O ALUNO DA PUC

Encontrei-me, ontem à tarde, de passagem pelo Buraco do Lume, com o aluno da PUC, aquele de quem lhes contei aqui. Não fui eu que o vi, mas ele a mim. Com os dois braços fremindo no ar como um náufrago em meio ao mar bravio, lembrando um daqueles bonecos infláveis de posto de gasolina, o pontifício gritava meu nome como um apaixonado. Meu nome gritado pelo estudante misturava-se ao côro de duas vozes que, em ritmo de marcha militar, pedia “socialismo e liberdade!, socialismo e liberdade!, socialismo e liberdade!”. Era um pré-comício do PSOL, que acontece de segunda a quinta-feira anunciando o sempre apoteótico comício (não é comício, acompanhem meu relato) de sexta-feira e que reúne, num dia de mobilização aguda, cinco, seis pessoas (nunca vi mais de três). Pedi ao pontifício que aguardasse e fixei olhos e ouvidos no homem que, megafone amarelo e vermelho em punho, anunciava a mudança de nome da praça, de Melvin Jones para Mário Lago (“um projeto do PSOL!”, bradava furiosamente a besta de bermudas) e convocava o povo imaginário à sua volta para o debate político do dia seguinte. Pausa: tremenda baboseira mudar o nome da praça. Aquilo ali é e sempre será o Buraco do Lume, mas o PSOL, vocês sabem, tem projetos incríveis para a cidade. O PSOL, vocês sabem, também inova permanentemente. E o PSOL não promove comícios, mas debates políticos. Fui até o homem do megafone. Quando seus olhos cruzaram com os meus, ele largou o instrumento e abriu um sorriso santo (tive certeza, naquele momento, que eu era o primeiro homem a lhe dirigir a atenção). Diante de mim, disse:

– Pois não, companheiro! – e bateu uma continência inapropriada.

– O debate de amanhã é sobre o quê, hein?

Ele colou um adesivo com um solzinho no meu peito, acintosamente. Arranquei o troço e ele se ofendeu:

– O que é que é isso, companheiro? Nosso debate político de amanhã será sobre a elitização e a concentração da cultura na cidade. Os membros do nosso quadro farão uma expo…

Deixei o homem com boné de crochê falando sozinho e fui ao aluno da PUC.

– Como vai? – disse eu, polidamente.

– Ótimo! Estou me preparando para o show da Banga! – e esfregou as mãos como se tivesse uma lâmpada do gênio entre elas.

– Banga?

– Bangalafumenga. Farão show no sábado na festa junina da PUC.

– Sei.

– E mais o DJ Sadam! DJ Sadam, Edu!

– Arrã.

Constrangido com minha anti-empolgação, mudou o rumo da prosa:

– Já te falei sobre minha paixão pelo samba e pela Lapa de outrora?

– Não.

– Eu idealizo uma Lapa, sabe, aquela da década de 50, 60!

– Sei.

Como eu era cada vez mais um desinteressado, ele virou o timão mais uma vez:

– E naquele dia, quando falei do jazz… Poxa… Não quis menosprezar o samba, sabe?

– Sei, sei, sei sim.

– É que o samba pra mim é um espaço democrático, um lugar de todos. Aquele momento em que a cadência das batidas e dos acordes superam os sentidos racionais e fazem com que nos deixemos levar…

– Hum… deixar levar. Sei.

Inventei uma consulta ao dentista e me despedi apressado.

Até.

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6 Comentários

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6 Respostas para “O ALUNO DA PUC

  1. >Grande Edu !Tô começando a achar que você é fã número 1 do PSOL ! Você tropeça nos comícios deles! Pacere aquele desenho da Família Adams em que o carro-castelo anda com uma nuvem trovejando em cima !!!!! kkkkkk !!!!!Será que em cada maravilhoso buteco do Rio de Janeiro, tem na frente um evento do PSOL?Abração do Ernestão

  2. >Muito bom texto Edu, muito bom, ri muita coisa. A definição do samba foi a melhor!!!!Abçs

  3. >Boa estória Edu. Engraçada.

  4. >Ai, ai… nem sempre experimentamos das coisas uma vez só não é Edu, sendo bom ou ruim há replays (ou repetecos, se preferir) que se impõem… mas se for para render textos assim eu quero é mais! Beijo,Elis

  5. Ary Gurgel

    Caro Edu: hoje a Cidinha Campos na ALERJ ameaçou abrir um processo a fim de cassar o ”nosso mandato” (nosso não, deles). Gostaria de ouvir seu parecer sobre o assunto.

    • Ary: jogo de cena dessa cada vez mais caricata Cidinha Campos (a quem dei meu voto e do qual hoje me arrependo). Processo? Por quebra de decoro? Li e achei patético. Sou radicalmente contra o que fez a Janira, do PSOL. Mas ainda mais contra esse papel tosco da deputada do PDT (pobre, Brizola…). Um abraço.

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