SZEGERI

Estava saindo do trabalho ontem à noitinha, perto das sete, ao crepúsculo. Saltei do elevador, dobrei à esquerda ainda dentro da galeria e tomei a calçada da rua. Fui em direção à banca de jornal, à direita, comprei um maço de cigarro e pedi, na cafeteria em frente, um curto pra acompanhar o trago. Estava acendendo o cigarro quando fui abordado:

– Edu?

Ergui os olhos (feíssimos), soprei a fumaça pro alto e disse, sem reconhecer a moça diante de mim, na faixa dos – o quê?! – 40 anos, como eu, diga-se.

– Pois não?

– Boa noite, Edu! Você se importa de me dar um cigarro?

Estendi a carteira em direção a ela. Ela puxou um com extremo zelo, valendo-se das unhas, pôs o cigarro entre os lábios e fez com a sobrancelha o pedido para que eu o acendesse. Acendi. Eu tinha nos olhos (feíssimos, repito, e um maior que o outro) o neon imaginário piscando e indicando que eu não sabia com quem estava falando. Ela se adiantou:

– Você não me conhece, não! – riu e soprou a fumaça pra baixo.

Meu café chegou. Ofereci a ela.

– Vou aceitar…

Pedi outro café e fixei o olhar nos olhos da moça. Não era feia. Mas não me comovia, também. Meus olhos pediam que ela continuasse.

– Sou uma de suas poucas mas fiéis leitoras… – ficou vermelha, soprou o café, deu um golinho, pousou a xícara no pires, tragou profundamente.

Fiquei sem ter o que dizer. Sorri, apenas, um dos mais feios sorrisos que a humanidade já produziu (sou um feio absolutamente ciente da minha aridez de qualquer espectro de boniteza). Ela continuou.

– Reconheci você… tenho seu livro, leio seu blog… fiz mal em abordá-lo?

Eu disse que não, mas ela não acreditou, foi o que me pareceu.

Abriu a bolsa, remexeu uns troços lá dentro, puxou uma nota de dois reais.

– Meu café…

– Ora, deixa disso… – tentei ser simpático, o que quase nunca consigo.

Ela pôs a nota sobre o balcão.

– Faço questão.

– O.K.!

Estabeleceu-se um silêncio previsível.

Ela deu um último gole no café, tragou de novo o cigarro, jogou a guimba no chão (o cigarro pela metade), pisou para apagá-lo (ela vestia um tênis All Star), e disse, estendendo a mão (que estava geladíssima):

– Foi um prazer, viu?

– O prazer foi meu.

– Posso te perguntar uma coisa?

– Pode.

– Você me daria outro cigarro?

Estendi a carteira de novo.

– Era essa a pergunta?

Ela riu.

– Não.

– Então…

– Por que você nunca mais falou dele?

Franzi a testa (fiquei, tenho como certo, horripilante).

– Ele está bem?

Eu ia responder, ela continuou:

– O melhor personagem do seu blog. Tenho sentido falta dele. E de sua barba amazônica.

– Você o conhece?

– Do blog, apenas.

Eu ia responder, ela se despediu ainda rindo:

– Tenho que ir. Meu marido chegou! Mande um beijão pra ele, tá? Eu adoro ele!

Atravessou a rua e entrou no carro estacionado do outro lado, não sem antes acenar em minha direção.

Vejam vocês… Fernando José Szegeri, funcionário público, pai de três crianças, arrimo de família, comunista, cantor, empresário, filósofo, meu irmão siamês (e que jamais rejeitará tal condição), de férias em São Paulo, ocupando a cabeça de uma moça que dá-se ao trabalho de me parar na rua apenas para me pedir, clamando, urgentemente, que eu fale dele, o homem da barba amazônica.

Um portento, o Szegeri. Um portento.

Até.

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6 Comentários

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6 Respostas para “SZEGERI

  1. >EduardoAqui, destas Campinas interiorana, acompanho e me delicio com seus post´s, nem sempre concordo com eles, mas o que me faz acessar seu blog, é simplesmente a maneira singela como escreve e ainda mais a maneira fraternal com que você trata o Fernando José Sgezeri, Bruno Ribeiro, Felipinho Ceral (aquela foto de pijama no Bar é hilária!), Luiz Antonio Simas e tantos outros que não me recordo agora. Continue assim!Um brinde de sexta feira, com uma céva bem gelada à você e a esta turma de amigos que tem, pois com certeza eles se orgulham de ti.Abraço do ErnestãoCampinas – SP

  2. >Certa noite fui ao bar Sabiá, do seu amigo Szegeri. A pessoa que me acompanhava se levantou para cumprimentá-lo e trocar uma palavrinha. Quase falei para o Szegeri: "Oi! Também te conheço – do Buteco do Edu", mas não tive o mesmo despreendimento da moça do cigarro.

  3. >Ernesto: obrigado, camarada! Sou um homem melhor graças aos amigos, fundamentais, que me cercam. Obrigado pelo brinde, um forte abraço!Vanessa: permita-me lhe dizer que você perdeu uma grande oportunidade. Não é sempre que se está diante d´Ele. Posso saber quem é seu afortunado amigo? Sim, pois alguém que se levanta (e todos se levantam diante d´Ele…) para receber as bençãos do homem da barba amazônica é um afortunado. Beijo.

  4. >É muito interessante a relação do leitor e seus autores. No caso dos livros , existe um mundo imaginário do qual faço questão de manter , por exemplo, não gosto de assistir filmes de obras que tenha lido, pois na minha imaginação a história sempre é melhor. Os blogs ficam mais próximos da realidade, até mesmo por não ser alimentado somente por contos, mas às vezes com relatos do cotidiano do autor, então ele pode sair do nada´, lá da sua imaginação e esbarrar com você em qualquer esquina. Os "personagens" descritos de forma tão minuciosa, faz crer a qualquer um , que são pessoas especiais . E acredito piamente que todos são. Veja a importância e responsabilidade com o que se escreve, jamais a menina do bar acreditaria que o Fernando José Szegeri, Simas e cia. são tão especiais se o autor não tivesse credibilidade.Forte abraço!

  5. >Digo, "Os personagens fazem crer…

  6. Pingback: DO DOSADOR | BUTECO DO EDU

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