UMA NOITE TIJUCANA

Perdão, minha mãe, mas preciso começar assim… Meus poucos mas fiéis leitores, vocês que me lêem sabem que desde há muito deixei de lado a faceta do Buteco que expunha, de forma aguda, minha vida pessoal e meu dia-a-dia, por incontáveis razões que não vêm ao caso. Ocorre que preciso lhes contar sobre a noite de ontem por conta não apenas da excepcionalidade do ocorrido mas também por conta da belezura que foi o desfecho da história, já quase quatro da manhã.

Tudo o que se viveu na noite de ontem ficará para sempre guardado na memória e no coração dos que estiveram em torno da mesma mesa no Bode Cheiroso, glorioso pé-sujo na rua General Canabarro, na Tijuca (é claro), desde às sete e meia da noite.

O que quero lhes contar aqui é outro troço.

O Cláudio, autor do blog Chuta que é macumba (aqui), e que é um triplo explosivo ambulante (ele é, em ordem alfabética, comunista, corinthiano e japonês), responsável direto pela realização do desejo agudo que tomou de assalto meu mano paulista, o homem da barba amazônica, veio ao Rio para ver Vasco e Corinthians.

Na bagagem, despachada noutro vôo, em carne e osso, isso mesmo, Fernando Szegeri, que veio – tomem nota – apenas para beber comigo (eu ia escrever conosco, mas eu sou assim).

Após o jogo, conforme o combinado, reencontramo-nos todos no Bode Cheiroso, já que além do Cláudio, também fui ao jogo, com o Fefê, meu irmão do meio. No buteco ficaram (em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades) Felipinho Cereal, Fernando Szegeri, Luiz Antonio Simas e Marcelo Vidal.

Pois o Cláudio, quando descia a rampa das arquibancadas, disse a seus amigos corinthianos:

– Vamos comigo beber com uns amigos num buteco aqui perto?

Os civilizados membros da Gaviões da Fiel, homens mansos e desacostumados com as quebradas, fizeram “ohs” e “ahs”.

– Aqui perto?! Na Tijuca?!

– Na Tijuca.

– ´cê tá doido, meu! A Tijuca é foda. A Tijuca é violenta. A Tijuca é perigosa.

E ficaram nessa lenga-lenga nojenta que macula o bairro onde nasci, onde cresci e fui criado.

O Cláudio, que apesar dos olhos puxados enxerga longe, e que de otário não tem nada, foi ter conosco em torno da mesa.

E faço a ele o pedido público para que comente, ele mesmo, sobre o que foi o passeio que fizemos a pé (acompanhem o traçado em vermelho no mapa abaixo), da General Canabarro, de onde partimos quase às duas da manhã, em direção ao Estudantil, na Haddock Lobo. Saímos da General Canabarro, entramos na Oto de Alencar, descemos a Lúcio de Mendonça (onde mora o Simas), dobramos à esquerda na Mariz e Barros, à direita na Professor Gabizo, atravessamos a Heitor Beltrão, pegamos a Martins Pena, a Afonso Pena à direita, atravessamos a Doutor Satamini e entramos à esquerda na Haddock Lobo.

caminhada da rua General Canabarro até a rua Haddock Lobo, Tijuca, Rio de Janeiro

Pegamos o Estudantil fechado (perto das três da manhã!), mas vazava luz pela fresta da porta de ferro.

O Felipinho bateu:

– Quem é?

– Felipinho, amigo do Edu…

Abriu-se a porta.

– Pô, por que tu não disse logo que era você?! O que vocês querem?

– Três cervejas e quatro copos americanos… toma aqui o dinheiro…

Éramos, àquela altura, eu, Cláudio, Felipinho Cereal e Fernando Szegeri.

– Paga depois… paga depois…

Nos entregaram as três cervejas geladíssimas já abertas, os quatro copos, e o caboclo disse, já indo embora:

– Depois deixa no canteiro ali, ó, os cascos e os copos. Falou?

E disse o homem da barba amazônica, de olhos marejados, uma de suas frases clássicas:

– Sabe quando isso aconteceria em São Paulo?! NUNCA! – e fez-se o eco na deserta Haddock Lobo.

Generosas doses de Old Parr fecharam a noite, quando me despedi do malandro às cinco e meia da manhã.

Salve a Tijuca e – o Cláudio vai lhes contar… – suas ruas!

Até.

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10 Comentários

Arquivado em gente, Tijuca

10 Respostas para “UMA NOITE TIJUCANA

  1. >Edu, como eu entendo o que você fala. Que sensação de pertencimento se sente, ainda mais se de madrugada, ao andar por essas ruas tão íntimas! E, embora você não goste, sou agradecida, sim, por você ter reacendido em mim esse orgulho de ser tijucana.

  2. >Amigos, a noite de ontem foi algo que esse ser insone por questões laborais ainda não consegue descrever com a destreza merecida. Um pouco por não dormir, mas muito porque essa longa caminhada conseguiu o impossível: potencializou ainda mais minha paixão pelo Rio de Janeiro e, conseqüentemente, por esse lugar cheio de alma chamado Tijuca.De fato, os “truta da bancada” demonstraram aquele ranço babaca que divide inexplicavelmente Rio e SP, se deixando levar por preconceitos dos mais absurdos. Porque nunca, nunca mesmo, eu caminharia com tanta tranqüilidade e veria tantas belezas no bairro onde vivo aqui na garoa.Durante o caminho, não se escutava, além das nossas conversas, qualquer sussurro, qualquer palavra, qualquer barulho de motor. Essa é a violenta, perigosa e inabitável Tijuca que aparece nos jornais abjetos…Aquelas ruas, aqueles prédios e casas e todo o comércio da região me fizeram ter certeza (se é que já não a tinha) de que está ali na zona norte carioca um dos maiores lugares do mundo.Salve a Tijuca! E abraços emocionados a todos vocês que foram responsáveis por essa inesquecível noite.P.S.: cacete, a gente andou tudo isso?

  3. >Fala Edu,Também fico chateado quando o pessoal que só conhece o RJ pelo Jornal Nacional fica falando que o Rio é perigoso, é isso e aquilo, mas isso é um outro papo, acho que será meu próximo post lá no Sambas e Outras Bebidas.Queria lhe dizer que morei no condomínio Santa Amélia, aquele alí de esquina com a Matoso; e que andei, pela madrugada, por todas essas ruas do traçado em vermelho. Nunca me aconteceu nada, e só fui conhecer “os perigos da Tijuca” anos mais tarde nos telejornais.De qualquer forma, hoje em dia, o terror noticiado diariamente realmente assusta quem não conhece o bairro de perto.Abraços

  4. >Não se trata de não gostar, Olga… É que acho um tremendo exagero seu! Mas se ajudei nesse processo, melhor assim! Beijo.Cráudio: andamos, malandro, andamos exatamente isso, lembre-se de que sou preciso do início ao fim. Saímos do BODE CHEIROSO quando ele já quase-fedia. Entramos na Oto de Alencar, vimos a feira sendo armada na esquina da Morais e Silva com a rua do Simas (onde você delirou com a quantidade de casas…), entramos na Mariz e Barros, na Professor Gabizo (onde vimos a casa da vó da Gi, lembra?, e o prédio onde mora o Dicró). Atravessamos a rua do Rio, onde fica o portentoso Fiorino, fomos à praça Afonso Pena… e seguimos, cara, seguimos, seguimos… sem bala traçante, sem assalto, e sem – belíssima percepção a sua – barulho sequer de motor de automóvel! Forte abraço.Nelson: só se assusta quem se encastela. Um abraço.

  5. >Eu falei, eu falei!!! Andamos na tão temida madrugada carioca, e ainda por cima na Tijuca! Oh! Meus Deus! O que terá acontecido? Porra nenhuma!!! Tudo isso é balela… Aconteceu que a madrugada tava bonita pra cacete… Aconteceu que bebemos no meio da rua às 3 da manhã e o que recebemos foi generosidade. É isso.

  6. >Falou o Pequeno Grande Homem, verdadeiro poço artesiano de ternura no fundo do qual JAMAIS, com a ênfase szegeriana, encontrarei lodo e lama, vilania ou maledicência. E o drive in, malandro? E a tentativa de subornar os caras do COLUMBINHA espanando a nota de 20 por baixo da porta? Foi uma noite e tanto, querido. Obrigado por tudo. Beijo.

  7. >Querido,acabo de reler, depois de terminar as matérias do dia, seu texto de hoje sobre a noite tijucana que vocês viveram. Fiquei me coçando de inveja, profundamente emocionado. Que belo texto, malandro. Interessante notar um troço: quando estou no Rio, sobretudo quando estou perambulando pela zona norte, sinto-me absolutamente seguro. E nesses anos todos em que vou ao Rio pelo menos duas vezes por ano desde que me mudei de São Cristóvão para Campinas, NUNCA – com ênfase szegeriana – passei perto de qualquer situação de risco em relação a assaltos, sequestros, balas perdidas ou o caralho. Esta caminhada que vocês fizeram, às três da manhã, não seria recomendada por mim se tivesse que ser feita, no mesmo horário, aqui no Centro de Campinas. E olha que já bati muita perna pelas madrugadas daqui. Beijo

  8. >Lendo seu relato, Edu, me deu saudades do Bode Cheiroso (que conheci como Bar do seu Manoel). Fico imaginando se eles ainda têm minha ficha de pendura no fichário…abraçãopt

  9. Pingback: APOSENTOU-SE, O BIGODE – PEQUENAS DIGRESSÕES | BUTECO DO EDU

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