HÁ UM ANO, NO BUTECO…

Não é demais repetir (se eu não puxar a brasa para meus textos, quem o fará?!). A série A TIJUCA EM ESTADO BRUTO nasceu e ganhou corpo por acaso. E se você, leitor, está lendo o BUTECO pela primeira vez justo hoje, ou se caiu de paraquedas aqui, neste texto, eu recomendo uma passada de olhos nos dez textos da série que o antecedem. Leiam aqui o primeiro da série, texto no qual conto o que vi e vivi numa pizzaria tijucana, O FORNO RIO, numa noite de domingo (domingo é o dia mais tijucano da semana!); aqui o segundo, que traz o relato de um jantar no melhor restaurante de comida italiana do país, tijucano, é claro, o FIORINO; aqui o terceiro, pequena descrição do encontro de minha mãe com uma amiga de há séculos de vovó; aqui o quarto, narrativa saudosa fruto de um encontro meu com meu concunhado, no SALETE, na Tijuca, evidentemente; aqui o quinto, no qual faço uma comparação entre a mãe judia e a mãe tijucana; aqui o sexto, sobre o simpaticíssimo assalto que sofreu vovó, há umas semanas; aqui o sétimo, sobre os vícios de minha avó; aqui o oitavo, sobre o jantar que ofereci à Lina, minha querida cunhada, no já citado melhor restaurante italiano do Brasil, aqui o nono, dando início aos relatos envolvendo o médico homeopata de minha família e aqui o décimo, sobre o mesmo tema.

Quando escrevi o décimo texto da série, lhes contei sobre como vovó, mãe de mamãe, fez com que papai fosse parar no consultório do doutor Lauro. A primeira consulta de meu pai, graças a uma gripe e a uma febrícula – coisa à toa -, foi marcante. E foi marcante pois estabeleceu-se, da parte de meu pai, uma relação de confiança absoluta no homeopata (um grande espírita também). É bem verdade que papai já chegou à recepção do consultório com a mais cálida gratidão nos bolsos da calça e da camisa. Afinal fora ele, doutor Lauro, quem salvara a vida de Mariazinha (leia aqui para entender o imbróglio).

Mas papai estava lá, sentado na recepção do consultório médico – era uma segunda-feira -, quando abriu-se a porta e um homenzinho, bem vestido, com um sorriso sereno no rosto, disse:

– O próximo!

Papai estava sozinho e, portanto, entrou.

Cumprimentou-o e disse:

– Doutor Lauro?

– Sim! O senhor é…

– Não me chame de senhor, doutor Lauro… Eu sou o Isaac, quem me recomendou seu nome foi a…

– Dona Mathilde! Eu sei, eu sei! Sente-se!

E fez um comentário, como se falasse sozinho:

– Santa Mathilde! Santa mulher!

Papai sentou-se e disse, assoando o nariz (papai tem um senhor nariz!) no lenço branco:

– Obrigado pelo que o senhor fez pela Mariazinha, doutor Lauro… – tossiu.

– Oh! Já lhe contaram?! Essa dona Mathilde, ai, ai, ai… – e deu um tapinha de leve na mão de meu pai, pousada sobre sua mesa.

E continuou:

– Mas isso já faz tempo, Jacob… O que o traz aqui?

– Isaac, doutor Lauro.

O médico deu com anelar, o médio e o indicador da mão direita na própria testa, num estalo:

– Perdão. Mas, o que você tem, meu rapaz?

Papai disse.

E o médico:

– Abra bem a boca, Davi…

Antes de abrir a boca, papai:

– Isaac!

– Diga ahhhh… e ponha a língua pra fora.

Papai obedeceu.

– Mais forte…

Papai obedeceu.

– Muito bem, Moisés… – e pôs-se a escrever a receita.

Antes, porém, perguntou:

– Moisés do quê mesmo?

– Isaac, dr. Lauro. Isaac Goldenberg!

– Me desculpa, filho.

Estendeu a receita em direção a meu pai, explicou timtim por timtim como deveriam ser tomados os remédios ministrados, e papai deparou-se com uma das mais fortes características do médico que seria seu médico por anos a fio (doutor Lauro não clinica mais):

– O que eu tenho, doutor Lauro?

– Abraão, você veio aqui para tratar-se ou para saber o que você tem?!

Rindo, e sendo agudamente espírita, despediu-se, já de pé:

– Vá com Deus!

– Eu sou Isaac, doutor Lauro… – ligeiramente enfadado.

Eis o que eu queria lhes contar, meus poucos mas fiéis leitores: essa é uma das pequenas mágoas que papai guarda na gavetinha de sua cômoda emocional. O doutor Lauro – ele poderá, se quiser, dar seu testemunho publicamente – NUNCA (e esse “nunca”, por favor, dito com a mais enfática ênfase szegeriana) acertou seu nome.

Desfilava, pela recepção do consultório a cada nova consulta de meu pai (e depois de cada um de seus três filhos), saindo da boca do médico, todas as tribos de Israel. Papai foi chamado, ao longo de anos, de Abraão, Jacó, Davi, Moisés, Esaú, Israel, Simeão, Levi, Benjamim, , Judá, Nebulom, Naftali… mas NUNCA de Isaac.

A família divide-se, até hoje, em acirradas discussões.

Metade acha, sinceramente, que o doutor Lauro sacaneava, acintosamente, meu pai, por pura diversão. A outra metade, capitaneada pela maior dentre todas as espíritas, minha avó, balança a cabeça negativamente e diz, de olhos fechados e mãos espalmadas para cima:

– Ele jamais faria isso. Um santo homem!

Até.

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