UM BEBÊ FUMANDO

Estava eu, dia desses, caminhando pelo centro da cidade, quando decidi parar para um café no Café Gaúcho, na esquina da Rodrigo Silva com a São José. Comprei a ficha a R$ 1,00 (o café ali é de verdade e o preço é honesto, não é café expresso a preço de chope), encostei-me no balcão, pedi meu cafezinho puro, sem açúcar, sem adoçante, acendi um cigarro e dei de olhar a paisagem. Estava acontecendo, no meio da praça, um comício do PSOL, o que significa dizer que três ou quatro pessoas cercavam o sujeito que discursava distribuindo botinadas em todas as direções e dizendo as coisas mais sem sentido que jamais ouvi (mentira, eu já havia ouvido coisa pior na semana anterior em discurso do mesmo PSOL). Diante de uma banca de jornal, uma pequena multidão se acotovelava para ler as manchetes dos jornais do dia. Na igreja da Rodrigo Silva, velhinhas encenavam um entra-e-sai comovente. Estava terminando meu café quando fui abordado por um sujeito que estendeu-me um panfleto:

– Você já conhece nosso candidato? – perguntou-me o cidadão vestindo calça jeans rasgada, uma camisa de juta com botões que me lembraram os Flinstones de onde pendia um bottom escrito “I LOVE SANTA”, uma sandália de couro com sola de pneu e cabelos que fediam à distância e de onde saltavam lêndeas e piolhos socialistas.

– Não. – eu disse, e mantive o olhar no horizonte.

– Ele está convocando a população antenada a participar da Marcha Gay em São Paulo, cara…

– Cara? – e mantive o olhar no horizonte.

– Você não quer nem ficar com o panfleto dele?

– Não. – e mantive o olhar no horizonte.

Quando o piolhento afastou-se ouvi um burburinho na praça. Agradeci o café e tomei a direção da turba.

No banco da praça, um casal e um bebê no colo do pai, a mãe chorando muito e segurando uma máquina fotográfica antiga (acho que era uma Olympus Pen).

Populares cercavam a família e passei a prestar atenção ao discurso que uma histérica fazia, de dedo em riste:

– Chamem a polícia! Chamem o Conselho Tutelar! O Juiz de Menores! Isso é um absurdo, um verdadeiro absurdo! Essa criança crescerá traumatizada se continuar a ser incitada ao vício e ao mundanismo!

Cutuquei um senhor dentro de um bem-cortado:

– O que houve, heim?!

– Não sei, jovem, acabei de chegar.

O “jovem” me soou como deboche do cabeça-branca.

Atravessei a multidão, pus a mão no ombro da mãe e perguntei:

– O que houve? Vocês estão precisando de alguma coisa?

Soluçando, a jovem mãe disse ao marido:

– Conta pro moço, bem, conta…

O pai:

– Pedi a ela que tirasse uma foto minha com o menino, e de brincadeira pus um cigarro aceso entre os dedos dele, sabe? Queria repetir uma foto que meu pai fez comigo quando eu tinha dois anos, a idade dele… Ele fez anos ontem…

A histérica continuava (reparei que ela também usava um bottom do PSOL):

– Absurdo! Onde é que já se viu isso!? Uma criança fumando!

O pai ameaçou partir pra cima da loura. Pus as mãos em seus ombros e disse:

– Deixa quieta. É desequilibrada.

Ela seguia:

– Eu sou psicóloga, gente! Eu sei o que eu tô falando! – e deu de distribuir seu cartão.

Olhei pro pai, olhei pra mãe, e disse:

– Vamos, vamos tomar um café ali na esquina…

Em coisa de – o quê?! – cinco minutos a pequena multidão se dispersava, fui abrindo caminho para passar com a pequena família, até que a socialista dirigiu-se a mim:

– Você aí! Quem é? Quem é você?

Eu estaquei diante da patética figura e disse:

– Eu sou normal, minha senhora. A senhora é psicóloga! Psicóloga! Saia! Saia! Saia da frente!

Fui aplaudido. Caminhei com os três até o balcão do café e a histérica foi lá juntar-se a seus companheiros de partido em estado de absoluto choque com minha reação diante da abordagem pífia na frente de todos. É bem verdade que uma ou outra besta ainda ficou muxoxando indignação na praça como se tivessem algo a ver com a vida da criança, com a vida de seus pais, com a condução que estes dão ou darão à educação do pirralho que nada entendia, por óbvio.

E lembrei-me de um episódio recente.

Estava eu na casa de uma tia vendo, na parede do corredor, as fotos de seus filhos, todos bebês, em preto-e-branco, as famosíssimas fotos das sete carinhas, uma novidade popularíssima nas décadas de 40 e 50. Dei de cara com a foto do Beto com – o quê?! – dois, três anos no máximo. Numa das sete fotos, o malandro (hoje com mais de 40 anos) segurando um senhor cigarro aceso.

Beto jamais (com a ênfase szegeriana) fumou. Jamais experimentou o gosto de um cigarro, quer seja de maconha quer seja do convencional. Hoje sua pobre mãe seria presa, agredida, processada por conta do inocente gesto que sempre soou como inocente piada, e no entanto os pulmões do Beto não têm sequer resquício de alcatrão ou nicotina.

E tive eu que ouvir a bacana sapateando com seu salto alto bradando as regras estúpidas que tentava impôr aos passantes e àquela família normal diante de mim.

Com vocês, Nelson Rodrigues:

“Meninos de sete anos, meninas de cinco, vêem novelas. Portanto, era uma medida típica de salvação nacional e humana varrer essa miserável subliteratura. Um espírito crassa e estreitamente positivo poderia perguntar: “E os menores abandonados? E os garotinhos que bebem a água das sarjetas, e os que apodrecem de abandono?”. Esses não precisam de nós. (…) Na rua, fica tudo como está. Mas nos lares a criança está protegida, dos pais, das mães, das avós, das tias, das cunhadas e primas. (…) Já houve a morte da novela. Veremos, em seguida, outras mortes: da pobre música popular, do futebol, da piada, do sorriso.”

Isso, meus caros, foi escrito em 1969.

E muito por conta de posturas recorrentes como a da bacana socialista do Buraco do Lume, a profecia rodrigueana faz-se dura verdade a cada dia que passa.

Até.

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5 Comentários

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5 Respostas para “UM BEBÊ FUMANDO

  1. >Edu,Seu blog é um dos meus preferidos. Embora ele seja um blog tipicamente de meninO, com papos de meninO, brincadeiras de meninO, … eu sempre me pego às gargalhadas dentro dessa atmosfera cheia de cromossomos xy!Parabéns pelo blog. Ele é sensacional!Elika Takimotowww.elikatakimoto.blogspot.comPS. Onde está escrito "papos de meninO, brincadeiras de meninO",leia "futebol,buteco, futebol,buteco, futebol…"

  2. >Edu, imagina se a criatura fosse do PSTU… Agora, impressionante como Nelson Rodrigues é sempre contemporânea, não? Considero-o o maior gênio da nossa escrita. Abraços!

  3. >Elika: seja bem chegada ao balcão!Alexandre: as diferenças entre o PSTU e o PSOL são duas, apenas. A cor da bandeira (são as mesmas, não são?, acho que falei besteira) e o bairro-sede-espiritual; o PSTU é chegado na Lapa, o PSOL, em Santa Teresa. Quanto ao Nelson, trata-se do maior gênio, e ponto. "Da nossa escrita" restringe o alcance do brilhantismo do maior de todos. Um abraço.

  4. >Sou eu o artista da tal foto com o cigarro na boca aos 4 aninhos, num tempo em que não havia os conceitos politicamente correto, ecologicamente correto, sociologicamete correto, sexualmente correto, alguem sabe dizer se com tantos "corretos", o mundo melhorou? Alô, alô marciano, aqui quem fala…

  5. >Pois é, Beto: o mundo melhorou? Discutível demais, não? O que me parece indiscutível é que há cada vez menos humanidade entre os homens, tolhidos que são por esse patrulhamento odioso organizado pela turma do "politicamente correto". Como diz sabiamente Aldir Blanc, o politicamente correto assassina, dia após dia, o bom humor. E tome psicanálise! Um forte abraço.

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