo sobre o profético texto, lembrei de uma característica marcante dos butecos: qualquer conversa é de todos. É impressionante como, nos butecos originais, todos falam dos mesmos assuntos. Um cara no balcão puxa o assunto, o da mesa resmunga com quem está com ele, o dono do buteco se mete e por aí vai… E aí, na próxima vez, os que estavam em mesas separadas dividem a cerveja (por isso é que o buteco tem que ter cerveja de garrafa de 600 ml). Esse é (ou era) o clima! sds, Wander.

  2. Edu, achei um barato a colocação do seu amigo: "O hábito naturalíssimo de entrar no bar e tomar um cafezinho virou objeto de tese de doutorado. O tira-gosto que servia basicamente pra forrar o ninho da gelada derrubada pela goela foi alçado à condição de iguaria da gastronomia internacional, com direito a livro e, vira e mexe, matéria no jornal."Haha! Ótimo!!! Um abraço de Niquíti. Caíque.

  3. Danilo Medeiros

    Fernando Szegeri. Um gênio. Tal processo, a Disneylandização ou Projaquização dos botecos do Rio de Janeiro, encontra-se em estado avançado. Na zona sul, por exemplo, só resta um único boteco legítimo; Nos salvam, valentes, a Praça da Bandeira e a Tijuca, protegidas pela Linha Maginot dos rotos e maltrapilhos, o Elevado Paulo de Frontin. Graças a elas – a Praça da Bandeira e a Tijuca – ainda é possível ver o que é o verdadeiro Rio de Janeiro.

  4. Leo Boechat

    Danilo, até entendo e corroboro sua intenção e acho ótimo o simbolismo da ‘Linha Maginot’. Porém, algumas palavras radicais desmerecem o sério trabalho de garimpo que bebedores profissionais, como eu, realizam em diversos sítios arqueológicos na Zona Sul. Tenha certeza de que (ainda e não sei até quando) existem botecos verdadeiramente do povo em qualquer lugar, e não estou falando de Bar Rebouças. A ralé sempre encontra algum pouso.

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