A FAMÍLIA DO ANALISADO

Dedicar-me-ei hoje, mais uma vez, à figura do analisado e à de seu bacana portátil. Sob a ótica, eis o que me ocorreu depois de encontrar-me com um pobre-diabo na semana passada, de sua relação com a família. O analisado (o pobre-diabo a que me referi), por questões de moda, procurou o bacana que lhe fora indicado por outro pobre-diabo, amigo seu, que após uma rápida conversa no meio da rua estendeu ao outro o cartão, dizendo:

– Telefona. Você não vai se arrepender.

Pois o pobre-diabo originário telefonou. Marcou a consulta. Marcou a consulta e ficou felicíssimo quando soube que a primeira conversa sairia de graça (“teremos apenas uma conversinha para que você perceba se gosta”, foi o que disse o bacana cujo consultório ficava em Copacabana).

E houve a primeira conversa (durou 10 minutos).

A primeira pergunta do bacana:

– O que te traz aqui? – ele tinha, na face, a máscara de um membro de mesa da FLIP.

– Não sei. – foi sincero, o paciente.

O médico de almas arregalou os olhos, pigarreou, fez um silêncio pausado impactante e disse:

– Interessante. Conte-me sobre sua família.

O pobre-diabo falou maravilhas do pai, um ídolo, da mãe, dos irmãos, dos primos e primas, dos avós (os vivos e os mortos), das tias e dos tios. Estava ele empolgadíssimo relatando seus afetos, quando o analista ficou de pé.

Ficou de pé, deu uma voltinha ensaiada em torno do divã, pôs as mãos sobre o couro do dito cujo como que engaiolando o pobre-diabo e disse com os olhos ainda mais arregalados.

– Família Doriana. Sei.

Quase encostou o nariz no nariz adunco do paciente e disse, seriíssimo:

– Teu caso é sério.

O paciente encolheu-se como um feto. E foi a deixa para o bacana continuar:

– Três sessões por semana, no mínimo. Duzentos e setenta e cinco reais cada sessão. E eu recebo adiantado as seis primeiras.

Só então afastou-se do rosto em pânico do pobre-diabo.

Depois da terceira sessão – eis o milagre do bacana – o coitado já acahava o pai uma azêmola, a mãe chatíssima, zombava com desenvoltura dos cuidados dos irmãos, dizia que os avós mortos haviam partido tarde, que as tias eram umas recalcadas e os tios uns cornos em potencial, por aí.

O que eu queria lhes dizer desde o início, e me parece que já está dito, é o seguinte: os bacanas não toleram o bem-querer. Não suportam a felicidade alheia. Não admitem a sensação de plena satisfação dos pobres-diabos.

Os bacanas precisam incutir nos pacientes, que passam a fumá-los sem filtro num quadro de dependência preocupante, o ódio, o rancor, a responsabilidade atribuída ao outro, que é cravada na testa da vítima como alfinetes em um boneco de vodu, vítima essa que passa a ser a responsável direta por troços que, essa é a verdade, nunca incomodaram o paciente.

Daí pululam as frases:

– Bebo assim pois procuro repetir o que papai fazia quando era pequeno, quando eu ficava sozinho enquanto ele enchia a cara com os amigos no buteco.

– Mamãe é responsável por esse meu jeito tímido e minha covardia, ela jamais reagiu contra as barbaridades que papai aprontava.

– Meu irmão? Um idiota. Sempre me fez crer que queria o meu bem quando na verdade era um voyeur delirando diante de meus fiascos.

– Minha avó introjetou em mim essa nostalgia irritante que me atrasa a vida.

E as sessões continuam sendo marcadas, cobradas, e o pobre-diabo cada vez mais chato – como o tal que eu encontrei semana passada, conforme lhes contei no início deste arrazoado.

Até.

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6 Comentários

Arquivado em confissões

6 Respostas para “A FAMÍLIA DO ANALISADO

  1. >Edu, não sei se você já viu, mas repare nesse pobre sujeito:http://www.youtube.com/watch?v=trAR0gPJ7HgAbraço!

  2. >edu, esse cara, o bacana, não é um profissional, o cara é um puta de um 171, bicho… caraio, isso é caso de cadeia!

  3. >Perfeito Edu !Filme Americano é assim , no final descobrimos que toda a mazela da nossa vida é culpa do papai ou da mamãe. Pobres pais ! E os caras ainda ganham bem pra caramba pra chegar a este diagnóstico! Muito bom !

  4. >Existe algum conselho de Psicologia?Esses "psicólogos" deveriam ser denunciados, principalmente aquela que dormia.

  5. >Fiquem tranquilos.Daqui a pouco tio Gilmar libera qualquer um pra ser psicólogo.

  6. Ary Gurgel

    Caro Edu:em minha vida profissional jamais agi como o tal bacana do seu relato, incitando o analisando contra sua própria família. Porém, recentemente chegou-me um paciente em estado desesperador. Contou-me de um sonho que teve.Em seu devaneio tudo se passava como num filme mudo iraniano, ou seja, não se passava quase nada. Mas em certo momento, sua grei adentrava o recôndito de seu lar. Meu paciente não podia ver suas faces, mas falavam muito.”Como pode- perguntava-me o infeliz- se era uma fita muda , iraniana?”. E prosseguiu, contando que de repente começaram a cantar um rock, e aí tudo se desturvou e o que viu era o horror: o que lhe parecia seu irmão era o Jean Willys, seu tio era o Chico Alencar(na bateria), sua mãe Yoany Sanchez e seu avô o Papai Noel do PSOL(o guitarrista!).
    Mas havia um, este que permanecera mudo e de costas para a parede só poderia ser seu pai. Meu analisando contou-me que no sonho perguntara a uma alma quem era.”Este é o mais famoso ator iraniano, o orgulho da raça”.O tal virou-se de chofre e, sim! seu pai era agora o Milton Temer , e de bigode!! Choramos juntos convulsivamente…

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