A INGRATIDÃO AMERICANA

Você vai começar a ler o que ora escrevo e, tenho certeza, o presidente Obama, a crise econômica, as relações dos EUA com o mundo virão à sua mente. Mas não é disso, absolutamente, que quero hoje lhes falar. É sobre a ingratidão americana, e me refiro, aqui, ao América Football Clube, o clube alvi-rubro da Tijuca, o clube pelo qual torce meu queridíssimo Felipe Quintans, mais conhecido na Tijuca e redondezas como Felipinho Cereal, o “pequeno grande homem” no entender do homem da barba amazônica.

Vejam bem o que escreveu o Felipinho Cereal em seu BOEMIA E NOSTALGIA (o Felipinho é, de fato, boêmio e nostálgico do alto da cabeça à sola dos pés, o que dá pouco mais de metro e meio):

“Acabou a promoção safada do Diário Lance. Junta-se 25 selos e paga-se R$39,90 por uma camisa de alguma destas equipes cariocas: Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco. Caso queira, por mais R$29,90 leva-se a do América, numa promoção que os pequeninos e infelizes jornalistas chamaram de “Minha Segunda Paixão”. O que eu estou vendo de gente com a camisa do América nas ruas não está no gibi, o problema é que são torcedores de outros times. Uma lástima, um vergonha, humilhação, coisa que o América não merece e nem precisa. Torcedor bom é torcedor de uma equipe só. Não veste, jamais, o manto adversário. E o Diário Lance apenas me deu a certeza de que o velho Jornal dos Sports é infinitamente melhor.”

Preocupou-me o estado do meu amigo quando li isso, em 09 de junho próximo passado (aqui).

Notem as botinadas impressas no texto: a excepcional promoção do jornal é “safada”; os jornalistas que bolaram a promoção com a camisa do América são “pequeninos e infelizes”; a simpatia dos torcedores cariocas pelo América é uma “lástima, uma vergonha, humilhação, coisa que o América não merece e nem precisa.”. Ou seja, o bardo da Barão de Sertório pisoteia, sem dó nem piedade, na simpatia e no bem-querer do torcedor do clube adversário, maldiz a simpática promoção do LANCE!, distribui bofetadas no rosto dos jornalistas bem intencionados e ainda elogia o outrora glorioso Jornal dos Sports, que nem mesmo o espírito de Mário Filho lê mais.

Vejam, meus poucos mas fiéis leitores, que justifica-se minha preocupação com o estado d´alma de meu irmãozinho americano. Mas o pior deu-se ontem, e eu fiquei, sinceramente, pensando se o caso é ou não é de psicanálise.

Antes, porém, fixem na mente, como um neon imaginário, a frase de sua autoria: TORCEDOR BOM É TORCEDOR DE UMA EQUIPE SÓ.

Digressiono…

É uma grande frase, impactante. Sartre a assinaria (eu só escrevi Sartre porque li seu nome, hoje, numa confissão de Nelson Rodrigues). Torcer pelo Flamengo, por exemplo, no meu caso, não me impede de vestir, vez por outra, como quem veste uma camisa qualquer, a camisa do Anhanguera (usei-a ontem homenageando o Favela, que esteve aqui), a camisa do América (acho bonitinha), a camisa do Volta Redonda (tenho aguda simpatia pela cidade). Isso não me faz torcedor de outro time, certo?

Certo, sei que é certo.

Mas o que disse ontem, à mesa, cercado por mais de dez amigos (não vou nominá-los), o nosso Felipinho Cereal? Pior: o que fez nosso protagonista de hoje?

Papo vai, papo vem, cerveja vai, carne de sol vem (estávamos no BAR DO CHICO, como em todos os domingos), aproximava-se a hora do jogo Brasil e Itália pela Copa das Confederações. A conversa girava em torno da Copa do Mundo do ano que vem. E ele, o pequeno grande homem, abriu a mochila.

Abriu a mochila e de lá sacou um par de castanholas.

Ficou de pé.

Deu de sapatear a calçada da esquina tocando, com fúria espanhola, as ditas castanholas.

Segundos depois, puxou a toalha de uma mesa vazia e passou a tourear um touro imaginário (ele mesmo gritava “olé!” como um possesso).

Eram mais de vinte olhos esbugalhados diante daquela possessão européia.

Até que sentou-se, suadíssimo, enrolado na toalha e pousando as castanholas sobre a mesa.

Disse, transido:

– Soy contra!

Ninguém entendeu nada.

Luiz Antonio Simas, que entende das coisas do além, disse calmíssimo:

– Contra o quê?

Ele, de olhos fechados, mãos cerradas, socou a mesa plástica fazendo quicar copos, pratos e talheres:

– O Brasil! O Brasil!

Silêncio absoluto.

Pus a mão em sua testa (ele tinha febre) e disse:

– Contra o Brasil?

E ele, com os olhos brancos:

– Se o Brasil enfrentar a Espanha na Copa do Mundo, serei Espanha! Torcerei pela Espanha! Espanha! Espanha! España! España!

Saiu, como uma múmia de vodu, e tomou a direção de casa.

Ainda bati o telefone pra ele.

– No quiero hablar, Eduardo! Adios! Adios!

Eis, meus caros, o que eu queria – assustadíssimo e preocupado – lhes contar.

Até.

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8 Comentários

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8 Respostas para “A INGRATIDÃO AMERICANA

  1. >E nosso querido amigo americano ainda foi expulso na pelada de ontem! rs

  2. >Essa agressividade é fruto da idade avançada do rapaz, Edu.Coisa normal.Saudações!

  3. >Moutinho: o pequeno grande homem já chegou ao BAR DO CHICO, como diria N.R., com olhos rútilos, lábios trêmulos e cava depressão. Chegou dizendo os diabos a respeito do juiz que apitou a pelada no Leme, filiado ao PSOL, pelo que soube. Talvez movido pelo sentimento que corroía sua alma de menino ele tenha tido o surto hispânico que a todos assombrou. Um abraço.Daniel A.: a agressividade até pode ser posta na conta da idade do menino. Mas nada – quero repetir com a ênfase szegeriana -, NADA justifica a abjeta declaração de que torcerá contra o Brasil num eventual jogo contra a seleção da Espanha. Nada. Abraço.

  4. >O esclarecimento do Moutinho é sintomático.Estive uma – única – vez na pelada, onde constatei que o Felipinho é atacante arisco e aguerrido (lembra o Paulo Nunes dos bons tempos), de temperamento tipicamente latino. Sua indignação no bar foi agravada, certamente, pela – acredito eu, injusta – expulsão. E, se o assunto "leve de brinde uma camisa do América" chegou à mesa, ai, meu amigo, ele ter feito opção pela Espanha, foi, dos males, o menor, considerando-se o potencial ofensivo do malandro.Saudações,

  5. >Acredito que a promoção do jornal foi muito boa para a divulgação do América e seu projeto de reestruturação em andamento.Parabéns ao Jornal e, que muitos outros lancem idéias semelhantes a favor do América.

  6. >Sou palmeirense e visto com alegria a camisa do Juventus – o moleque travesso! A reação das pessoas é a melhor possível… É incrível como o time da Mooca é querido pelos paulistanos. Saudações alvi-verdes.

  7. >O que está acontecendo com Felipex?Abraço,Victor Azevedo

  8. Pingback: A FÚRIA ESPANHOLA | BUTECO DO EDU

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