A FÚRIA ESPANHOLA

Estive ontem em São Paulo, 24 de junho de 2009, e mais uma vez em um 24 de junho, dia que é, para mim, mais solene que feriado nacional. Faz anos o homem da barba amazônica, quando seus amigos (que são muitos, sou apenas um deles, e seguramente o mais maltratado com requintes que só ele, sábio que é, conhece e domina) se reúnem para celebrar a data (eu diria que o dia de anos de Fernando José Szegeri é mais festejado que o Dia de São João no nordeste do Brasil). Mas não é ele o protagonista de hoje. É, de novo, esse boêmio, esse nostálgico, esse tijucano fundamental que atende pelo nome de Felipe Quintans, mais conhecido como Felipinho Cereal, que teve, no domingo passado, uma crise possessa e européia (relembrem aqui).

Estávamos almoçando no GALINHADA DO BAHIA, fabuloso restaurante ao qual, é preciso fazer justiça, o camarada Julio Vellozo há muito queria me apresentar. Pois estávamos lá, na rua Azurita, no Canindé, eu e (em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades) Arthur Tirone (o Favela), Bruno Ribeiro, Fernando Szegeri, José Szegeri, Julio Vellozo e Marcelo Vidal (a Lenda). Comíamos o que vinha à mesa com fartura como homens de bem celebrando a vida e a arte do encontro quando um garçom da casa ligou a TV. E a TV transmitia, naquele momento, o jogo pela Copa das Confederações entre Espanha e Estados Unidos.

Àquela altura a seleção espanhola perdia por dois a zero (e de fato foi o placar final).

Conversávamos – sobre o quê, mesmo?, lembrei! – sobre a viagem do mano Bruno Ribeiro à Finlândia (o bardo de Campinas compareceu levando nos bolsos carpaccio de carne de rena e garrafinhas de Underberg). Mas foi ligar a TV para o Szegeri explodir à mesa:

– Edu! Ia esquecendo de te perguntar! Foi verdade aquele ataque do Felipinho, domingo passado, no Bar do Chico?! Ele disse MESMO – e valeu-se de sua ênfase – que torcerá pela Espanha contra o Brasil?!

Não respondi.

Como Favela e Vidal estavam à mesa comigo no domingo, cutuquei-os com os olhos:

– Cem por cento verdade! – disse um.

– Rigorosamente verdade! – completou o outro.

Eu pus exclamações na fala de ambos, mas o tom foi lúgubre.

Houve um alarido à mesa.

Incredulidade misturada com revolta, descrença com promessas de vingança, todo esse coquetel de sentimentos que o futebol desperta.

Vejam vocês que o pequeno grande homem anda, de fato, estranhíssimo.

Eu deveria ter percebido que havia algo de errado com o Felipinho antes mesmo do transe ibérico do domingo passado.

Dias antes bebíamos, os dois, uma cerveja de final de dia na QUITANDA ABRONHENSE. A TV noticiava a propagação dos casos de gripe suína no Brasil. De repente percebi que o cara transia, tremia, gemia de pé no balcão. Sapateava, de leve, como Carmen Amaya.

Pus a mão em seu braço:

– Tudo bem, cara?

E ele, com os olhos encharcados d´água, tocando castanholas imaginárias:

– Tenho saudade da gripe espanhola, Edu! Gripe suína é degradante! España! España!

E saiu rodopiando, toureando um miúra também imaginário pelo salão da quitanda. Depois de girar como uma piorra por uns cinco minutos, despediu-se da porta:

– Adios!

Até.

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6 Comentários

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6 Respostas para “A FÚRIA ESPANHOLA

  1. >Edu, quando vi, o resultado do jogo da espanha, na hora lembrei dos textos e do Felipe. Uma pena, futebol é assim mesmo. Abraço

  2. >Pois é, Rodrigo: você acredita que el hombre não me atendeu hoje durante o dia quando tentei, mais de uma vez, pilhá-lo pela eliminação de seu país do coração?! Estranho… Abraço.

  3. >Edu,tô achando que a gripe suína, ao contrário da espanhola, vai virar motivo pra pose! Só os bacanas estão pegando.Abraço!

  4. >Pois é, Edu. o malandro sumiu. Desligou tudo que tem direito. Confesso que ontem eu torci contra o Brasil. Não gosto deste time brasileiro, nem a pau.

  5. >Rodrigo: eis aí, meu caro, uma autodeclaração de absoluta falta de caráter. "Torci contra o Brasil". Mande um e-mail para o Cereal, assistam juntos à final de domingo. Torçam contra o Brasil. E recebam, de novo, meu mais rigoroso repúdio pela postura lamentável e olimpicamente injustificável. Um abraço.

  6. >Eu só não torceria pelo Brasil se a seleção jogasse contra o Flamengo, meu clube do coração, o que parece muito improvável… Fora isso, pode ser a seleção mais carismática que é Brasil na cabeça.

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