PSICOLOGIA INFANTIL

Sou – tenho a ligeira impressão de que já lhes disse isso aqui – um padrinho exemplar. Tenho mais de 10 afilhados entre os que me foram dados espontaneamente e os que me foram entregues após o deferimento de meus pleitos, e digo sem medo do erro que sou – repetindo – um senhor padrinho. Meus afilhados e minhas afilhadas têm, em mim, diversão na certa. E quero, hoje, inaugurando – quem sabe? – uma nova série, lhes contar uma de minhas histórias favoritas envolvendo eles.

Uma de minhas afilhadas me chegou, há uns meses, cutucou-me na altura da coxa e disse, com olhos aterrados atestando terror:

– Dindo? Preciso te contar uma coisa.

Eu, sempre solícito, pus-me de quatro (gordo como estou não consigo mais agachar) e disse, fazendo festinha em seus cabelos:

– O que foi, meu amor? Conta.

Ela, então, pôs as mãozinhas em concha e disse, cochichando, ao pé do ouvido:

– Na minha turma tem uma menina que tem bigode… – e tinha, a pobrezinha, os olhos saltados pra fora do globo, as mãos trêmulas.

Eu segurei o riso, firme. Perguntei:

– Assim feito o meu?

– Não, dindo. Diferente.

– Bem menos, né?

– Não, dindo. Bem mais.

Não agüentei e explodi de rir.

A imagem de uma criança, como minha afilhada, assemelhada a um leão-marinho me fez perder o controle. Chegou-se sua irmã mais velha:

– De quê você está rindo, tio?

Minha afilhada pôs a mãozinha em minha boca e disse:

– Contei pra ele da Ana Carolina… – e deu de choramingar.

Para contornar a situação, puxei do violão de meu compadre, num dos cantos da sala, e disse às duas, depois de uns minutos:

– Venham cá. Quero que vocês ouçam essa musiquinha que eu fiz pra coleguinha de vocês…

As duas se entreolharam (tenho fama de desequilibrado na família) e se sentaram diante de mim. Eu comecei:

“O marido da cabra é o bode
E a Ana Carolina tem bigode

Viva Jesus!
Viva Buda!
Viva Ana Carolina bigoduda!
Viva Jesus!
Viva Buda!
Viva Ana Carolina bigoduda!”

Deu-se o seguinte: minha afilhada, imóvel e em silêncio preocupante, arregalava mais-que-nunca os olhos, enquanto que a mais velha gania de tanto que ria. Gritou:

– De novo, tio! De novo!

Cantei. Cantei de novo. Cantei outra vez e, aos poucos, as duas passaram a me acompanhar, o que me fez ter certeza de que a terapia dera certo. Meus compadres e os avós paternos das crianças chegaram-se à sala, repetimos o número e a minha afilhada era uma excitação só:

– Pai, mãe, vô, vó! O dindo fez pra Ana!

O olhar de reprovação dos adultos foi escamoetado por falas falsas como “que graça”, “viu, querida?, menina de bigode é normal”, “esse dindo, hein, Ana, que talento!” e uma impositiva ordem – “não pode cantar isso na frente da bigoduda, viu?”. O avô – eis um dos pontos importantes da história -, fiquei sabendo depois, fixara de tal forma a letra e a música na mente que passou a cantar, dentro de casa, todos os dias, para absoluto assombro da mulher, o hit que eu criara para divertir as crianças.

Até que passaram-se uns meses e o telefone pipocou lá em casa, na manhã de um sábado.

– Alô?

– Oi, dindo!

– Oi, meu amor… Tudo bem? Que surpresa boa…

– Dindo?

– Oi, amada.

– Ela está aqui em casa.

– Ela quem, querida?

Sussurrando:

– A Ana Carolina…

– A bigoduda?

– Shhhhh! Dindo! Fala baixo! É.

– Tô indo praí!

– Eba! Beijo!

Fomos, eu e minha menina.

Nossos compadres, aos nos receberem:

– Ué! Vocês por aqui?!

Contei o ocorrido, falei da minha curiosidade etc e tal. Foi quando a mãe, em tom grave, disse:

– Oh! Ela acabou de sair…

Não escondi a decepção. E vieram, em segundos, as meninas à sala. Tinham os olhos cabisbaixos. A mãe perguntou:

– O que houve, meus amores?

Silêncio.

Insistiu:

– O que aconteceu?

A mais nova disse em direção à mais velha:

– Conta!

– Conta você!

A mãe, ligeiramente irritada:

– O que aconteceu?

Minha afilhada deu um passo à frente, ainda olhando pro chão, e disse apontando pra mais velha:

– Ela cantou pra Ana a música que o dindo fez pra ela…

Côro de quatro vozes:

– O quê?!

A mais velha, sacana que só, visivelmente embaraçada e com medo da reação dos pais, disse:

– Mas eu disse que não era pra ela… Eu disse que era outra Ana Carolina…

– E ela acreditou? – perguntou o pai, me fuzilando com os olhos.

As duas:

– Acho que não… – minha afilhada deu de chorar.

Explosão de gargalhadas. Eu, pra não perder a pose, pus o punho da mão direita sob o nariz, os cinco dedos pra baixo, farfalhando à moda de um bigodão, e imitei a vítima:

– Tem certeza de que não é pra mim?

– Por isso ela foi embora? – disse a mãe me fuzilando com os olhos.

A mais nova, chorando e agarrada nas pernas do pai:

– Acho que sim. Logo depois ela começou a chorar, pediu pra ligar pra mãe dela, falou baixinho no telefone e saiu logo em seguida…

Franca e sinceramente, um grande momento. Soube, inclusive, que em dezembro do ano passado, na festinha de Natal do colégio, minha música foi apresentada no teatrinho de final de ano por um coro de 50 vozes, com a vítima numa espécie de púlpito, em destaque.

Até.

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5 Comentários

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5 Respostas para “PSICOLOGIA INFANTIL

  1. >Pérola do cancioneiroMúsica: Mulher de BigodeAutor: Gato SujoRoberto Carlos já homenageouTodo tipo alternativo de mulherMas ele mesmo se esqueceuDe uma delas e eu vou dizer qual éFoge ! foge ! lá vem a mulher de bigode !Foge ! foge ! lá vem a mulher de bigode !Foge ! foge ! com ela nem o diabo pode !Mulher gordinha é só entrar na linhaA de 40 tem experiênciaMulher pequena tem o seu valorBotar no bolso e levar pr'onde for !RefrãoMas eu só transo com vocêSe você raspar o buçoVocê não é o Freddy MercuryE eu não sou Renato Russo

  2. >Que crônica, Eduardo! Que texto!

  3. >Coitada da menina…

  4. >Adoro textos dessse tipo, quando de meras situações do cotidiano, do dia-a-dia surgem histórias valorosas e cheia de vida e encantamento. Quebram um pouco a dureza da nossa incessante rotina de vida. Valeu e muito, meu caro Eduardo!Abracitos bauruenses doHenrique Perazzi de Aquino(www.mafuadohpa.blogspot.com)

  5. >Pô, Eduardo, muito engraçadas suas histórias. Um primor a entrevista com o Aldir Blanc! Venho (quase) acompanhando seu blog há um tempo… Confesso que vou ter que te botar lá na lista de links do meu blog. Até

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