SANTA TERESA EM MEIO AO CAOS

Santa Teresa é um bairro curioso ou, melhor, desperta um olhar curioso por parte da nossa (péssima) imprensa. Eu mesmo, confesso, já bati aqui no Buteco, diversas vezes, em “Santa”, que é como os descolados (os que votarão na Marina Silva) chamam o simpaticíssimo bairro carioca – e sempre em busca do humor. Estudantes com lêndeas, sandálias de couro cru, usuários da erva, simpatizantes do PSOL e do PV sempre foram (e são) personagens de minhas crônicas que se passam lá. Para a mídia que cobre o entretenimento sempre foi o bairro dos restaurantes pitorescos, o bairro preferido dos estrangeiros, por aí. Hoje, porém, quero falar da Santa Teresa que vergonhosamente não tem aparecido nos jornais e que parece (ou que efetivamente está) abandonada pelo poder público (alô, Rodrigo Pian, conto com você!). Como o blog é meu e como aqui prevalece minha vontade, vamos ao que quero lhes dizer.

Meu irmão, Fefê, mora, com sua mulher, em Santa Teresa. Não na Santa Teresa que tanto interessa aos olhos da massa (Largo das Neves, Largo dos Guimarães, Curvelo etc), mas bem lá pra cima, próximo à estrada das Paineiras, ao Hospital Silvestre, no cume da Almirante Alexandrino, depois da entrada para o Morro dos Prazeres (que mereceu atenção mínima da imprensa diante da maiúscula tragédia que se abateu sobre Niterói), depois do CEAT, depois do Corpo de Bombeiros, muito perto do Morro dos Guararapes, cujo acesso se dá, também, pela Ladeira do Ascurra, no Cosme Velho.

Fefê e Lina estão, eles que moram, com a graça dos deuses, em uma confortabilíssima casa, ao contrário de tantos que vivem ali, ao lado deles, desde a terça-feira da semana passada, morando com meus pais, no Alto da Boa Vista. Sem água. Sem luz. Sem telefone. E o que é mais grave: sem qualquer espécie de assistência por parte dos que têm obrigação de atendê-los.

Estiveram em casa ontem, domingo, a fim de pegarem algumas roupas. Fotografaram a área, coisa que já haviam feito na manhã da terça-feira, quando viram, desolados, vizinhos soterrados, mortos, feridos, desabrigados, tudo diante de um vergonhoso silêncio por parte dos jornais, das TVs e das rádios cariocas. A Almirante Alexandrino está coberta de lama e com o asfalto cedendo em diversos trechos. A estrada das Paineiras, idem. O caminho para o Corcovado, destruído. O Morro dos Guararapes em petição de miséria. E nada disso chega aos olhos dos que não vivem lá.

O Buteco expõe, hoje, cinco das dezenas de fotos que recebi e que retratam uma paisagem devastada, bem longe dos olhos, dos corações e das lentes daqueles que têm, por dever, a cobertura da tragédia e a assistência às vítimas.

Reitero o apelo que fiz ao Rodrigo Pian, leitor desse blog e membro da administração municipal. E repito, o mesmíssimo apelo, a todos aqueles que porventura pararem aqui. Prefeitura, Estado, LIGHT, CEDAE, empresas de telefonia – virem os olhos para o mais alto. Santa Teresa pede socorro!





Até.

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12 Comentários

Arquivado em imprensa, política

12 Respostas para “SANTA TERESA EM MEIO AO CAOS

  1. >Não há o quê agradecer: a uma porque seu pedido é, geralmente, uma ordem; a duas porque você merece, ainda mais depois da derrota de ontem; e a três… porque esse espaço aqui vai sempre partir em defesa da cidade. Beijo, boa sorte!P.S.: já pus o bravo Pian em contato com você!

  2. >Amanhã, pela parte da manhã, a Comlurb retirará o material que está obstruindo a via e impossibilitando a entrada dos serviços.A Cedae me informou que a sua rede no local foi totalmente destruída. Eles estão estudando uma maneira de puxar água do outro lado para abastecer a região afetada.Acredito que com a remoção de toda a terra e barro desta área, a Cedae conseguirá realizar o reparo da rede.Vou fazer contato também com a Oi.Obrigado pelo aviso.R.Pian

  3. >Obrigado, Pian, por sua valorosa ajuda. Agradeço em nome do Fernando, da Lina e de toda a comunidade, com quem eles estão, em regime de mutirão, reconstruindo, como podem, a região. Gratíssimo.

  4. >A situação está muito feia mesmo. Esse seu alerta foi muito importante.abs.,Daniel

  5. >Edu, eu moro em Santa Teresa há 20 anos. E sempre achei q o bairro é tratado com má-vontade pelo poder público. Desde a época dos ônibus da CTC, passando pelo policiamento, postes sem luz, reclamações sobre barulho ignoradas… (ñ tô falando barulho de samba acústico ñ, e sim bailes funk q fazem as camas tremerem, literalmente).Tem um poste perto da minha casa que está cai ñ cai há uns 2 meses, desde q um carro bateu nele. Se cair, na melhor das hipóteses faltará luz na área. Na pior, cai em cima de alguém e a pessoa morrerá esmagada ou eletrocutada na hora.Bjs, E.

  6. >Eugenia: diga a localização exata do poste. Tenho certeza de que nosso Pian tratará do assunto com a preteza que lhe é peculiar. Um beijo.

  7. >amigo, o poste fica na almirante alexandrino, na altura do 630. vou tentar mandar uma foto amanhã. beijos!!! este blog é um verdadeiro serviço de utilidade pública! 😀

  8. >Oi EduSou sua leitora e amiga de Eugênia.Moro na Rua Julio Otoni e a situação aqui é de muitas barreiras caídas: umas nos quintais das casas e outras na rua mesmo. A Comulurb limpou o mínimo para dar passagem aos carros e ônibus. A situação mais grave é na comunidade Julio Otoni, no número 298 da mesma rua, que tem várias casas interditadas, porque o morro está prestes a cair em cima delas. Se chover de novo o risco aumenta.Eu que até agora estava confiante apenas nas interseções de Santa Teresa D'Ávila, acho que o seu blog pode dar uma força a mais!Um abraçoLH

  9. >Lucia Helena: é exagero da Eugenia dizer que o BUTECO é de utilidade pública… mas fazemos o possível por aqui. Tomara que dê certo sua queixa. Um abraço, seja bem chegada.

  10. >Pertinente seu alô, meu caro Edu. Santa Teresa se transformou. Os estudantes infestados de lêndias usuários da erva cederam lugar aos milhares de albergues com Dinamarqueses, Suíços, Franceses e outros pré-dispostos a pagar 50 reais numa feijoada, por exemplo. Realmente moro no eixo considerado "nobre" de Santa Teresa, e durante a chuva, fora uma leve falta de luz, eu estava quente e seguro. Mas costumo fazer a travessia a caminho do Silvestre de bicicleta ou a pé, e vi parte dos estragos causados pela chuva. Santa Teresa atrai cada vez mais turistas, e está cada vez mais caro morar aqui….acho que vc vai ter que incluir os gringos perdidos em suas crônicas….um abraço.

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