O ANALISADO

Estava eu, ontem, escrevendo Do dosador (aqui), quando dei de falar sobre o analisado, a analisada. Nada tenho contra o expediente, que fique claro: há, quero crer, quem precise do psicanalista. Uma crise, um momento difícil, uma situação sei-lá-qual, e justifica-se a contratação do médico, o pagamento por uma hora, hora e meia, de conversa com o doutor. Pouca gente à minha volta (ao menos que eu saiba) tem, no bolso, seu psicanalista, seu psicólogo. Mas quero crer que sejam poucas, mesmo, as pessoas que recorrem à terapia. Pois uma das características do paciente é o orgulho de sua condição, de sua situação. Você está no bar, pede um chope, olha pro camarada ao lado, o cumprimenta com um leve meneio da cabeça e ele diz afrouxando a gravata e olhando pro relógio:

– Tenho que ir. Tenho análise!

Como eu disse, há os casos que justificam a busca do expediente. Mas há, também, e trata-se da maioria, os que fumam o psicanalista, o psicólogo. Os dependentes quase-químicos. Os que não conseguem dar um passo, um mísero passo, sem consultar o profissional que trazem a tiracolo. Eu tinha um amigo (que morreu) que ia três vezes por semana ao consultório do bacana, em Ipanema. Setenta e cinco por cento do salário do de cujus ia para o psicanalista. E ele nutria, pelo bacaníssimo, uma devoção, uma voluptuosa dependência que – confesso – me divertia. Encontrávamo-nos, segundas, quartas e sextas, numa mesa na varanda do Bar Lagoa, por volta das nove da noite. Ele sempre chegando do consultório do doutor Santarém. Eu:

– E aí? E aí?

– O de sempre…. – ele também respondia sempre a mesma coisa.

“O de sempre” – leiam sentados, meus poucos mas fiéis leitores, e tirem as crianças da frente do monitor – significava que meu saudoso amigo sentara-se diante do psicanalista e ficara ali, mudo, estático, no máximo roendo as unhas, por sessenta cravados minutos, após o que o bacana dissera:

– Até a próxima, meu caro.

Nas primeiras sessões o hoje-morto ainda ousara um sinal de insatisfação e surpresa, mas o doutor Santarém, implacável, batia com o indicador da mão direita três vezes no vidro de seu Mido e, mudo, apontava para a porta da recepção. Com o tempo meu saudoso amigo foi sendo tomado por um sentimento de idolatria com relação ao seu bacana. Dizia para nós, à mesa do Bar Lagoa:

– É um dos maiores do Brasil, seguramente o melhor do Rio de Janeiro!

Sacaneado pela turma, dizia com ar superior:

– Vocês não entendem nada! O silêncio dele diz mais que a fala pueril de todos vocês!

Uma besta, que Deus o tenha.

Dia desses, almoçando no Centro, ouvi duas mocinhas conversando:

– Você não faz análise?!

A outra, mastigando (e de boca cheia):

– Não. Por que?!

A analisada deixou cair, fazendo barulho, garfo e faca sobre as bordas do prato de louça. Pôs as duas mãos nas bochechas, fez que não com a cabeça e disse:

– Como pode?

A outra, molhando o sashimi espetado no garfo na pocinha de sangue que escorria da picanha (o prato da moça era um dos troços mais feios e de mau-gosto que eu jamais vi):

– Como pode o quê, Valkíria?

– Não fazer análise, não valer-se do divã, não ter com quem dividir tudo… – e fazia cara de pasmo.

A outra, bochechando com Coca-Cola:

– Que ridículo, Val. Eu não preciso.

Valkíria subiu nas tamancas:

– Hum! Não precisa! É esse o discurso de todos os que mais precisam! Toma aqui! – e estendeu um cartão pra amiga, que levantou ainda mastigando, tomando a direção da fila do caixa.

Há, de fato, no analisado, essa necessidade incompreensível do proselitismo. Tudo o que você faz, que você fala, que você come, que você bebe, que você vê, que você lê, que você compra, gera, no analisado, um olhar de piedade e de superioridade, fazendo piscar na sua (dele) testa o neon imaginário onde se lê o outdoor patético que anuncia sua condição de cliente-de-um-bacana.

Volto, amanhã, ao tema.

Até.

Anúncios

7 Comentários

Arquivado em confissões

7 Respostas para “O ANALISADO

  1. >Edu, poucas vezes vi uma descriçao tão fiel da situação.Eu confesso que, por diversas vezes, tenho vontade de fazer análise. Geralmente quando passando por um momento mais delicado, em que há um nós nos meus pensamentos e as coisas ficam mal resolvidas na cabeça.Adotei o André como meu analista, mesmo sem ser. Pronto, já fica resolvido!Mas realmente o que mais vejo por aí é essa dependência que as pessoas acabam criando pelo analista.A sua expressão foi perfeita: as pessoas "fumam o analista".Abraços.

  2. >Concordo. Os psicanalistas podem ser sérios mas é repugnante como (pelo menos os dois que conheci) usam o analisando, estimulando as tais transferências. Fui em um psicólogo e psicanalista, e em três sessões não tinha o que falar, não falei, que porra era aquela?!?! Como contar algo a alguém que nem me dava uma pista do que queria exatamente fazer no meu caso? Isso foi quando eu tinha 17 anos. Imposição familiar por conta de umas merdas que andei fazendo. Aos 40 e tantos anos, por decisão pessoal, fui a outro, um cara até legal, só que meio ortodoxo. Eu falava muito e ele nada, como sempre. Hora de ir embora, sagrada. Este mês tá difícil eu vir duas vezes por semana porque… foda-se, arranje dinheiro, isso aqui é sua salvação (claro que não era isso que o cara me dizia, mas o silêncio que fazia dizia isso). Um dia, sem mais nem menos, disse pra ele que era minha ultima consulta. Por que? Porque não tenho mais tempo e nem dinheiro. Por que? Porque estou trabalhando em dois lugares e a grana não dá. Silêncio. Silêncio. Saí mesmo. O engraçado é que a secretária do cara me ligou umas três vezes, a última quase implorando pela minha volta.

  3. >Pobre, André, Felipe, pobre André. Na Tijuca, meu caro, coisas "mal resolvidas na cabeça" dão péssima fama. Um abraço! Zé Sergio: esta é uma das agudas verdades que salta aos olhos de quem vê de fora. Essas bestas ganham dinheiro a rodo sem abrir a boca, sem dizer um "ah", e ainda ganham o rótulo de gênios por conta da dependência que inoculam no pobre do doente. Abraço.

  4. >Edu, eu tb acho um abusrdo o que alguns analistas fazem induzindo a dependência dos seus pacientes em relação a eles. Mas também acho que isso é um defeito de alguns maus profissionais. Há alguns profissionais éticos que se portam de maneira diferente.Mas confesso que não conheço bem o meio. Nunca fui paciente em análise.Mas uma ressalva preciso fazer: as coisas mal resolvidas na cabeça nada têm a ver com qualquer troço que dê péssima fama.São meras inseguranças, por exemplo, típicas de um início de vida profissionais.Já os assuntos do dia-a-dia, aí não tem essa não.Abraços!

  5. >Melhor ainda que a descrição supimpa dos insuportáveis garotos-propaganda de hospício é a descrição dos horrores do restaurante por quilo, o magistral serve-serve. Estupendo, Galo.

  6. Pingback: AINDA O ANALISADO | BUTECO DO EDU

  7. Pingback: O ANALISADO, AINDA | BUTECO DO EDU

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s