LÊNIN VAI AO SAMBA

Vladimir Ilitch Lênin tomou o metrô logo cedo, na estação Cantagalo, depois do café da manhã servido na pérgula do Copacabana Palace. Desceu no Estácio e tomou a linha 2, disposto a ter contato com o povo, que disseram a ele, durante o champagne com ovas de esturjão que lhe foi oferecido à beira da piscina do hotel, que o povo estaria lá pros lados da Pavuna. Era sábado. Lênin saltou na estação Pavuna, achou tudo muito feio – fez boquinha de nojo quando pôs os pés nas calçadas da avenida Martin Luther King – e decidiu, menos de – o quê?! – 15, 20 minutos depois, tomar o rumo de volta. Minto. Foram 25 minutos. Lênin ficou profundamente emocionado quando deu de cara com um Lada vermelho, em estado lastimável, estacionado na frente de uma oficina mecânica ao lado de um botequim, onde bebeu, para aplacar a emoção, num só gole, uma dose de Balalaika, a melhor vodka à venda no lugar.

Quando embarcou de volta com intenção de ir à praia, em Copacabana, diante do hotel, não imaginou que fosse encontrar o vagão cheio. Dentro, um grupo de jovens (“estudantes”, ele pensou) distribuía um panfleto anunciando um evento na Praça XV com roda de samba na rua da Ouvidor. “Vou”, ele disse de si para si. E teve ainda mais certeza quando viu, entre os jovens, um senhor com admirável barriga, suspensórios, uma boina de lã, barbado como ele, ajudando na distribuição dos panfletos. Decidiu, ali, calado, pensando no sufoco que enfrentou na Sibéria (a boina de lã foi fundamental para que o arremesso ao passado fosse efetivado), que seguiria aquele animadíssimo grupo.

Saltaram todos na estação Carioca. Lênin encantou-se com os arranha-céus da avenida Rio Branco. Atravessou a avenida em obsequioso silêncio e achou curioso que aquele velho, velho como ele, fosse seguido por tantos jovens (não eram tantos assim, eram cinco).

Pararam todos numa praça. O velho – não ele, o outro, da boina de lã – foi saudado por um pequeno grupo (eram pouco mais de vinte) parado diante de uma caixa de som. Um rapaz mal vestido ligou o amplificador e estendeu o microfone em direção a ele, que foi anunciado como vereador. Lênin entendeu tudo. Era – ele, espertíssimo, sacou o troço todo em questão de segundos – um comício de um partido político. Só então tomou coragem e se dirigiu ao velho da boina de lã, no instante em que ia começar o discurso:

– Senhor, o que significa a sigla PSOL?

Sem reconhecer Lênin, o velho respondeu de mau humor e desferiu um safanão, de leve, no velho bolchevique.

Lênin, abismado com a descortesia do camarada (ele ia chamá-lo de camarada até que levou o safanão), abriu os braços, fez uma expressão-máscara de incompreendido e foi quando decepcionou-se agudamente. Ninguém ali, nenhum dos aguerridos partidários do PSOL o reconheceu. Ele então puxou do bolso do casaco o panfleto que recebera no metrô e seguiu o mapa em direção à rua do Ouvidor. Magoou-se de leve quando ouviu o velho da boina de lã muxoxar:

– Velho chato!

Lênin desceu a São José, entrou à esquerda na rua da Quitanda, desceu a Assembléia à direita e foi dar na Primeiro de Março. Admirou-se com a imponência da Assembléia Legislativa e lembrou de Moscou. Com medo de ser visto ou reconhecido daquele jeito, emocionado, enxugou as lágrimas de saudade que brotavam dos olhos com a manga do casaco e tomou a direção da Praça XV. Ainda seguindo o mapa, entrou pelo Arco do Teles e chegou, finalmente, à rua do Ouvidor.

Desde muito antes ele já ouvira o som do samba (pela primeira vez, diga-se a título de curiosidade). E não escondeu o susto com a rua cheia, tomada de gente bebendo cerveja e cantando. Encostou no balcão de um bar de esquina e pediu uma dose de vodka. Um único gole e o primeiro susto.

Lênin viu que uma mocinha o vira. Pela expressão da moça (sandália de couro cru, pulseirinhas de corda no tornozelo com pequenos búzios, saia de chita, blusinha branca e cabelos desgrenhados com lêndea), boquiaberta, ele disse para dentro:

– Fui reconhecido!

Acompanhou a moça com os olhos.

Deixou uma nota de cem dólares sobre o balcão, soltou um “fica com o troco” para o garçom e seguiu a mocinha. Encostou-se no portão da igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores e viu quando ela cochichou alguma coisa no ouvido de um dos músicos da roda de samba (“que engraçado esse violão pequeno”), pensou olhando pro instrumento nas mãos do músico. Este, que tinha ares de dono da roda, deu um safanão na piolhenta mas virou-se em busca de alguma coisa.

– Está me procurando… – disse de si para si, esboçando um sorriso.

Seus olhos se cruzaram. O rapaz do cavaquinho cochichou alguma coisa no ouvido do rapaz do violão, que cochichou alguma coisa no ouvido do menino do pandeiro e deu-se a correr a notícia.

Lênin chegou a suar frio quando percebeu que quase todos os músicos usavam um bottom com sua imagem preso na camisa. Um deles, tocando reco-reco, vestia inclusive uma camisa preta onde se lia LÊNIN em vermelho, e ele foi, ali, um russo em estado de graça.

Em coisa de quinze minutos o terreiro grande ficou pequeno diante de tamanha balbúrdia. Até que veio o intervalo. E um músico pediu silêncio:

– Gente, gente, silêncio, silêncio…

Lênin se aprumou. Iria ser anunciado.

Continuou:

– É com imenso orgulho que recebemos aqui, hoje, na roda do Ouvidor…

Percebendo que havia conquistado a platéia, bebeu um gole da bebida (“uísque”, pensou Lênin) e depois do pigarro disse:

– Guilherme de Brito!

Lênin sentiu o peso do indicador do músico no peito, ainda que à distância. Todos os olhos em sua direção. Muito barulho. Muita confusão, e Lênin notou que os músicos discutiam.

Uma outra mocinha, que não aquela primeira, saiu de uma livraria com um CD:

– Assina pra mim, seu Guilherme…

Lênin já estava chorando de tristeza, recusando o autógrafo, quando a azêmola emendou:

– Como vai a dona Nena?

Lênin apurou os ouvidos em direção à mesa dos músicos:

– Um bosta, cara! Popular demais! Um Luiz Carlos da Vila branco e mais velho!

Outro, exaltado (justamente o que vestia a camisa com seu retrato):

– Não vamos cantar porra nenhuma! Vamos de Candeia, pô! Candeia!

O do tamborim:

– Isso! Isso! E Picolino! E Colombo!

Lênin foi vaiado. Unanimemente vaiado, como nunca. Nem quando foi expulso da Universidade de Kazan, em 1887, o velho bolchevique conhecera tamanha agressividade sonora.

Saiu, pé-ante-pé, tornou ao balcão do bar da esquina e pediu outra dose de vodka ao garçom. Virou de uma só vez, deixou mais cem dólares (“fica com o troco”, ele repetiu) e tomou o rumo do metrô cantarolando a Internacional sozinho, triste, cabisbaixo, completamente destruído.

Ao vê-lo dobrando a esquina, disse um dos músicos erguendo a garrafa de uísque:

– Salve o samba de raiz! Salve o samba puro!

Um outro, visivelmente embriagado, exibindo ferozmente o bottom, berrou:

– Salve a revolução! Salve Lênin! Salve Trotsky! Viva! Viva a Cristina! Viva!

Outro:

– Salve o PSOL! Salve o PSTU! Salve a Cristina! Viva! Viva!

Foram aplaudidíssimos, os trombeteiros.

Até.

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23 Comentários

Arquivado em ficção

23 Respostas para “LÊNIN VAI AO SAMBA

  1. Um texto – e quero aqui que o autor ouça os meus aplausos, de pé – definitivo.

  2. Realmente muito bom! Acho divertidissíma tua relação com o PSOL, Goldenberg! Tuas descrições da galera da Solidariedade são sempre muito boas! Um abraço, Rodrigo Pian

  3. Impagável, Edu! O melhor é a inclusão da Cristina no elenco bolchevique rs

  4. Caraca ! Show de bola Edu ! Belo texto ! Abraço Ernestão

  5. Brizola no Cacique com certeza seria diferente! Abraços!!

  6. Lenin com Guilherme de Brito! hahahaha genial, Edu! Valeu! Um abraço.

  7. Genial! Adorei a cena do lenin no Copacabana Palace… nada mais adequado! Abraços!

  8. Eduardo, brilhante o texto! Fantástico mesmo! Equivocozinho: na Rua do Ouvidor, ninguém canta. Só a meia dúzia de entendidos do lado B do samba…(babaquice de lado B, de samba de raiz…). O resto fica em vão esperando uma boa Clara Nunes, um Martinho da Vila, um Guilherme de Brito (o verdadeiro)… Ah, tem aquela velha cantora chata que parece o Rildo Hora, 40 anos de carreira e uma música de sucesso, que vive do cartaz do irmão, este sim genial…Parabéns!!! Claudio Renato

  9. Claudio Renato: perdoe-me a franqueza. A "velha cantora chata que parece o Rildo Hora, 40 anos de carreira e uma música de sucesso, que vive do cartaz do irmão, este sim genial" tem nome e sobrenome, embora use artisticamente o nome simples, Cristina. Figura absolutamente importante para a história do samba, merece de quem verdadeiramente ama a arte brasileira um tremendo respeito, o mesmo que faltou a você ao referir-se à sua aparência. Se a Cristina tem apenas um sucesso (e seguramente você se refere a QUANTAS LÁGRIMAS embora isso seja questionável) isso se deve muito mais à incompetência e à vilania de nossa indústria (fonográfica, cultural etc) e aos métodos perniciosos que são usados quando o artista popular é o alvo do que a um suposto fracasso de sua magnífica carreira. De mais a mais, meu caro, a Cristina JAMAIS (com a ênfase szegeriana) se valeu do irmão, o igualmente portentoso Chico Buarque, para o que quer que fosse. Ela também é genial, meu caro. Marcou e marca – ao longo de sua trajetória – uma porção de golaços dignos de nossa mais respeitada galeria. Ao contrário dessa sua manifestação, me perdoe a franqueza, uma tremenda bola fora. Um abraço.

  10. Brilhante texto e mais brilhante ainda sua resposta ao infeliz comentário do Claudio Renato acerca da Cristina! Valeu!!!

  11. Cláudio Renato, a sua falta de educação só não é maior que a sua falta de embasamento sobre o assunto. Me deu asco.

  12. Caro Cláudio, relendo esse teu infeliz comentário, já entendi teu perfil (e de um montão aqui): "O resto fica em vão esperando uma boa Clara Nunes, um Martinho da Vila, um Guilherme de Brito"Sou frequentador assíduo da roda e posso lhe garantir que todos os citados (talvez o Martinho com menos intensidade é verdade) são cantados na referida roda. Mas pra ser uma "boa Clara Nunes" tem que ser "O mar serenou" , "Portela na avenida" ou "Conto de areia" né não meu velho ? Se não, não vale … Se for Guilherme de Brito, tem que ser "Folhas secas" ou "A flor e o espinho". Se não, não tá valendo né não ??E do Martinho, quer escutar o que lá ? "Devagar devagarinho" ou "Mulheres" ?? Acho que aí vai ficar mais complicado um pouco …Só pra ilustrar o que quero dizer: Uma das primeiras vezes que fui (e fiquei maravilhado confesso) presenciei uma coisa engraçadíssima … Um rapaz novo que estava no entorno da roda, virou-se para o cavaquinista da roda (o gordinho) e disse algo assim : "Aí meu cumpadi, manda um Nelson Cavaquinho aí pra mim?"O rapaz emendou um pot pourri com uns 3 ou 4 sambas do Nelson … Percebi que o mesmo rapaz que fez o pedido ignorou e não cantarolou um sequer, e não eram sambas tão desconhecidos não .. eu conhecia quase todos. Daqui a pouco me volta ele pro mesmo rapaz do cavaco e solta a pérola :"ÔÔ meu cumpadi, tá me devendo aquele Nelson Cavaquinho hein mermão!!!"Bem, é isso. abraço.

  13. Rafael: aceitei seus dois comentários mesmo sem sua identificação, já que a pedido de um amigo eu voltei a permitir que qualquer pessoa, e não apenas os cadastrados no sistema, pudesse abrir a boca no balcão. Seu terceiro comentário não foi censurado, como sua quarta intervenção sugere. Simplesmente o cara vestido de América é o Felipinho Cereal, não tendo nada a ver com o assunto tratado aqui. Um abraço, querendo me escreva.

  14. Rapaz, se eu soubesse que ia dar esse bafafá não teria comentado. Eu sou amigo do Gabriel, conheci esse menino quando ele tinha 15 anos. Um talento. Apenas queria dizer que uma roda de samba precisa de gente. Gente feliz! Cantando samba e não samba de pesquisador… Com relação à cantora, acho ela parecida com o Rildo Hora. Como há pessoas que acham, em determinado momento, Darcy Ribeiro, Tom Jobim e Luiza Erundina parecidos… Ué, por que tanta celeuma?

  15. Meu caro, retiro o meu comentário. Não quero mais meu nome publicado nesse espaço tão democrático. Tenho família e, volta e meia, preciso passar pela Ouvidor. Você e o Zumbi da Saúde têm razão. Realmente o Samba do Ouvidor é a alegria da cidade. Já na Rua do Mercado, se vê todo mundo cantando. Cristina Buarque de Hollanda não usa o nome da família. E ela faz muito sucesso, é tão fundamental para música popular quanto o Pixinguinha. Eu é que sou ignorante, que não ouço a voz do povo. Samba é isso mesmo: objeto antropológico para os nossos meninos, das novas gerações. Ela não se parece com o Rildo Hora, pensando bem até lembra um pouco a Sharon Stone.

  16. Genial, genial, genial, Claudio Renato! E salve o bom humor, troço tão em falta hoje em dia! Um abraço.

  17. Que me perdoem a ignorância, mas desconheço a grande maioria dos sambas cantados na rua do Ouvidor. Infelizmente, no auge dos meus 19 só reconheço os mais populares e admito que é bem desanimador ir à roda de samba e não saber cantar nada. Ainda não desisti, afinal cerveja gelada é universal, mas nem me incomodaria se cantassem uma boa Clara Nunes, um Martinho da Vila, um Guilherme de Brito…

  18. Eu tô com o Cláudio Renato e não abro. Essas rodinhas de meninada são um saco mesmo! É gente que parece ter problema com sucesso e sempre culpa a mídia pelo próprio fracasso. Por que o Chico Buarque faz tanto sucesso então? O que explica o sucesso de um Belchior, que há bem mais de 20 anos não toca na rádio, mas lota qualquer show Brasil afora. Isso é arrogância, ignorar o desejo das pessoas de cantar, de suar, de se divertir.

  19. Caros, acho que no Rio tem roda de samba para todos os gostos… Se você quer escutar sambas mais batidos, conhecidos, oras tem várias rodas… Agora, tem roda que só toca Lado B, deixa os caras!Cada um com o seu gosto, se você não gosta é só não ir no Samba da Ouvidor! Não entendo o motivo de tantas brigas… Se vc vai em um lugar e não gosta, simples, não vá mais! A vida é fundamentada na diferença, cada um tem um gosto, uma preferência, simples, não…

  20. Caro Edu, fiquei maravilhado com esse texto e um pouco admirado com as reações. Que bom que o samba só cresce, que bom que temos várias rodas de samba(Frequento samba desde que só tinham 5 na cidade). Vivo do samba e vejo com certo receio algumas coisas que vc muito bem pontua nesse bem humorado texto. O samba hoje que realmente é aclama do por jovens pseudo intelectuais é o que chamo de samba da Saraiva. Obras sensacionais e menos conhecidas é realmente maravilhoso que sejam lembradas, mas daí para se tirar o valor de quem conseguiu reconhecimento com qualidade em um mercado fonográfico cruel é outra. Questione quem quiser Arlindo, Zeca, Fundo de Quintal, Luiz Carlos da Vila entre outros, mas completamente sem razão. Esses defenderam a bandeira do samba em uma época que o mercado queria os "THE": The smiths, The Cure, The Cult etc… É bom relembrar Nelson, Cartola, Noel e outros mais, sem no entando ignorar quem tanto lutou para esse ritmo não esmorecer. Cristina está nesse bolo, mulher corajosa que sempre buscou qualidade em seu trabalho. Ela possui um disco cantando Wilson Batista outro grande nome injustiçado no passar do tempo. Parabéns pelo seu texto mais uma vez!

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