FLIP, FLIP!

Começa hoje, quarta-feira, em Paraty, a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Dirão vocês que já venho eu disposto a falar mal de mais um evento. Acertaram. Implico com a FLIP desde a primeira edição. Quando li FLIP nos jornais, lembro-me bem, disse de mim para mim:

– Feira de Livros de Paraty.

Quando li que não era uma feira, mas uma festa – emburrei.

Tenho profunda implicância com essas festas.

Nem cheguei a lhes contar (faço brevíssima digressão) mas no começo do mês estive, por absoluta impossibilidade de não-estar, na festa junina promovida pelo Banco da Providência no Jockey Club, na Gávea. Meus poucos mas fiéis leitores, fui um triste do instante em que pisei na dita festa ao instante em que de lá (aliviadíssimo) saí. Assim que atravessei uma fila de Fla X Flu (eu já tinha o convite), dei de cara com um – tirem as crianças da sala – “lounge caipira”. Dezenas de pufes de couro branco com dezenas de meninos e meninas vestindo roupas de grife, bonés com as abas pra trás e tênis os mais reluzentes, estirados e à vontade no tal “lounge caipira” eram o cartão de visita para quem, como eu, se aventurava à festa chamada (tirem, mesmo, as crianças da sala!) “ROÇA IN RIO”. Notem a anti-brasilidade permanente. E era o que eu queria lhes contar sobre o (pausa para o pigarro e a golfada imaginários) evento: não havia ali, naquela centena de metros de quadrados, uma mísera sombra de Brasil. Fui ao uísque assim que cheguei (eu precisava de algo para me manter, digamos, sob controle). Passei por uma fogueira patética de cartolina e papel celofane fazendo o papel do fogo. Dezenas de pessoas formavam fila (outra, outra) para uma foto diante do horror. Deu-me uma aguda saudade das festas juninas de minha infância, muitas delas no Clube 34, em Campo Grande. A criança estava, entretanto, dentro e apenas dentro de mim. Os robôs que circulavam atônitos à minha volta não sabiam, eis a verdade, nada sobre o Brasil, nada sobre São João, nada sobre Santo Antônio, nada sobre nossas mais bonitas tradições. Prova cabal do horror coletivo (eu, careta, me perguntava a cada cinco minutos pelos pais daquelas moças de – o quê?! – 14, 15, 16 anos, semi-nuas e de mãos dadas, umas com as outras, e vi beijos de moça com moça, de moças-meninas com rapazes nem-tanto, e ouvi conversas que me quebraram a alma, e nem mesmo as três doses de Red Label sossegaram meu periquito) foi o seguinte: em determinado momento (acho que eram onze da noite) começou o funk. E aquela horda, que torcia o nariz com boquinha de nojo pras canções tradicionais das festas juninas que tocavam através de gravações horríveis em altíssimo volume, foi à pista e eu fui pra casa arrasado, com o menino que fui, de calças curtas e chapéu de palha, enterrado em mim. Dito isso, volto à FLIP.

O que haverá de hoje a domingo na fabulosa cidade de Paraty?

Pose. Pose. Pose.

Posso garantir a vocês que haverá gente desse tipo (como li n´O Globo de hoje). Pausa: eu poria a imagem da notícia aqui para vocês verem e lerem, mas parece que por represália de membros do PSOL, revoltados com o que tenho escrito, não consigo mais acessar o site do jornal na íntegra (eu tinha uma senha que não funciona mais, fornecida que me foi por um membro do partido que, possivelmente aborrecido com minha opinião sobre o PSOL e fazendo valer o lema “SOCIALISMO E LIBERDADE”, agora me veda o acesso). Vejam:

“Gay Talese bateu pé e mudou de pousada assim que chegou a Paraty. Tudo por conta do guarda-roupa, que era pequeno e não comportava os seis ternos e as muitas camisas. O escritor mais elegante da Flip, que é filho de um alfaiate, exigiu um espaço maior para pendurar organizadamente suas roupas…”

Quem gosta de livros elege sua livraria do coração, lá compra seus livros e os lê (eu tinha a minha, deixei de ter por obra e graça de uma pérfida atitude que não cabe aqui). Mas compro meus livros por aí e os leio em silêncio – e os releio, troço muito mais importante que a simples primeira leitura.

O povo que vai à FLIP babar o ovo do filho do alfaite, por exemplo, vai apenas para exibir sua pose e engrossar a cambada de pavões em flor que interdita a cidade histórica.

Disputam ingressos para “as mesas”. “As mesas” é como são chamados, pelos descolados que para lá se deslocam, os geralmente insuportáveis debates literários onde o espirro de um romancista tem o peso de um grande sertão. Dou-lhes um exemplo: em recente entrevista, a escritora irlandesa Edna O’Brien disse (essa frase genial…):

– Escrever é como sonhar.

Se essa senhora repetir a mesmíssima enfadonha frase em Paraty a baba da estupefação ignorante escorrerá do queixo dos descolados que aplaudirão, numa explosão histérica, esse lugar-comum.

Correm pra lá e pra cá com seus livros debaixo dos braços, os descolados, em busca de um autógrafo, de uma fotografia, de um momento de falsa intimidade com o escritor.

De hoje a domingo, meus poucos mas fiéis leitores, Paraty será a capital nacional da babaquice.

Muita gente, muita pose, muita festa – aposto que quase nenhum leitor.

Até.

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17 Comentários

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17 Respostas para “FLIP, FLIP!

  1. >Festa Julina dias 04/05, na Igreja Nossa Senhora do Libano.

  2. >Edu, me lembrei do Fausto Wolff. Apenas isso.

  3. >Leonardo: e salve a Tijuca! Um abraço.Rodrigo: disse o grande e saudoso Fausto WolffEXATAMENTE – com a ênfase szegeriana – quatro anos, no JB, e veja se não é triste:"Já há alguns anos desconfiava do meu prestígio junto ao mundo literário. Confirmei no dia mais frio do ano, o do lançamento do meu livro A milésima segunda noite. O frio se fez acompanhar de seus cafifas, a chuva e o vento. Oitenta por cento das pessoas com as quais eu contava para acariciar meu ego não apareceram. Dos 20% presentes, metade eram alunos e alunas sem dinheiro e a outra metade comprou quase cem livros. Fui abraçado pelo sal da terra, os 10% que mudam tudo, os que cuidarão de nós para sempre. De qualquer forma, confirmei minha falta de prestígio quando o jovem assessor de imprensa da editora informou-me que – ao contrário do que sempre acontecera – desta vez ela não patrocinaria a bebida.Mandei vir uísque de casa e estava conversando com o Buza Ferraz, o Luiz Horácio, o Técio, o Bifão, o Nelson e o Chico Caruso (também tenho amigos respeitáveis) quando uma cobra da família lacaius tiranus chamou-me para informar que se eu cumprisse a promessa de denunciar seu patrão, que vem infernizando minha vida profissional há anos, ele – o patrão – me perseguiria de tal modo que eu nunca mais conseguiria publicar um livro no Brasil, que, afinal de contas, é o meu país, como o foi do meu pai, do meu avô, do meu bisavô e assim até a Guerra dos Farrapos.Confesso que fiquei preocupado. Seria o homem que me ameaçava mais forte e implacável do que a ditadura e o neoliberalismo, que me mantiveram afastado da grande imprensa durante dezenas de anos? O motivo é novelesco demais para ser citado, pois até mesmo o ridículo tem limites.É isso aí. Tem alguém espetando agulhas num boneco com a minha cara e eu nem havia me dado conta. Vou ter de estudar o assunto com mais vagar. Ainda pretendo escrever alguns livros no tempo de vida que me resta e não gostaria de que todas as editoras brasileiras me fechassem as portas em uníssono. Já basta a grande imprensa, que não me trata com muito amor. Pensei em ver uma resenha no Globo, mas só recebi a simpatia do Ancelmo Gois. Em compensação, no JB, Ziraldo exagerou na gentileza. Aproveito para agradecer à Hildegard e ao Boechat, à Folha, ao Estado de São Paulo, a Caros Amigos, Aplauso, Zero Hora e algumas outras publicações que me fizeram um carinho que, porém, não acaba com a verdadeira razão da minha tristeza. Ninguém me convidou para a Festa Internacional Literária, a Flip, de Paraty. Já espero três anos e jamais me convidam para dar uma palestra. Não me convidam nem para ouvir uma palestra. Aliás, não me convidam nem para tomar uma cana no bar da esquina e ficar de boca fechada.Sei lá, acho que os autores mais elegantes ficam sem jeito quando eu ando por perto. Soube até que os mais famosos condicionam sua presença à minha ausência. E eu que queria tanto passear pela mesma pracinha que o Zuenir Ventura, o Jô Soares, o Affonso Romanno de Sant'Anna, o Artur Xexéo, o Jabor e aquele rapaz muito amigo do Gore Vidal cujo nome não lembro. Agora, com o frio, eu poderia botar um traje pré-rafaelita, aproximar-me deles e fingir intimidade. Nada como uma festa bem-educada sur mère.Por que não me convidam, poxa? Sou escritor. Aliás, meu primeiro romance, O acrobata pede desculpas e cai, ganhou o prêmio revelação do JB quase 40 anos atrás. Tenho mais de 20 livros publicados e muitos traduzidos. Ganhei o prêmio Jabuti, o da Feira do Livro de Porto Alegre, o do Sindicato de Escritores Cariocas, o da Academia Mineira, entre outros. Será que preciso me inscrever? Eu me inscrevo. Tem de pagar alguma coisa? Eu pago. Precisa falar inglês? Eu falo e até escrevo. Não me importa que a mula manque. O que eu quero é rosetar."

  4. >Por isso, Edu!Eu tinha lido um texto dele, que ele comentava sobre a flip, não sei se foi esse, mas o tema era o mesmo. Uma pena ele não ser reconhecido na grande mídia. O que me surpreende é que fui perguntar para um amigo que cursa o curso de Jornalismo, se conhecia o Fausto, ele disse que nunca, que nunca, Edu, tinha ouvido falar. Que porra de escola é essa né?

  5. >Nesses tempos tristes, nada melhor do que a lembrança do Fausto Wolff.

  6. >É aqui que se assina embaixo?Então tá:Elika Takimotowww.elikatakimoto.blogspot.com

  7. >Boa, Edu! Sou flautista e, com o perdão da palavra, compositora.Eu dou aulas de música para crianças.Sempre que se aproxima esta época do ano, sinto uma irritação federal. Diante da expectativa das escolas em mostrar para os pais os seus rebentos dançando a Quadrilha, eu me deparo com o total desconhecimento, por parte das crianças, dos pais e da própria escola, a respeito do significado das festas juninas. Vc já experimentou perguntar pras crianças por que é que elas usam aquelas roupas remendadas, pintam bigodes e cavanhaques, chapéus de palha, trancinhas, etc? Pois é, eu explico. E é difícil, pois como remeter essas pessoas à um ritual de colheita, se elas nem sabem onde é que se fabrica o milho?Ainda bem que eu pulei muita fogueira e catei vagalume na caixinha de fósforo! Abços!

  8. >Amigos,olho minha estante de livros e uma parcela considerável deles foi o Edu quem me deu. A estante do Edu é maior, por isso os livros que eu dei pra ele não causam a mesma impressão. Espero com isso mostrar não apenas o apreço que tenho por essa pessoa, mas também a influência literária dele. Foi ele quem me deu, depois de uma das noites de papo que eu tanto sinto falta, o 'Relogoeiro cego' do biólogo evolucionista Richard Dawkins, ainda com português de Portugal, porque nem publicado no Brasil o livro tinha sido. Ainda não sei como ele conseguiu essa relíquia.Eu retribui com minha cópia de estimação de 'O gene egoísta' do mesmo autor. Afinal, quantos advogados vocês conhecem que se interessariam por ler os clássicos da sociobiologia? Provavelmente o mesmo número de estudantes de jornalismo que conhecem o Fausto Wolff. Fora a retribuição da gentileza, ele merecia receber o 'meu' livro, no qual eu estudava pra prova de evolução.Eu poderia dizer que é só por que o Richard Dawkins falará amanhã que eu vou a FLIP. Mas não é (como justificaria minha ida em tantas outras edições?), e eu vou a FLIP porque eu gosto! É um barato e Paraty é um grande barato. E se tenho de conviver com os descolados que aparecem fazendo pose no jornal ou ovacionando o pigarro do Chico Buarque pra ver o Richard Dawkins, então seja. Alias, que bom! Porque se não fossem os descolados a comprar os livros na FLIP com um ágio de 50, 60, 80% (em comparação com o preço dos mesmos títulos em livrarias virtuais), talvez eu não pudesse ver o Richard Dawkins pagando apenas R$10,00.Até a volta,

  9. >Faço minhas as palavras do Mauro. Vi hoje uma comovente exposiçao do Domingos de Oliveira e, coincidentemente, estou indo ver o Dawkins agora. Abraçao!

  10. >Certo, certo, Moutinho. Mas quem conhece ele (o Mauro) sabe perfeitamente qual a verdadeira razão de sua (dele) ida à FLIP. Abraço.

  11. >Moutinho, que inveja de você! Aproveite! Paraty é mesmo encantadora!

  12. >Se eu pudesse, iria à Paraty. Tem o Lobo Antunes para compensar o Dawkins. Ateus conseguem ser mais chatos que o Kaká.

  13. >Luiz Souza: todo proselitista é um saco e o sr. Dawkins veio (foi) à FLIP encantar os descolados com seu discurso ateísta e chato, superior, bacana, e supostamente novidadeiro. Abraço.

  14. >Meu caro Edu, em termos de babaquice ninguém, duvido, ganha do tal Bruno Mazzeo. Caso queiram, segue o endereço do seu vômito :http://bloglog.globo.com/blog/blog.do?act=loadSite&id=153&mes=4&ano=2009

  15. >Como eu prometi a vocês, o relato em Dawkins, uma desilusão. Um abraço, Mauro

  16. >Recomendo o post do Casseta Hélio de La Peña sobre a FLIP.Principalment a parte do: "O grande barato da Flip é que uma leitora fã de Chico Buarque, por exemplo, pode estar passeando pela cidade e, de repente, cruzar com ele. Aliás, é o que todas pensam. Elas trazem seus maridos ou namorados para Flip num repentino surto de interesse por literatura. Só porque elas não têm coragem de dizer na lata: “Benhê, deixa eu ir pra Paraty te chifrar com o Chico Buarque?”A mais pura verdade.

  17. Pingback: AS MESAS FALANTES | BUTECO DO EDU

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