CAFÉ E BAR ESTUDANTIL

Vivemos, no sábado, eu e Luiz Antonio Simas, no finalzinho da tarde, momentos que renderam a idéia que me empurra pra frente do monitor nesse começo de segunda-feira. Eu poderia dar ao texto o nome Cenas Tijucanas, o que se tornou rotina aqui no Buteco. Mas preferi o registro do nome do buteco que foi palco de tais momentos, os quais passo a expôr, com tijucaníssimo orgulho, a todos vocês.

Eu havia acabado de chegar do Rampinha (leiam aqui sobre o portentoso restaurante da Praça da Bandeira) e fui convocado pelo Simas para assistirmos juntos à partida entre o Flamengo e o Avaí.

Escolhemos, juntos, o Estudantil.

O Estudantil é um tremendo pé-sujo (já escrevi sobre ele aqui, contando sobre uma visita do Felipinho Cereal e do Favela ao buteco) que fica na Haddock Lobo, entre a Alberto de Sequeira e a Almirante Gavião. Mínimo, sem mesas dentro, recebe sua clientela fidélissima no balcão e nas mesas que se espalham pela calçada em frente, sob a copa de frondosas árvores que embelezam a Tijuca.

Um detalhe curiosíssimo é o seguinte: o Estudantil funciona com a trilha sonora que sai de um rádio National da década de 70, um dos orgulhos do dono, sempre sintonizada na AM. E tem uma TV de 21 polegadas, velhíssima, ligada apenas para o futebol, com uma imagem tão nítida quanto a voz dos bebuns do lugar depois de um dia de intensos trabalhos.

Pensando em ampliar o negócio e atingir outro nicho do mercado (é o que conta a piada que corre por ali), o dono adquiriu a loja ao lado, onde funcionava uma farmácia. Manteve o piso, as paredes, a iluminação feérica, espalhou mesas de madeira pelo salão, pôs porta-guardanapos elegantes sobre as mesas, cadeiras também de madeira fazendo composé, e comprou uma TV de LCD gigantesca para o mesmíssimo futebol que escorre pela tela da TV velha do buteco original.

Resultado: uma horda de homens se espreme no balcão minúsculo do velho Estudantil e ninguém – nem uma alma, sequer – pisa no novo salão ao lado.

O cara já tentou de tudo: oferece cerveja a preço menor, amendoins de tira-gosto como cortesia da casa, e nada. Um médium vidente daria a sentença: legiões de espíritos lotam o velho buteco e uma aridez impressionante transforma a ex-farmácia numa aléia vazia, triste, silenciosa e sem-ninguém.

Pois bem, vamos à tarde de sábado.

Corria o jogo quando entra um casal à caráter: ele de smoking e ela de longo azul-marinho. O sujeito pede um limãozinho da casa e ela compra três maços de cigarro que estufam a bolsinha de mão que ela carrega sem muito jeito. Pagam e seguem à nossa esquerda, que estávamos de frente para a comovente espelunca. O Simas deu certeza:

– Casamento no Capuchinhos!

Mais quinze minutos e uma senhora gordíssima, com um vestido verde-brilhante mais assemelhado a uma dessas cortinas antigas de casa-de-vó, entra tropeçando no buteco e pede uma batida de mel. Arrota e atravessa a rua gritando pro marido, na esquina:

– Bora, homem! Vamos logo pra mim pegar uma mesa perto da cozinha!

Entraram na AABB, do outro lado da rua.

O Simas:

– A recepção será na AABB… imagine o bufê, imagine o bufê!

Pode soar como sacanagem, mas menos de cinco minutos depois chega ao balcão um casal de anões. Ele embrulhado num fraque e ela com um vestido branco com bolinhas vermelhas, de mãos dadas. Diz o cara, sem conseguir alcançar o balcão, pra um habituè que assistia ao jogo de pé:

– Ô, chefia, pede uma dose de Cynar pra mim, fazendo o favor!

O anãozinho ainda virava o copo num único golpe quando chega um outro casal: ele de terno bege e ela…

O Simas, dando socos na mesa de tanto que ria:

– Edu! Edu! Um travesti! Assim é demais! Liga pro Felipinho que ele não vai acreditar se nós contarmos!

A assistência assobiava diante da presença daquele mulato, 1m80, com uma peruca feíssima, mal-equilibrado no salto-plataforma das sandálias de prata que reluziam na calçada da Haddock Lobo.

Entra um crioulo de calça jeans e paletó branco. Pede uma costelinha que dormia no balcão desde cedo. Comenta, durante o intervalo do jogo:

– Tá feia a coisa no bufê… só tem canapé, pô!

Aos 30 do segundo tempo, o inusitado: chegam os noivos, o cara sem conseguir andar, apoiando-se no véu da companheira. Grita:

– Uma rodada de Brahma pra todo mundo!

A assistência vai á loucura.

Descobrimos, em coisa de cinco minutos, que o negrão de calça jeans é o sogro do cara. Descobrimos, mais, que os anões foram o pajem e a dama-de-honra do casamento, ela a manicure da mãe da noiva há mais de 40 anos, que o travesti é cunhado do noivo e que a lua de mel seria passada em Niterói, depois da noite de núpcias na suíte real do Bariloche (excepcional site aqui).

Fim de jogo e o Estudantil em festa recebendo os convidados do casamento decepcionadíssimos com a recepção na AABB.

Coisas, meus poucos mas fiéis leitores, que só na Tijuca.

Até.

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9 Comentários

Arquivado em botequim, Tijuca

9 Respostas para “CAFÉ E BAR ESTUDANTIL

  1. >Sensacional, rindo mt aqui. Coisas da Tijuca.

  2. >Sensacional! Preciso do início ao fim. De vez em quando rola até uma vitrola na calçada, acompanhada, claro, do velho e bom churrasquinho…Agora, anões como pajem e dama-de-honra é genial!! Edu, tô às gargalhadas!

  3. >Uma história dignamente antológica.

  4. >Relato perfeito. Eu confesso que da maluquice toda [e eu nunca vi algo tão impressionante acontecer num boteco ] causou-me absoluto espanto o casal de anões. Quando o traveco entrou, eu já estava numa fase de acreditar em tudo e não me surpreendi. Noite memorável.

  5. >É tanta bizarrice junto que nem Almodóvar seria capaz de reproduzir algo semelhante. Posso dizer que do lado de cá, ri um bocado imaginando as cenas… Memorável mesmo!

  6. >Edu, você conseguiu arrancar de mim gargalhadas mesmo tarde da noite, após uma segunda exaustiva!

  7. >Fiquei emocionado com as escolhas do casal. Capuchinhos, AABB, Anões, Traveco, Bariloche, Niterói e Rodada de Brahma no Estudantil.Um casamento Perfeito!

  8. >Meu Deus !! Rolei de rir, e sei bem que entrar no buteco com roupa de casamento para esperar a noiva chegar é muito bom!!!!!Show de bola Edu.

  9. >Sensacional ! Ah, que saudade do sol escaldante das 2 da tarde da zona norte…

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