ERA NO TEMPO DO REI

Meus poucos mas fiéis leitores, serei efusivo: vocês precisam ir assitir ERA NO TEMPO DO REI, musical que estreou ontem, como lhes contei aqui, no JOÃO CAETANO. Antes, porém, de lhes contar o que tenho para contar, um adendo necessário… Não tenho talento para a crítica fria, para a crítica técnica. Serei, portanto, o mesmo homem de coração franco de sempre. E passional, sim, e tendencioso também. Afinal, as letras das 19 canções que costuram o espetáculo são de autoria de meu amigo, o orixá vivo que me rege, avô de uma de minhas afilhadas, meu ídolo, Aldir Blanc. Vamos, pois, ao que tenho a lhes dizer.

O musical, nascido depois de um papo rápido entre Carlos Lyra e Ruy Castro nas ruas de Ipanema – “Isso dá um musical maravilhoso, sabia?” – , baseado no romance ERA NO TEMPO DO REI, em pouco mais de duas de horas de duração (com intervalo de 15 minutos) é capaz de divertir, emocionar e orgulhar o espectador. Cenários simples e funcionais, figurinos estupendos (há duas ou três cenas dignas de medalha olímpica), som perfeito, arranjos casadíssimos com a trama, coreografia brasileiríssima, atuações arrebatadoras dos atores e – destaque dos destaques – músicas e letras que são verdadeiros gols de placa dessa dupla que, reunida pela primeira vez, produziu 19 pérolas: pregão, minueto, valsa, polca, vira, fado, choro, batuque, lundu, maxixe, toada, tango, marchinha, modinha, fandango e uma marcha-rancho provam o cracaço que é Carlos Lyra, que já havia provado seu talento para o teatro em 1962, quando compôs as canções de POBRE MENINA RICA. Aldir Blanc, que é pra mim o maior letrista da música popular brasileira (entre vivos, mortos e reencarnados) produziu o que o próprio Ruy Castro considera “as letras mais ousadas e mordazes da história do teatro brasileiro” (vocês verão, vocês verão!).

O roteiro, adaptação de Heloisa Seixas e Julia Romeu para o romance do Ruy, é adequadíssimo e fiel à trama, fruto do delírio do escritor, que juntou Dom Pedro (Christian Coelho) e Leonardo (Renan Ribeiro), tomado emprestado do romance MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS. Está no libreto:

“É 1810 e a Família Real Portuguesa já está no Rio há dois anos. A cidade, com seus fascínios e perigos, é o cenário do encontro entre o jovem príncipe Dom Pedro e o plebeu Leonardo, menino pobre, porém livre. No dia em que começa o Entrudo – o Carnaval daquela época -, Pedro foge do palácio e descobre as ruas, povoadas de personagens como a terrível Bárbara Onça, mulher-lenda que tem fama de beber sangue de criancinhas para tentar se manter jovem. Em suas aventuras, Pedro e Leonardo encontram figuras como o malandro Calvoso, o ardiloso ourives Espanca e o temido Chefe de Polícia do Rio, Major Vidigal. Mas as peripécias de Pedro acabarão servindo aos planos maléficos de sua mãe, a princesa Dona Carlota Joaquina, que, ao lado do amante, o diplomata inglês Jeremy Blood, tenta neutralizar o regente Dom João e tomar o poder. Dom João, que tem em seu passado um amor secreto e proibido, não sabe os riscos que está correndo. A trama também mostra o encantamento do jovem Pedro por uma cigana, misteriosa e desconhecida, e seu sequestro por um grupo de capoeiras – tudo isso tendo como cenário as ruas do Rio, do Paço Imperial à Lapa. Narrada pela rainha Dona Maria – que, apesar de louca, presta atenção em tudo o que acontece à sua volta, – a comédia está recheada de paixões proibidas, seduções e intrigas, perseguições e ciúme. Sem falar nas risadas.”

Rigorosa verdade. Os destaques absolutos do espetáculo, no palco, são para André Dias (no papel de Calvoso), para Soraya Ravenle (como Bárbara), de quem sou fã confesso, e – destaque arrebatador!!!!! – para Alice Borges (no papel de Dona Maria). O público, ontem, interrompeu o espetáculo um bom número de vezes, irrompendo em aplausos vigorosos, diante das atuações dos três, cantando muitíssimo bem as canções da dupla Lyra e Blanc. Mas seria injusto não dizer que todos, sem exceção, dão conta de seus papéis. Os meninos, novíssimos, comovem quando atuam sozinhos no palco; Izabella Bicalho (Carlota Joaquina) e Tadeu Aguiar (Jeremy Blood) arrebentam quando estão sozinhos em cena; Leo Jaime (como Dom João) parece ter começado o espetáculo nervoso (sei lá se estava nervoso, foi apenas minha impressão) mas cresceu ao longo do tempo e esteve estupendo!; Soraya Ravenle, que canta pra burro, faz de Bárbara Onça uma das principais personagens da trama. Luiz Nicolau, Rogério Freitas, Jefferson Almeida, Ana Terra Blanco (que cigana, que cigana!), Raí Valadão, Evelyn Castro (que mucama, que mucama!), Bruno Camurati, Flavia Santana e Darwin Del Fabro estão todos de parabéns. Agora vamos às canções.

Um pregão abre o musical, e Aldir já mostra ao que veio:

“A enseada tá luzindo é Rio de Janeiro!
A espingarda tá tinindo porque é fevereiro
O ar ferve com o cheiro de merda e tempero,
O balaio da escrava, o pregão de aluá

(…)

Muito padre-da-igreja não sai do puteiro
Mas perdão tá sempre à venda, se pudé pagá
Tem refresco de deixar um branco meio grogue
Feito gringo quando troca as pernas pelo fog”

Entra em cena Calvoso, e dá-lhe Aldir:

“Eu sou Calvoso,
Um criminoso
Oportunista,
Um cão servil
Mas vivo solto
Eu ando solto
igual a outros
Pelo Brasil…”

Alguém, na platéia, gritou:

– Arruda! Arruda!

Dá-se o encontro de Pedro e Leonardo e os meninos conversam, no Paço do Teles:

“Sois Rei?
Mas quero ser plebeu
Ser livre como eu?
Viver sem tantas regras
Sois Rei?
Mas desejo as mucamas
Muito mais que as amas?
Regaços, seios, pregas… Ai…”

Entra em cena Bárbara Onça:

“Sempre as lendas sobre as sendas que trilhei são recontadas:
Pra beleza conservar cometi muita loucura
Com volúpia bebi sangue de crianças chacinadas
Da velhice em vão fugindo e seu fardo de amargura”

Relembrando a paixão de outrora, valsam Dom João e Bárbara:

“Ai, canções, amor e ódio
São adagas cravejadas
São adagas cravejadas de vingança”

Os amantes Carlota Joaquina e Jeremy Blood:

“Me sinto bem sabendo que és um assassino!
Estróinas e pelintras, ai, que torrão!
Me conta, Blood, então, teu sonho de menino!
Foi roubar a tanga de São Sebastião…”

Dona Carlota ofende Dom João, que reage:

“Quantos me chamam de molenga
Sem sangue ardente na veia
A esposa quer pendenga
E reina em cama alheia

Riem de mim pelas costas
Achando que sou poltrão
Contrariando as apostas,
Enganei Napoleão…”

Dona Maria pregueja (e se rende ao) contra o Rio de Janeiro:

“Me sobe um medo lá do ventre à boca:
Quanto mais saio, mais me acorrento
Contra a lascívia que me bota louca
Nas indecências que há na voz do vento

Ai, no oceano sofri essa vertigem
Que causa essa paisagem: puta e virgem.
Rainha alguma rege tanto viço.
O Rio de Janeiro é um feitiço!”

O ourives Espanca escreve a Jeremy Blood:

“Meu caro Blood, aqui é tudo na propina
A chusma assalta os seus no bico mais esconso
Mas os ladrões piores agem na matina,
Em pleno dia o rico rouba e banca o sonso”

Major Vidigal caça os sequestradores de Pedro:

“Ah, récua de bilontras, cáfila de escroques!
Vai tudo padecer no tronco em Lampadosa
Matilha de sarnentos, cacaria grogue,
Caterva de lapuzes, corja desairosa,
Perebas, tunas, chagas planejando achaques,
Manada de embusteiros, malta de labrostas,
Cambada de velhacos juntos aos atabaques,
Mamparras, trapaçeiros, grei de borra-botas,
Vadios e mucufas, gomas, cães sarnentos,
Labregos que se acham cheios de esperteza,
Farsantes, pés-rapados vis em seus intentos,
Boçais, ralés, abortos da mãe natureza”

Leonardo exalta a liberdade que goza nas ruas e desdenha do sangue azul de Pedro:

“Eu nasci de cu pra lua
E nesse apego ao banal,
Ao Hoje que não tem fim,
Eu brinco meu Carnaval
Vou muito longe de mim
E quando, à beira do mato,
Boto o pau pra fora e mijo,
Flores simples se comovem
Flores simples se comovem
Diante de tal prodígio

Suas riquezas, Alteza,
Não me despertam paixão
Porque sou dono do vento,
Do sereno, da luz baça
Meu coração é uma fruta
Esborrachada na praça

(…)

Minha cidade é meu berço
Onde morro e me recrio
Sou folha, chuva. Aí cresço:
Riacho dentro do Rio”

Bate-boca entre Dom João e Carlota Joaquina:

“Enquanto vós pensais em frango e broa,
Sonecas e jardins, até em valsas,
Eu penso no Poder, em novas glórias,
Futuros aliados da Coroa

Vós é que subornastes a cozinha,
Pagando às negras pobres e descalças
Pra que elas me empanturrem de galinha
Seus aliados, esses tiram a pompa e as calças

(…)

A História vos retratará estulto,
Fantoche insano que fazia rir

Melhor me recordarem pobre vulto
Que prometer ao povo e não cumprir”

Soneto de Bárbara morta:

“E aquela que curvara generais
Jazia na alcova mais mesquinha
Envolta em manto de rasgões reais

No escuro, sem a Corte e sem o Astro
Bárbara, depois de morta foi rainha
Como já sucedera a Inês de Castro”

E dá-se a marcha-rancho que encerra o espetáculo:

“Bastardos, chalaças, libertinos,
Entoam vivas ao Brasil Real
Fascínoras, ébrios, fesceninos,
Saúdam Pedro e Leonardo, é Carnaval!”

foto de Juliana Rezende

É imperdível, meus poucos mas fiéis leitores. Fica em cartaz, a obra-prima, até o dia 30 de maio de 2010.

Até.

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3 Comentários

Arquivado em música

3 Respostas para “ERA NO TEMPO DO REI

  1. >Fala Edu,Ano passado, ou foi retrasado, não lembro bem, eu li o livro e gostei tanto que tive de reler o Memórias de Um Sargento de Milícias.Assim que desembarcar vou assistir, valeu pela dica,abraços.

  2. >E olha que tem gente pagando uma nota preta pra ver A Gaiola das Loucas, de Miguel Falabella no Oi Casa Grande no Leblon……..

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