AS MESAS FALANTES

Desde que Kardec tomou conhecimento dos fatos envolvendo as chamadas “mesas girantes” (ou “mesas falantes”) e passou a estudar a fundo tais fenômenos, a partir de 1854, que não ouço tanto falar sobre mesa, mesa, mesa, mesa. Tenho uma mania praticamente insuportável: minhas implicâncias, minhas – vá lá! – intolerâncias precisam estar bastante bem fundamentadas para que eu não caia na esparrela de não-gostar por não-gostar. Explico.

Como lhes contei ontem, detesto a tal da FLIP (leiam aqui), a festa (por que não feira, meu Deus?!) literária de Paraty – evento ao qual jamais (com a ênfase szegeriana) fui. É, em apertada síntese, um desfile de poses e só.

Digressiono: tenho também aguda implicância com esse fenômeno insuportável que humaniza as coisas, e explico. Alio-me ao susto de Luiz Antonio Simas, que vinha prometendo escrever sobre o palpitante assunto há semanas, o que fez ontem à tarde, leiam aqui. Como pode, meus poucos mas fiéis leitores, alguém achar normal um bacana enterrar o nariz numa taça de vinho depois de sacudi-la vigorosamente e dizer:

– Hum. O vinho apresentou-se, de início, tímido… – lançando um olhar em direção ao infinito.

Pausa pernóstica para completar:

– Neste exato momento mostra-se agressivo, com intenso caráter.

Se isso não é viadagem, francamente, não sei o que é.

Ou ouvir Miriam Leitão, logo pela manhã, na TV, com aquele ar-tucano que vou lhes contar:

– O mercado acordou tenso, acordou tenso! – e ri, sacudindo o corpo para deleite do Renato Machado, um senhor enófilo.

Volto ao tema das mesas.

Lendo – para regar meu jardim de preconceitos (imito o bardo da Lúcio de Mendonça sem vergonha alguma) – o blog do jornal O Globo On Line para me inteirar do que acontece na cidade de Paraty, me deparo com esse troço: as mesas, durante a FLIP, são a grande atração.

O descolado que pra lá se desloca – achando-se um Proust por conta do passeio – não quer ler, não quer comprar livros, não quer nada além de ir às mesas.

Leio uma entrevista com o curador da festa (façam-me o favor!) e descubro que o jornalista Flávio Moura (o curador) “defende as mesas dedicadas a outras áreas que não a literatura”, que “em 2006, tivemos mesas muito fortes dedicadas ao jornalismo literário”, que “as mesas rendem melhor quando o convidado tem mais tempo para falar, interagir com o público”. Ou seja… babaquice pura.

Os beócios acordarão, como o mercado acorda quase o ano inteiro, tensos. Tímidos a princípio, depois da primeira taça de vinho numa tenda qualquer (há, além das mesas, tendas espalhadas por toda a cidade, inclusive na… pausa para a golfada imaginária… OFF FLIP), os descoladíssimos partirão, agressivamente, para as mesas – e são 19 (eu disse dezenove!) as mesas espalhadas pelo calçamento irregular da cidade histórica. Será um show de atropelos, de cotoveladas, de empurra-empurra, tudo para que o título de maior habitué das mesas possa ser exibido durante o passeio à noite, depois da programação do dia.

Ler que é bom, nada.

Até.

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10 Comentários

Arquivado em confissões

10 Respostas para “AS MESAS FALANTES

  1. Vv

    >Eduardo, Ontem mesmo tive um debate caloroso com um amigo sobre a FLIP. Ele argumentava: É UM EVENTO DE REACIONÁRIOS. E eu: Que seja ! Mas, tem LIVRO, tem Literatura ! TEM DEBATES ! TEM MESA …Depois desse seu texto, estou revendo a questão da "mesa".rs.Abraços, Vivi.

  2. >Obrigado, Vivi, seja bem chegada ao balcão. Alguém precisa ir à FLIP para comprar livro?! Aquilo lá – tome nota, tome nota, tome nota! – é apenas pose, pose, pose e pose.

  3. >Edu, compartilho com a sua opiniao com relacao à FLIP. Acho que a maioria dos frequentadores sao os mesmos que vao ao 'fashion week', 'raves' e demais eventos da moda. No entanto, se essa "festa" os incentiva a abrir um unico livro, nem que apenas para que nao passem por completos idiotas e possam desfilar sua pose, acho que ela ja serviu para algum proposito. Nao contem com a minha presenca, mas entre mais uma "fashion week" e uma "festa literaria", fico com a ultima.

  4. >Evento é pra quem gosta de evento.Literatura é pra quem gosta de literatura.E… pra quem gosta de evento vai a todos , não tem diferença, do tomate , do livro, da uva…Cada um no seu quadradado sem neurose.

  5. >É, desde que o quadrado não seja um livro, eles podem ir mesmo.Fui ao primeiro FLIP, porque um amigo escritor foi falar lá, na mesa, e eu estava em Ubatuba, fui lá.Conversei com um morador, digo Morador, não Orador,que tem(tinha) uma livraria. Estava feliz, achava que agora iria vender mais livros, a população de Paraty iria se ilustrar. Magina…as editoras e livrarias passaram feito um trator por cima do pobre livreiro. Agora é que ele não vende mais nada mesmo. Talvez um cafezinho que, naquela época, já custava 5 reais…

  6. >Edu,Pode confessar. Você estava falando do tal do Lopes, o Homem do Vinho!Esse cara me fez acordar minha esposa, no sábado de madrugada, somente para que eu reclamasse com alguém da viadagem dele!E isso, em plena sexta-feira após uma feijoada no Bode Cheiroso.Antes que me esqueça: eu xingo a Miriam Leitão de urubu (mensageira das más notícias) todo dia de manhã, antes de ir trabalhar.sds, Wander.

  7. >A Flip é só badalação. Pra quem trabalha com a área, vale a pena. Para quem gosta de literatura, vale só pra tietar alguns autores. Passear por Parati é sempre bom. Mas a Feira, em si, não alimenta o mercado editorial. Faz apenas, por alguns dias, o livro ter destaque nos jornais.

  8. >Bravo, Edu. Acrescento que é um evento que encanta tucanos. Quanto a boiolagem enóloga -dane-se o pensamento (?) policamente correto- bem, é patético.Abraço,Alfredo Costa LimaManaus-Am

  9. >Edu, você é terrível, mas sua escrita é deliciosa! Leio seus textos com meneios (negativos) de cabeça, e um sorriso de rendição! Adoooooooro!

  10. >edu o que me grila é que os caras fazem uma baita lambança naquele barato de cidade que é paraty… o resto? o resto é gay talese et caterva. aliás com esse nome, sei não…

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