AINDA O ANALISADO

Hoje vou prosseguir nas sendas dessa figura sorumbática que é o analisado, a analisada, conforme lhes prometi ontem, quando escrevi O analisado, leiam (ou releiam) aqui. O texto fez, quero reconhecer publicamente, relativo sucesso. Recebeu poucos comentários, é verdade, mas rendeu uma enxurrada de e-mails. Um deles, anuncio desde já, me servirá de inspiração para o que quero lhes dizer hoje (e sobre o mesmo tema, palpitante, falarei também amanhã). Vamos ao e-mail que mais me impressionou, de um fiel leitor que me pediu (e eu o atenderei, por óbvio) anonimato:

“Freqüentei psicóloga quando criança. Eu era uma peste, saía no tapa praticamente todos os dias no colégio, além de detestar estudar: um típico menino revoltado sem causa. Meus pais, então, enfiaram-me numa psicóloga. Não adiantou, eu ficava jogando ping-pong com ela numa mesa minúscula, pouco falava; ela – como sempre -, muda. Por vezes, enchia-me daquele tédio (o ping pong era uma bosta), pedia para ir ao banheiro, e demorava uns 10/15 minutos – não, eu ainda não tinha idade para o 5×1, e ela jamais poderia ser fonte de inspiração para tal passatempo – só para sair da frente dela, uma das maiores malas da minha vida. Foi um dinheirão jogado fora durante um ano inteiro, e tenho cá desconfiança, que mais por conta da incompetência da tal fulana, do que por minha, digamos, incompreensão juvenil. Uma pena, pois acho que se meu pai tivesse investido tal monta num autorama novo, eu teria sido muito mais feliz.”

Pausa para meus comentários.

Imaginem a cena, e tirem as crianças da frente do monitor. O leitor em questão era – a leitura de suas primeiras frases não deixa dúvidas – uma criança rigorosamente normal. Seus pais, que não deviam ter tempo para o próprio filho e achavam elegantérrimo ter um psicólogo cuidando do pimpolho, puseram o moleque numa bacana. E o que fazia a bacana? Na ausência do divã, que seria inadmissível para uma criança, e tendo descoberto (tenho certeza, tenho certeza!!!!!) o nicho criança-bem-nascida-mimada-com-pais-sem-tempo, via o cofrinho encher de dinheiro enquanto, empunhando uma raquete de ping-pong, distraía (ou pensava distrair) a criança com partidas chatas e intermináveis de tênis de mesa. O menino, hoje um profissional bem sucedido graças a seu talento e perserverança, teria sido (a confissão e a conclusão são dele) infinitamente mais feliz com um mero autorama, sonho de todo moleque na década de – o quê? – 70, início dos anos 80. Mas, imaginem vocês se os pais dariam um brinquedo para a criança se podiam dar – ah, os luxos dos pais zona-sul – um psicólogo! Vamos à continuação do emocionado relato de meu leitor:

“Ultrapassada a psicóloga, infância, adolescência e faculdade, eu resolvi – depois de muito refutar – testar, por um tempo, a psicanálise. Não por conta de coisas mal resolvidas e etc., mas porque tinha essa – equivocada – impressão (vinda, talvez, de amizades feitas nos corredores do Cardeal Leme, se é que me entendes) de que o analisado é mais evoluído, enxerga mais, sente mais, percebe, e, acima de tudo, conhece mais de si. Sem dúvida, essa é a grande propaganda da psicanálise e, especialmente, do psicanalista, seja ele medíocre, seja ele um estudioso.”

Eu não sei se vocês, meus poucos mas fiéis leitores, captaram a mensagem imbuída na menção aos “corredores do Cardeal Leme”, e eu explico. Meu leitor estudou – onde mais?! – na PUC, onde deixar cair no Pilotis o cartão do psicanalista é sinal de status. O mesmo se dá, por exemplo, em Santa Teresa, onde fazer análise é condição sinae qua non para ser considerado um descolado. O mesmo se dá com o filiado ao PSOL, que é vaiado em convenção se não tiver, no bolso do colete (membros do PSOL se sentem in vestindo coletes), o cartão do seu próprio bacana. E notem como meu leitor vai na mesma direção que fui ontem quando eu disse que há, no analisado, essa necessidade incompreensível do proselitismo!

Continuando:

“Bom, foram 4 anos de psicanálise, o que para mim foi uma experiência bacana, positiva. Nunca cheguei a me sentir – e nem me sinto – superior ou melhor do que ninguém por isso. Senti, sim, por vezes, certa dependência da psicanalista (alimentada, naturalmente, por este), e isso muito me incomodou, mas depois deixei essa neurose de lado e a coisa fluiu bem.”

O analisado, que fuma, cheira, debulha e aperta seu bacana-portátil, depende do doutor para quase-tudo. Quer ir ao cinema. Doutor, drama ou comédia? Quer sair pra jantar. Mestre, carne ou peixe? Quer viajar. Sábio, Europa ou América? E por aí vai.

E assim meu leitor fecha o e-mail (omiti os pontos mais pugentes e capazes de identificá-lo):

“Achei muita coincidência esse teu post, pois tem, exatamente, um mês, que me dei alta, após pouco mais de 4 anos de sessões. Não sinto falta, mas também não me arrependo de ter feito. Acho minha ex-psicanalista uma pessoa bacana, profissional, correta, e com defeitos; muitos, inclusive, ligados ao ranço da profissão (todas as profissões têm os seus), que você muito bem descreveu. De resto, estou contigo, quando dizes que muitos fumam o psicanalista (perfeita a expressão), utilizando-o como um verdadeiro guru, conselheiro, chegando à idolatria. Além de patético, é altamente maligna essa distorção de valores.”

Quatro anos de sessões (vamos na média de 2 sessões por semana) somam 384 sessões. Vamos à média de R$ 200,00 por consulta e verificamos, assombrados, que meu leitor entregou na mão da psicanalista a quantia de R$ 76.800,00. Um carro de luxo zero quilômetro! Um apartamento modesto em Jacarepaguá! Uma quitinete na Tijuca! E isso, meus poucos mas fiéis leitores, para que a bacana se mantivesse no mais rigoroso e árido silêncio (os psicanalistas mudos são muito mais chiques!). O único gesto do psicanalista é, sempre, o apontar do relógio ao final do tempo estabelecido com o dedinho indicador, como um metrônomo de carne batendo no vidro do Mido.

Dito isso, vamos a um caso concreto, prova cabal do efeito nefasto que causam, os bacanas, na vida de seus pacientes.

Estava eu no Café Gaúcho, um dia desses, encostado no balcão de café, saindo do metrô em direção ao Tribunal de Justiça. Sozinho.

A meu lado, um sujeito de terno, como eu, conversava com outro, também num bem-cortado.

– Tens visto o Danúbio?

– Nem te conto… – pôs as mãos em concha sobre a boca.

– O que foi?

– Está fazendo análise.

– Análise?!

– Análise. Mudadíssimo, nem queira encontrá-lo!

O amigo boquiaberto, mexendo o café com a colherinha, olhando pro Buraco do Lume, onde acontecia um comício do PSOL para quatro pessoas.

Eles se cutucam.

– O Danúbio! O Danúbio vem lá!

– Onde, homem de Deus? Onde?

– Ali, ó! De terno bege e gravata vinho!

E passou o Danúbio pela esquina da Rodrigo Silva com a São José.

Foi chamado com um “psiu”. Parou. Olhou pros dois. E não esboçou reação.

Disse o primeiro, que acabara de saber da novidade psicanalítica, com os braços abertos:

– Ô, Danúbio! Dá cá um abraço nesse teu irmão, pô!

E eu testemunhei, juro pra vocês, a frase gélida do analisado:

– Abraço? Tu estás brincando, Macedo?

O pobre do Macedo ficou sem ação, com os braços abertos como a águia da Portela:

– Tá me estranhando, Danúbio?!

– Tu nunca foste meu amigo, Macedo. Que dirá irmão! Passar bem!

Antes de partir vasculhou o bolso interno de seu paletó. De lá de dentro, sacou um cartão:

– Vá procurar um analista, Macedo. Eu mudei, e para melhor. Passar bem!

Saiu sapateando os paralelepípedos da Rodrigo Silva numa pose de puro-sangue, virando a cabeça até dobrar a Assembléia, com aqueles olhos de profunda piedade que os analisados trazem encaixados na máscara que vestem depois das primeiras sessões.

Até.

Anúncios

10 Comentários

Arquivado em confissões

10 Respostas para “AINDA O ANALISADO

  1. >Muito bom! Também fiz análise durante uns anos por causa de meu comportamento rebelde na adolescência. Ainda bem que me livrei da dependência que meu psicanalista introjetou em mim. Deus me livre! Um grande texto, uma grande crítica. Descobri o blog hoje pela manhã mesmo, vou freqüentar, tá? Beijo.

  2. >Parabéns Edu excelente texto, ainda acho que a melhor pscicanálise é feita no boteco e sai mais muito mais em conta.abraço

  3. >Edu, eu insisto.Acho inegável e acertadíssimo seu comentário sobre alguns aspectos da análise e sobre a dependência que eventualmente pode causar em algumas pessoas, especialmente quando orientadas por maus profissionais.Mas também não dá pra negar que não são poucas as vezes que esse tipo de terapia proporciona ganhos e melhoras imensuráveis à saúde mental de várias pessoas.Sou daqueles que pensa que a mente é como o corpo. Por vezes apresenta enfermidades que requerem tratamento mais especial.Mas, novamente, insisto: acho que um bom profissional ajuda o paciente a se encontrar (é incrível como algumas pessoas precisam disso!) e a, inclusive, passar a fazê-lo sozinho, sem dependências.Abraço!

  4. >Porra , se voce tem amigos não precisa de psicanalista , psicologos , psiquiatras e outros psis………

  5. >Minha terapia é no buteco. Um copo de cachaça, uma cerveja, um cigarro e um bom e velho papo. Como diz o amigo ai acima: muito mais em conta.

  6. >Fique à vontade, Camila. Seja bem chegada.Dentinho: é isso, é isso. Abraço.Felipe: o psicanalista tem a obsessão permanente da dependência aguda de seu paciente. Ofereça ao psicanalista um paciente disposto à alta e você verá um profissional em desespero. Abraço.Papai: há que tempo não o vejo por aqui! Nem acho que seja exatamente por aí. Às vezes, por um deslize, o camarada (com amigos) vai parar no consultório de um bacana (por modismo, que seja). E depois das primeiras sessões ele é um homem superior aos amigos, aos quais passa a oferecer sentimentos de profunda piedade, numa inversão absurda dos valores vigentes dentro desse quadro. Beijo.Rodrigo: buteco? Cachaça? Cerveja? Cigarro? Oh, meu caro, o analisado flana sobre isso tudo, vícios já superados, graças à intervenção de seu bacana-portátil, que passa a ser o único vício desejável. Abraço.

  7. >Samba e cachaça é o melhor remédio. Análise é o cacete!Belo mote, Edu.Abraços!

  8. >Algumas questões levantadas por você, Edu, com esse humor sem igual, estão corretíssimas. Existe mesmo uma supervalorização e um deslumbramento babaca com a análise. Mas, existem terapeutas/profissionais que engrandecem a profissão, ajudando de fato quem precisa de ajuda e cuidados especiais. Não são todos que conseguem superar dificuldades sem ajuda e, infelizmente, nem sempre bons amigos e uma família bacana conseguem dar conta. Algumas pessoas simplesmente não conseguem. E é nessa hora que o bom profissional entra e, acredite, ajuda pacas. Conheço dois grandes profissionais, por quem nutro um imenso respeito e gratidão.

  9. >Tudo que pensei em escrever a Olga fez por mim.Grande abraço Edu, fico feliz de ver o Buteco movimentado novamente.Coelho

  10. >Obrigado, Diego!Cara Olga, queridíssimo Coelho: os bons profissionais interessam apenas a seus pacientes. Aqui, no balcão, têm vez, apenas, os bacanérrimos sobre os quais venho lançando meus archotes. Beijo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s