DO DOSADOR

* um homem de bem tem o dever, permanente, de homenagear, de louvar, de adorar seus antepassados, responsáveis diretos por sua existência. Ainda que não se creia na sobrevivência do espírito, da energia que move o corpo (ou o nome que se queira dar a isso), a simples lembrança daqueles que nos antecederam é verdadeiro bálsamo que fortalece, integra e nos sensibiliza para o sentido maior da vida. Digo isso pois sou um homem que tem, continuamente, na carteira imaginária, a imagem, o cheiro, a voz e os gestos dos meus mais-velhos, mesmo os que não conheci – e sei que me faço entender. Isso me faz um bem danado. Procuro estar sempre com Yona Glicklich, meu bisavô, com Anna Glicklich, minha bisavó, com meu bisavô Eugênio, com minha bisavó Mathilde, com minha tia Idinha, Zirota, Chico, Sílvio, com tia Mariazinha, que aos 15 anos deixou uma saudade que sinto até hoje graças aos relatos comovidos de minha avó Mathilde, que do alto de seus 84 anos é fonte permanente de uma memória que não se perde. Falei, falei, falei apenas para lhes dizer que ontem homenageei, à minha moda, Luiz Orlando Grosso, vô querido de meu queridíssimo Luiz Antonio Simas, que do céu comanda, ao som do frevo composto pelo neto, a tropa ao lado de Maurício de Nassau. Eu tenho uma tremenda vontade de ter conhecido o “velho Luiz Grosso”, que é como o chama, carinhosamente, meu mano Simas. Mas conhecendo e convivendo com o bardo tijucano, tenho certeza, conheço e convivo com o cabra egresso de Jaboatão dos Guararapes. Pra bom entendedor, meia palavra basta;

* depois de consultar os mais-velhos vivos, decidi aceitar o convite que me foi feito pela organização do festival Comida di Buteco, que será realizado no mês que vem aqui no Rio de Janeiro. Em 2006 estive em Belo Horizonte para conhecê-lo de perto. Transcrevi os relatos dos dias passados na aprazível capital mineira aqui, aqui e aqui, depois falei bastante mal da idéia quando foi trazida para o Rio (e seguramente os organizadores sabiam disso quando decidiram me convidar pro júri oficial) e agora embarcarei na onda. Na medida do possível, respeitando os limites naturais que enfrenta aquele que topa participar da coisa, contarei tudo a vocês, meus poucos mas fiéis leitores. Haverá hoje, às 19h, no Hotel Marina, no Leblon, um coquetel e uma palestra, dada pelos organizadores do evento para todos os jurados do festival. Amanhã mesmo – aguardem – lhes conto tudo. A única coisa que sei, até o momento, é que o Moacyr Luz será meu colega de júri;

* falei em Moacyr Luz e quero lhes contar um troço. Dia desses, em seu blog, o Moacyr contou sobre a gravação do disco Mandingueiro, no texto Pra que pedir perdão?, leiam aqui. Não havia qualquer razão que justificasse ele ter contado o que agora lhes conto, mas quero fazê-lo, eu mesmo. Corria o ano de 1998. Eu e Moacyr muito próximos, antes de eventos que, digamos, nos afastaram. Dias antes do início da gravação do CD o Moacyr me bateu o telefone. Bateu-me o telefone e me convidou, o que tomei como um tremendo presente, para ser a voz-guia durante a gravação. Entregou-me uma fita-cassete, em voz e violão apenas, e um caderno com as letras das músicas que seriam gravadas. Em resumo: Moacyr Luz no violão, Pedro Amorim no cavaquinho, bandolim e violão tenor, Carlinhos Sete Cordas no violão de sete, Beto Cazes no pandeiro, tamborim e ganzá, Ovídio Brito no pandeiro, cuíca e tamborim, Marcelinho Moreira no tan-tan, repique de mão e tamborim, Gordinho no surdo e esse que vos escreve cantando, ao vivíssimo, as 12 faixas do CD.

Até.

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5 Comentários

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5 Respostas para “DO DOSADOR

  1. >Gordinho é, Edu!? Que privilégio, meu caro! Que honra!

  2. >Foi mesmo, Andreazza, um senhor privilégio que eu tomei, mais que como privilégio, como um presente do Moacyr, que bem sabia o quanto eu gostava (ainda gosto, é verdade…) de cantar samba. Nem mesmo o apelido que ganhei do Carlinhos 7 Cordas durante a gravação, que durou dois dias – DESGUIA!!!!! – me tirou a felicidade do momento. Um forte abraço!

  3. >Ah, meu mano, você e o velho Grosso iam pintar o diabo…Beijo comovido!

  4. >Você tem isso gravado, querido?

  5. Pingback: COMIDA DI BUTECO – CONSIDERAÇÕES FINAIS | BUTECO DO EDU

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