O ANALISADO, AINDA

Dedico-me hoje, pelo terceiro dia seguido, a tecer minhas digressões sobre essa figura frágil (ela não sabe que é frágil como porcelana) que é a do analisado, da analisada. Na terça-feira escrevi O analisado (aqui), ontem Ainda o analisado (aqui), e hoje deito-me sobre o assunto uma vez mais, mais voltado para os efeitos práticos, no dia-a-dia, dessa nefanda atividade.

Eu conheci um sujeito, o Nestor, em meados da década de 80. Tínhamos – o quê?! – uns 15 anos. O Nestor perdera o pai exatamente um dia depois do parto que o trouxe ao mundo. Fulminado por um ataque do coração, seu pai, torcedor fanático do Fluminense, não resistiu às emoções do Fla x Flu de 15 de junho de 1969, quando mais de 170 mil torcedores assistiram à vitória do Fluminense por 3 a 2 no Maracanã. Morreu maldizendo sua mãe que o obrigara a ficar na maternidade, ouvindo – vá lá! – o jogo pelo radinho para fazer sala para a parentalha na maternidade.

Nestor cresceu ouvindo essa história contada por sua mãe, por seus avós, primos e primas mais velhas, e cresceu rubro-negro, amando o Flamengo graças à garotada da vila onde morava (ainda mora, encontrei o Nestor não tem nem um mês). Era (não é mais) fanático. Não perdia um jogo do Flamengo, era do tipo que viajava, entrava em caravana em ônibus clandestino, fazia parte de torcida organizada, o escambau. Um dia, Nestor estava para fazer 18 anos, e sua mãe o chamou, grave:

– Nestor, preciso falar contigo. Coisa séria.

Mergulhando o pão francês sem miolo na caneca de café com leite, Nestor respondeu:

– Fala, mãe.

– É sério, filho. Senta aí.

Nestor sentou-se. Achava a mãe uma santa, afinal o criara praticamente sozinha, viúva, costurando pra fora, dando tudo de si para garantir a educação do único filho.

– Nestor, esse teu fanatismo pelo Flamengo, filho… Há 18 anos penso no desgosto de teu pai… Tu não percebes que… que… – a mãe gaguejava.

– Percebo o quê, mamãe?

– Tu não percebes que teu fanatismo nada mais é do que uma vingança tua contra teu pobre pai só porque ele morreu um dia depois do teu nascimento?! Não percebe?! – chorava, a mãe, dona Jandira.

– Ô, mamãe… que papo é esse, mãezinha?!

A mãe assoou o nariz num guardanapo de papel. Bateram à porta, Nestor foi atender.

Voltou à cozinha:

– Mãe, é pra senhora. É Margarida, não conheço…

A mãe fez cara de aterrada, ajeitou o avental, o pano de prato sobre o ombro e foi atender a cara. Demorou – o quê?! – uns 10, 15 minutos. Voltou-se. O filho lia o Lance!.

– Quem é, mamãe?!

– Inquilina nova da casa oito. Psicóloga. Foi ela que… – e deu-se o blá-blá biográfico da nova vizinha.

Quando Nestor fez 18 anos ganhou de presente, da vizinha, fruto de um arranjo com a mãe, que cuidava das roupas da bacana, um ano de sessões de análise grátis, duas vezes por semana. O consultório da doutora era em Copacabana e lá foi o pobre Nestor descobrir, em absoluto pânico (era, na íntegra, um órfão de pai, visivelmente carente), que o futebol nada mais era do que uma fuga da dura realidade da orfandade, que seu fanatismo, justo pelo Flamengo, era uma espécie de vingança contra o desaparecimento precoce do pai, que sua relação com o ídolo Zico nada mais era do que transferência, essas besteiras olímpicas que os bacanas exalam pela boca como fumaça de um Cohiba legítimo.

O fato é que o Nestor deixou-se levar pelo papo da bacana. Passou a criar dois gatos que encontrou na rua dando-lhes o nome de Eros e Tanatos. Abandonou o futebol, o Flamengo, passou a olhar para seus amigos de infância com um olhar greco-romano, nunca mais pisou no Maracanã e, quando eu o encontrei, há coisa de um mês, estando eu debruçado no balcão do Café Gaúcho à espera do Leo Boechat, o chamei efusivamente:

– Ô, Nestor! Há quanto tempo, negão! E nosso Mengão, hã?! Bebe um chope comigo?

Ele me olhou dos pés à cabeça com um cara de nojo que vou lhes contar:

– Chope?! Mengão?! Eu evoluí, Eduardo! Evoluí!

E estendeu-me, depois de prospectar o bolso do agasalho onde vi espetado um botom do PSOL (fazia um frio polar no Rio), um cartão chiquérrimo:

– Procure a doutora Margarida. Fale em meu nome. Passar bem!

E saiu sapateando as pedras portuguesas da São José.

Até.

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