NO BURACO DO LUME

Hoje é sexta-feira e, como vocês estão carecas de saber, sexta-feira é dia de debate político no Buraco do Lume, promovido pelo PSOL (o festivo partido não promove comícios, apenas debates).

Eu não sei se eu lhes contei, mas mudei-me para o Centro, depois de mais de vinte anos no Largo do Machado. Razão pela qual foi fácil atender ao convite de um amigo (não lhes direi o nome atendendo a pedido do próprio), feito na quarta-feira. Bateu-me o telefone e fez a provocação:

– Gaúcho?

Como estava no horário do almoço, topei.

Dirigi-me à esquina da São José com a Rodrigo Silva. Lá estava meu amigo abanando os braços como um boneco inflável de posto de gasolina. Mal pisei no bar ele disse, meneando a cabeça calva:

– Coitado do pessoal do PSOL, Edu! Por que você escreveu o que escreveu hoje?!

Referia-se, o caboclo, ao texto no qual conto o palpitante sonho que tive na noite de terça para quarta (leiam aqui).

Eu disse dando um vigoroso gole na minha água com gás:

– Foi meu sonho, ué.

E ele, cordialíssimo:

– Eu tenho pena dele, sabia?!

Eu não sabia a quem ele se referia (sabia, sim, mas não quero dizer).

Daí o meu companheiro, um senhor comentarista político, deu de falar sobre a atuação parlamentar dos membros do PSOL. De repente, mordendo o sanduíche de bife à milanesa, começou a chorar:

– Eu tenho muita pena dele, Edu… ele é fraco, fraco, pífio… E a praça… – ele engasgou.

Eu só ria, ria.

E ele, de boca cheia:

– A Mauro Duarte é a pior praça da cidade! – e me acompanhou na cena de risos, gargalhando feito Exu Caveira.

Estávamos rindo quando entrou uma moça com lêndeas (visíveis a olho nu, as lêndeas pareciam formigas percorrendo aquelas tranças de palha). Estendeu-nos um panfleto, que recusamos. Disse, ela:

– Pô, pintem aí na sexta. Vai rolar um debate dez.

O meu chapa arrotou e me perguntou:

– E o fulano, hein?!

(escrevo fulano para não acirrar ainda mais os ânimos de vingança do dito cujo)

Eu disse, grave:

– Está fulo. – quando eu disse “fulo” senti-me velho, velhíssimo, quase uma múmia estacada na esquina.

– É?

– É. E pisoteando no lema do próprio partido. – foi a deixa.

– É?

– É.

Fechei os olhos e disse:

– Socialismo e liberdade, não é isso?

– É.

– Pois o militante, possivelmente aborrecido com o que venho escrevendo, vetou meu acesso ao site do jornal O Globo…

O careca deu um salto pra trás:

– Vetou?

– Vetou. Solidário e libertário, raivoso como a esquerda do PSOL, vestido com um colete comprado na feira hippie de Ipanema, mudou a senha de acesso e não consigo mais ler o troço.

– Mentira…

– Mentira? Rapaz… esses caras, durante os almoços, durantes as plenárias, durante os debates políticos, ardilosamente buscam a vingança odiosa, vá por mim.

– Ah! – ele disse com tom de quem lembrava de algo importante.

Cravando os olhos em mim:

– Deu coelho na quarta-feira?

– Não.

Ele, rindo e limpando a boca com aqueles guardanapos que nada limpam (atestado da qualidade do buteco), disse já se despedindo:

– Coelho não dá, coelho não dá!

Até.

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1 comentário

Arquivado em política

Uma resposta para “NO BURACO DO LUME

  1. >Concordo com o amigo: "Coelho" não dá!Muito bom!

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