>A EMOÇÃO DO ANDRADE

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Quando o árbitro apitou o final da partida Santos 1 x 2 Flamengo, na Vila Belmiro, no domingo passado, lembrei-me primeiro do Gordo, o único santista que conheço (conheçam o Gordo, aqui). Depois, imediatamente depois, fui arremessado ao passado diante da imagem do Andrade, o Tromba (que era como o inesquecível Jorge Cury o chamava), craque rubro-negro do eterno timaço campeão do mundo em 81 e hoje técnico interino do Flamengo (fica, Andrade, fica!!!!!), chorando olimpicamente diante das câmeras.

Por que chorava, o Andrade?

E por que choro eu, agora, lembrando-me das lágrimas do Andrade?

Disse, o cracaço, à imprensa, que dedicava a vitória ao goleiro rubro-negro Zé Carlos, morto dias antes. Chorava, portanto, de saudade do companheiro. Mas chorava também, digo sem medo do erro, por conta de seu rubronegrismo incontestável, por conta da quebra da escrita consignada naquela vitória de virada no campo do Santos, por conta de seu êxito, e do time, em meio à tanta podridão na Gávea – e há tantos anos.

O choro do Andrade foi o retrato da anti-CBF, da anti-FIFA, da anti-diretoria do Flamengo, nas mãos de Kléber Leite, de Plínio Serpa Pinto, de Michel Assef, de outros tantos que, à moda dos coronéis que não largam Brasília por nada, vivem e sobrevivem às custas de manobras escusas à frente do mais querido do Brasil.

A pergunta de sempre: como pode o Flamengo, o clube com mais torcedores no Brasil (de longe, de longe!), viver na penúria, de pires na mão como o ceguinho da rua do Ouvidor???, apud Nelson Rodrigues.

O choro e a emoção do Andrade representam um alento pra alma dos torcedores apaixonados que querem do Flamengo apenas as vitórias, as conquistas e as glórias – não a subsistência e o meio de vida.

Ele, Andrade, que foi responsável por uma das minhas maiores alegrias de torcedor. Corria o ano de 1981, dia 08 de novembro, e eu estava lá, 12 anos de idade, nas arquibancadas do Maracanã assistindo Flamengo e Botafogo, e sem entender o por quê daqueles possessos à minha volta gritando “queremos seis!” depois do quarto gol, aos 39 do primeiro tempo. Só fui entender durante o intervalo, ouvido grudado no radinho de pilha, quando soube do 6 a zero imposto pelo Botafogo nove anos antes. Vingança, era o que queria a torcida. Vingança, foi o que passei a desejar com ares de santo, eis que a vingança, o ódio, a raiva, são sentimentos santos no estádio de futebol.

E veio o quinto gol e o Maracanã transformou-se numa catedral de concreto, os fiéis contritos, a fé cega, a insanidade luminosa em cada olho rútilo, em cada lábio trêmulo, em cada baba elástica pendendo dos rostos tensos, em cada promessa feita com as mãos postas e de joelhos (não se preocupem, eu não enloqueci, é que Nelson Rodrigues está fumando na sala).

Aos 42 minutos do segundo tempo, Andrade toca para Adílio, este para Lico, Lico de volta para Andrade, que então abriu para Adílio pela esquerda. Adílio cruzou, Zico ganhou o mano a mano com Jorge Luiz e a bola sobrou limpa para Andrade. O camisa 6 bateu forte, inapelavelmente de primeira, na veia (e corria em suas veias o sangue de todos os rubro-negros presentes e ausentes, vivos e mortos), e marcou o gol histórico que explodiu o estádio – e foi um Deus nos acuda!!!!!

Anos depois, durante o lançamento do belíssimo livro FLAMENGO UMA EMOÇÃO INESQUECÍVEL, estendi a página pro Andrade, eu já de olhos marejados, e disse:

– Assina esse gol pra mim, Andrade.

Meus poucos mas fiéis leitores, eu juro. Andrade abriu o berreiro, tomou a caneta de minhas mãos, ambas trêmulas, e assinou aquele que foi, sem dúvida, um dos mais impactantes momentos de minha vida de torcedor.

do livro FLAMENGO UMA EMOÇÃO INESQUECÍVEL

Rezei, no domingo passado, cheio de fé, para que suas lágrimas se transformassem num maremoto capaz de varrer das pedras pisadas do cais rubro-negro os corais e os sargaços que ferem nossos pés de fiéis em cada procissão, que cada jogo é um auto de fé.

Fica, Andrade! Fica!

Leiam (e vejam o vídeo), também, FLAMENGO E EU DE CALÇAS CURTAS, aqui.

Até.

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23 Comentários

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23 Respostas para “>A EMOÇÃO DO ANDRADE

  1. >TODOS os Flamenguista PRECISAM ler isso. TODOS!Abraço em vermelho e preto.

  2. >Foi de emocionar o troço. O Andrade é um cara muito bacana, humilde, e o choro sincero por causa do amigo perdido deu um nó na garganta em muita gente. Foi bonito demais, coisa de gente que jogou um futebol de verdade e viveu belos momentos de amizade no seu clube do coração.

  3. >Esse cara também escreveu um texto legal: http://migre.me/4eaGO Andrade sabe exatamente o que é o Flamengo. Meu ídolo.

  4. >Parabéns Edu por mais esse texto brilhante, hoje de manhã pensei em lhe mandar um email lhe pedindo algumas palavras sobre o que aconteceu ao nosso time nesse domingo e para minha surpresa deparo agora com este texto.O coro de todo flamenguista agora deve der de FICA ANDRADE.Alex CarneiroABS.

  5. >Brilhante. Você disse TUDO, meu caro.Sem falar que, ao ver a cena na tevê, veio-me um colossal nó na garganta e, com ele, um passado que quis ter de volta, o menino que fui nas arquibancadas do Maior do Mundo, a crença em ídolos que já tive, o meu avozinho tão rubro-negro que me fez fanático (e feliz, até sempre, por ser Flamengo, apesar de todos os pesares)…Viva o imenso futebol, a honradez, a humildade, a sabedoria, o choro sincero e os cabelos brancos de Andrade!Abraço.

  6. >Porra: o Andrade jogava muito mais bola que o Cerezo; e tinha de ter formado naquele time de 1982. (No de 86, então, nem se fala)…

  7. >O que é mais triste é ver o Tromba no banco e esse bando abominável de cabeças-de-área(ou de bagre?) que desfilam pelos gramados de todo o mundo. O Andrade mostrava que nesta posição o jogador pode sim marcar desarmar e ainda jogar bola (e muitíssimo bem com no seu caso). Que cracaço !!! Mantém fora de campo a elegância que tinha jogando. Andrade treinador e Zico na presidência.

  8. >porra, eedu… estou eu aqui sem enxergar o teclado direito, pois as lágrimas saem de esguicho, lambuzando os óculos e impedindo a visão, cara… esse seu texto sacudiu meu coração cinquentão que tinha vinte anos quando da efeméride descrita. mas enxugo rápido os óculos, e antes que se tornem ensopados de novo te mando um grande abraço e inflo os pulmões para gritar aos quatro ventos: MENGOOOOOO!!!!!! (fica, andrade!)Caíque.

  9. >Edu, eu me emocionei com esse choro do Andrade, além de craque, um brasileiro autêntico.abração,Daniel A

  10. >Edu, recebi esse texto de um amigo por e-mail. Desconheço a autoria, mas está muito bonito. "Craque na antevéspera do desembarque dos bilhões de dólares e euros no mundo da bola, Andrade não ficou rico, como merecia. Equilibra-se na classe média com esforço, suando a camisa no time dos remediados, no duelo agravado pela infâmia dos salários atrasados que viraram DNA no Flamengo. Em campo, era ouro puro. Cabeça-de-área como não mais existe, marcava e atacava com igual magia, um espetáculo, cereja do bolo num time de almanaque. Não teve o devido sucesso na seleção exclusivamente pela trapaça da sorte, que o fez contemporâneo de Falcão e Toninho Cerezo. Tudo bem – quem o viu com a camisa 6 rubro-negra não se esquecerá nunca mais.Hoje, Andrade seria multimilionário no alvorecer da idade adulta, como acontece, notícia velha, com qualquer Felipe Melo. A torrente de dinheiro que inunda o futebol (que não pararia em pé diante da mais branda investigação, mas isso é outra história) veio bem depois da sua aposentadoria. E o ex-superjogador vive dias plebeus, como auxiliar-técnico rubro-negro. Quis o destino que ele tapasse um buraco no permamente bundalelê do clube justamente numa partida difícil, fora de casa, com o Santos, algoz da vida inteira.O Flamengo, zebra total, ganhou, vitória necessária, ainda que pouco decisiva, na monotonia dos pontos corridos. Os jogadores dos dois times encenaram as reações protocolares, alegria e frustração contidas, desfiaram as declarações de sempre, receita desenxabida de bolo na era das reações pasteurizadas. Bem no meio deste deserto de sinceridade, Andrade chorou. Menos pela vitória, nada pelo sucesso efêmero no cargo que, desambicioso, não almeja. As lágrimas nascem da emoção de quem carrega na alma a devoção pelo jogo. Brasileiramente.Andrade não tem Hummer para passar nos cobres, não se permite tropeços em negociatas com empresários, passa a léguas de amores hortifrutigranjeiros de uma tarde ou madrugada. Hoje, observa com a sabedoria dos cabelos brancos que sobem pelas têmporas o eterno bafafá das celebridades de ocasião em que se transformam, em 15 minutos ou menos, os boleiros mais desimportantes. Alguns se enrolam com o passe mais banal, muitos não sabem chutar, quase todos são incapazes de atuações magistrais como tantas que ele encenou, ao longo da vida.Como no finzinho do inverno de 1981, na mágica noite em que o Flamengo enfrentou, num amistoso, o Boca Juniors de Diego Maradona, no Maracanã apinhado. No YouTube, o então melhor jogador do mundo aparece como figurante que não viu a bola – porque Andrade tomou-lhe todas (repare, lá embaixo, que o 10 argentino aparece apenas cercado pelo 6 rubro-negro). Naquela jornada, e em muitas outras pelo time mágico, conjugou a sutileza no roubar de bola com a precisão cirúrgica no jogo ofensivo, coadjuvante que merece – e leva – o Oscar.Ontem, chorou – pelo amigo Zé Carlos, morto dois dias antes, cedo demais, cruel demais, de câncer; pela pressão que sufoca o clube, subjugado a uma interminável dinastia de trapalhões; e, sobretudo, pela ajudinha que deu ao seu time de coração. No caminhar ao vestiário e à provável volta para a sombra (já já vem outro técnico, e outro, e outro), exumou a elegância dos tempos de jogador, a sabedoria dos craques e, com o pranto de quem não tem vergonha de mostrar-se humano, a sinceridade desaparecida do futebol ultraprofissional.Príncipe de anteontem, Andrade dá poucos autógrafos, anda pela rua sem maiores assédios, é (muito) menos paparicado do que merece. Mas conhece o valor da vitória, e sabe quando ela merece que lágrimas corram pelo rosto. Chora, porque é do tempo em que se jogava por dinheiro sim – mas por amor também.Dias que não voltam mais."

  11. >Mano, onde eu posso ver esse vídeo das lágrimas do Andrade? Por incrível que pareça, eu cheguei a vê-lo jogar! Cracaço! Belo texto mais uma vez.

  12. >Bruno, querido: você pode ver o vídeo aqui. Beijo!

  13. >xandão, o tyexto é do aydano andré mota, de o globo, valeu?saudações rubronegras.

  14. >A Andrade, pelo que me lembro, também foi às lagrimas quando ofendido – injusta e covardemente -pelo Bruno. O que prova outra grande qualidade dele: a emoção.Somente um ignorante, um pedante, um verdadeiro cafajeste, para falar o que o Bruno falou, contra uma pessoa tão vitoriosa e simples.Abraço,Daniel A

  15. >Lembro bem deste 6 a 0. Foi uma resposta pífia, com nove anos de atraso, a placar idêntico registrado no dia do aniversário do Mais Querido, no ano da graça de 1972.

  16. >Zé Sergio, vá pastá!

  17. >Sonho com um flamengo dirigido por Zico, Leonardo, Junior, Andrade, Adílio(pessoas sérias, que conhecem futebol e com alma rubro-negra)

  18. >Karai!Quase chorei lendo esse texto.Mandei um link dele pro meu véio, um flamenguista tão dedicado quanto você.Abraços!

  19. >O vídeo do moleque com o Zico… Que coisa linda!

  20. >Tenho 40 anos e também vi aquele jogo junto ao meu saudoso pai. Na época não entendia nada, o jogo estava definido e por que meu pai queria o sexto gol? O Destino concedeu o sexto gol ao Andrade e o mesmo destino concedeu o milésimo jogo em Brasileiro ao mesmo Tromba (como é bom lembrar do Jorge Cury). Após o jogo e a emoção do Andrade também chorei, lembrei do meu pai e pensei: Será que depois de "velho" estou ficando Chorão? Mas vejo que o Andrade não emocionou só a mim, ao contrário, emocionou a maior torcida do mundo, afinal foi um choro verdadeiro, um choro de quem ama o Flamengo, algo impossível para a corja de dirigentes que se apoderaram do Mais querido do Brasil. Caro Andrade, Homem chora e vc demostrou que além de rubro-negro é HOMEM mesmo, coisa que anda em falta na gávea. Parabéns e boa sorte, são os votos de Ronay Mattos e família (todos Rubro-negros).

  21. >Goldenberg,Texto lindo.Quase cheguei a acreditar que o Andrade não é botafoguense.Quanto ao choro, o camisa 6 desse timaço da gávea chorou sim ao fazer o sexto gol. Chorou de tristeza.Provocações deixadas de lado, digo mais uma vez: lindas as tuas palavras.É bonito ver que a torcida do Flamengo orgulha-se do que tem de melhor.Um abraço sempre alvinegro de quem cada vez mais bebe neste balcão.

  22. Vv

    >Chorei domingo com o Andrade.Chorei lendo o seu texto.Meu Deus ! Com tanto chorôrô corro o risco de virar casaca. Botafoguense ? IMPOSSÍVEL. UMA VEZ FLAMENGO. FLAMENGO ATÉ MORRER. Sds RBNS, Vivi.

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