QUANDO CHOVE EM SÃO PAULO, O SZEGERI QUER NESCAU

Ontem fez, em São Paulo, um mau tempo de quinto ato de Rigoletto, de Giuseppe Verdi (não me venha besta alguma dizer que não há quinto ato em Rigoletto, façam-me o favor). Ontem foi quinta-feira, o que significa dizer que hoje é sexta-feira (esta frase, genial, é digna de uma mesa da FLIP). E às sextas-feiras, vocês sabem, o PSOL promove debates políticos no Buraco do Lume (o PSOL é moderníssimo, o PSOL não faz comícios). Estou, como se pode perceber, grávido de parênteses (outra frase que faria a assistência relinchar em Paraty).

Farei uma breve digressão antes de ir ao tema de hoje.

Ontem fui visitar meu dileto amigo Luiz Carlos Fraga em seu portentoso escritório, na rua Rodrigo Silva (escrevi Rodrigo e, sabe-se lá por quê, um frio de horror percorreu minha espinha). Estava lá eu conversando com ele (que almoçava um guisadinho de legumes) quando surgiu, depois de três batidinhas militares na porta, André Perecmanis (dei de dar nome, de novo, a meus personagens), meu advogado criminalista (gênio!, gênio!!, gênio!!!, vejam aqui). Eram – o quê?! – duas, duas e meia. E o André, qual um mendigo de afeto, implorou:

– Almoça comigo?

Disse, com a mão, que não.

Ele insisitiu. E eu fiz a pergunta canalha:

– Pagas?

E ele, sorrindo luminosamente e brandindo o talão de cheques, gritou:

– Pago tudo! Pago!

Estávamos sem tempo, pelo que optamos pelo Café Gaúcho, na esquina da mesmíssima Rodrigo Silva com São José – ocasião na qual lembrei-me desse partido político que, como um descolado flipense, adora uma festa (li, nos jornais de ontem, que o PSOL vai fazer performances pela cidade mostrando a cidade de Sarneylândia, e eu me pergunto se pode haver palhaçada maior). O André provocou:

– Amanhã tem PSOL, não tem?

– Tem.

Dissemos coisas impublicáveis sobre o partido mais histérico da paróquia, estávamos já comendo nossos sanduíches e meu celular estrilou. Era uma mensagem dele, Fernando. E quando digo Fernando referindo-me a ele eu completo sem tomar fôlego Fernando José Szegeri (um dos únicos aqui citados que nunca me censurou quanto a isso, ao contrário; ele sempre pede que lhe dê o nome todo, o da frente, o do meio e o de trás).

A mensagem era breve e dava notícia da chuva torrencial que se abatia sobre a cidade de São Paulo. Fui um triste dali em diante. Alegrei-me, apenas, quando o André, expansivo, gritou pro Bira:

– A conta, a conta! Manda a conta que hoje eu pago tudo!

E fui um triste pois fiquei sabendo que fazia um dia de chuva insuportável em São Paulo. Lembrei-me, tristíssimo (fui piorando minha tristeza a cada minuto), que o humor de meu irmão siamês (que jamais renegará tal condição) é suscetível demais às variações meteorológicas. Lembrei-me da obrigatoriedade que há, em terras paulistanas, de se fazer as coisas todas e ir a vários lugares, troço que transforma um dia chuvoso num verdadeiro exercício de penitência quaresmal. Penitenciei-me por jamais ter encontrado, e comprado, galochas para meu irmão.

Lembrei-me dele criança, já barbado e já funcionário público, morando numa casa de bairro onde ele tinha um quintal à sua disposição, fazendo engenharias com as almofadas da sala, o que deixava dona Cecília maluca.

E lembrei-me dele, já pai das três crianças por-vir, vendo, na TV, o programa da Xênia, apresentado pela própria, e lembrei-me dele hoje, na repartição, melancólico por conta de sua infância recheada de ontens.

Pedi ao Bira – e o André se assustou – Nescau batido no leite.

Bebi, como se cumprindo um ebó emocional, num só gole, em homenagem a ele.

Tudo confirmado pelo próprio, há mais de três anos – é o tempo e suas dobras -, aqui.

Até.

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5 Comentários

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5 Respostas para “QUANDO CHOVE EM SÃO PAULO, O SZEGERI QUER NESCAU

  1. >Nescau batido ao leite, uma das lembranças mais caras (sobretudo emotivas) de minha infância.Valeu, Edu!

  2. >Eu acho que voces estão confundindo NESCAU com OVOMALTINE !!! na época envolvida não havia NESCAU !!!

  3. >Realmente, Edu! A chuva aqui em São Paulo é complicada. A cidade que já é cinza, por conta da poluição diária, se torna mais cinza ainda. Gerando caos e stres para aqueles que nela transitam. Nada melhor do que tomar um Nescau quente ou ainda o Ovomaltine.Abraço

  4. >Tinha sim! Imagino a bela voz do fernando cantando: ôooba, hpje tem nescau gostoso, como uma tarde no circo…Nescau tem gosto e festa/e se prepara sem bater/Nescau é vitaminado/pra criança fortalecer?Nsc.Nesc.Nsc/ Parara tim bum: e o Carequinha cantando.Mas eu prefiro Toddy, é mais compacto pra São Paulo.

  5. >edu – com todo o respeito – eu acho o psol igual a sanduíche natural vendido na praia (a minha é itacoatiara, niquíti) por aquelas figuras que quando eu vejo, a primeira idéia que me vem à cabeça é tosa e banho. chato pacas.

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