HÁ UM ANO, NO BUTECO…

Chegamos ao fim, hoje, com a publicação de sua décima e última parte, da série RUA DO MATOSO. E quero, diante do balcão imaginário do BUTECO, erguer meu copo americano cheio de Brahma com espessa espuma, para brindar com cada um de vocês, meus poucos mas fiéis leitores, que dedicaram alguns minutos de seus dias à leitura daquilo que construímos com tanto carinho. Mais que à leitura, também, ao exercício de um pitaco, de um comentário, de um palpite, ao registro de uma impressão. Os comentários feitos nas dez partes da série, são todos fabulosos. Por isso escrevi “construímos com tanto carinho”, valendo-me da primeira pessoa do plural. Escrevemos todos.

E se foram também fabulosos os três passeios que fizemos à rua do Matoso (eu, papai, Felipinho Cereal e Luiz Antonio Simas), foi igualmente fabuloso conhecer melhor o comércio e a vocação da rua, cada personagem, cada figura, cada vizinho, cada história impregnada em cada pedaço daquele chão que somos incapazes de perceber na correria do dia-a-dia. Foi fabuloso contar com a participação da Olga, por exemplo, moradora da rua (e a quem não conheço pessoalmente), e que foi precisa em cada comentário, consertando equívocos cometidos por mim, nos textos, e inserindo dados que nos escaparam no decorrer do prazeroso trabalho, como por exemplo o fato de que o Zico, ele mesmo!, morou na rua do Matoso assim que se casou (a partir de hoje ele deixa de ser, pra mim, o Galinho de Quintino e passa a ser o Galinho da Matoso!). O Tartaglia, morador da área também, também foi craque nesse quesito!

E foi a Olga – leiam seu email aqui – a responsável pela maior dimensão que ganhou a humílima série que publicamos aqui, ao longo de dez dias. Vou explicar.

Ela deu-se ao trabalho de imprimir algumas vezes a série, de atravessar a rua e de entregá-la a alguns de seus mais queridos comerciantes do pedaço – o seu , da QUITANDA ABRONHENSE, e o Tunico e a Rosa, da TINTURARIA MASCOTE.

No email a que me refiro, a Olga conta da emoção que viu nos olhos de cada um no instante em que se perceberem personagens retratados de uma história ligada à rua. E da emoção que ela própria sentiu quando foi arremessada ao passado conversando sobre a rua e sobre a história pessoal deles enquanto liam, juntos, os textos.

E eis o que eu queria lhes dizer desde o início.

Eu poderia não ter tido uma única visita à série dedicada à Matoso, eu poderia não ter recebido um único comentário elogioso ao BUTECO e à iniciativa, e ainda assim teria me bastado saber que algumas pessoas (a Olga, o seu José, a dona Conceição, o Tunico, a Rosa, o seu Antônio…) experimentaram, durante alguns minutos (que seguramente se perpetuarão na alma de todos eles), uma profunda emoção – como a que fez a Olga ir chorando pro trabalho, nesse dia… – capaz de levar beleza, leveza, graça, cor e sentido à vida de todos eles.

Disse a Olga, em seu atencioso email, que será sempre grata a mim por eu ter provocado o re(encontro) dela com essas pessoas e conseqüentemente a conversa que brotou dali.

Ora, meus poucos mas fiéis leitores… Eu – e digo isso de pé diante do balcão! – ao mergulhar na história da rua do Matoso (e poderia ter sido na história de qualquer outra rua daqui do bairro…), nada mais fiz do que prestar um bocadinho de atenção ao que está à minha volta. É bacana, sim, a sensação de que fazemos alguma diferença na vida dos outros. E é mais bacana ainda perceber como é simples fazer essa diferença. Mas o mais bacana, mesmo, é perceber uma série de pequenas coisas que emergem desse movimento voltado à atenção pelo que nos cerca.

A Olga foi apenas levar os textos da série para os comerciantes e amigos da rua. Daí houve as conversas, daí houve a emoção, daí houve o chôro a caminho do trabalho, daí houve esse derramamento de beleza na vida de todos os envolvidos ali, naquele processo (ela disse que na TINTURARIA MASCOTE a emoção foi tremenda!!!!!), naqueles diálogos, naquele momento, naquele ambiente, impregnando não apenas a eles, mas a loja, a rua, o bairro, a cidade, dessa beleza.

É desse movimento, meus poucos mas fiéis leitores, que carece a cidade – e rejeito com veemência a pecha de piegas.

É desse redescobrir de tanta beleza em tamanha simplicidade que irá renascer a esperança no coração dos homens.

A violência, a brutalidade e a rudeza crescem na exata medida em que minguam as manifestações mais simples de cordialidade, de delicadeza, de gentileza e de carinho.

Escrever sobre a rua do Matoso foi um gesto de carinho nosso, com nosso bairro e nosso pedaço – uma manifestação evidente de nossa gratidão por tudo que somos, por tudo que temos e por tudo que vivemos. Notem que a gratidão foi a força-motriz do troço.

Daí a Olga fala (também) em gratidão, e esse movimento segue num crescendo que é bonito demais.

Quando ontem à noitinha aportei na QUITANDA ABRONHENSE com o Felipinho Cereal para não mais do que duas garrafas de Brahma (a quitanda fecha às oito!), eis o que quero lhes dizer… o seu era um homem em estado de graça por trás do balcão.

E a dona Conceição, e o Chico, e os fregueses que lá estavam, todos já sabendo de tudo…

A todos, sem exceção, minha gratidão. E falo – combinamos isso ontem! – também pelo Felipinho Cereal.

Salve a Tijuca!

Até.

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3 Comentários

Arquivado em gente, Rio de Janeiro

3 Respostas para “HÁ UM ANO, NO BUTECO…

  1. >SALVE A TIJUCA!SALVE A GRANDE TIJUCA!SALVE VILA ISABEL!

  2. >Edu, até onde pesquisei, o Tim Maia morava na Rua do Matoso 184, sobrado. Já o Eramos Carlos morava em uma rua perpendicular a do Matoso,chamada Beco do Motta.O ponto deles era no Bar Divino, ao lado da grande entrada do antigo Cine Madri na Rua Haddock Lobo (homenageada por ele em música). O Jorge Ben também frequentava o sobrado e o Bar.Abraços.JRSC

  3. >E a minha gratidão continua firme, Edu. Colo abaixo um pedacinho de um texto, que li esta semana, de um jornalista gaúcho, que tem a ver com algumas coisas faladas por aqui. Abuso um pouco do espaço, mas é que não resisto. Quando leio uma coisa assim, fico doida pra dividir."Triste são as almas que não andam nas ruas dos bairros, que apenas esticam suas canelas nas indecentemente iluminadas passarelas dos shoppings ou percorrem PARCOS metros utilizando seus bólidos. Nenhuma afetação HIPPIE aqui, por favor, mas há uma certa dignidade em percorrer distâncias utilizando o expresso CANELINHA ou em sair a esmo pelas alamedas de pedregulho entre os sobrados castigados pelo DESFOLHAR dos calendários." Por Douglas Ceconello

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