ACONCHEGO CARIOCA

Estive ontem, depois de um bom tempo, no ACONCHEGO CARIOCA, buteco da melhor qualidade na Tijuca, mais precisamente na Praça da Bandeira, comandado pela Kátia e pela Rosa, na companhia de meu irmão querido, de há décadas, Marcelo Vidal, a Lenda, cuja fotografia está imediatamente abaixo, onde estávamos nós, os membros da então ativíssima S.E.M.P.R.E. (Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos).

Marcelo Vidal (a Lenda), Flávio Savietto (o Xerife), Dalton Cunha, Eduardo Goldenberg, Leonardo Silva (o Zé Colméia) e Fernando Goldenberg, no ACONCHEGO CARIOCA, na Tijuca, em 23 de julho de 2005

Ocorre que no dia dos meus 40 anos, que caiu numa segunda-feira, ligou-me o mais gabaritado dentista do mundo, o homem que me fez de cobaia durante o curso de odontologia, me convocando para uma única cerveja, no trajeto da casa de papai e mamãe, com quem jantei naquela noite.

E aquela única e escassa garrafa de Brahma que derrubei com meu irmão, aquela solitária e representativa garrafa de cerveja que bebemos no BAR DO ESCORREGA, na Tijuca, na rua Otávio Kely, deu-me uma aguda e pungente saudade do Vidal. Explico.

Beber significa quase sempre uma mesa com os amigos, onde a conversa flui com a mesma velocidade com que descem os líquidos que nos fazem homens mais felizes. E há sempre dois, três, quatro, dez amigos em torno da mesa, há sempre a ritualística e pagã santa ceia de homens comuns, mas não há – eis o que eu queria lhes dizer – a possibilidade da conversa a dois, do derramamento de confissões, do olho no olho e da conversa quase-sempre adiada por conta da quantidade de pessoas dividindo torresmo, moela, o limão da casa e os engradados que vão sendo empilhados na calçada do buteco.

Vai daí que marcamos ontem à noite, eu e ele, uma conversa que não tínhamos há – o quê? – muitos anos.

Estava eu em Copacabana e o caboclo, por uma dessas coincidências que dão graça ao dia-a-dia, também. Tentamos o BIP-BIP, tentamos o PAVÃO AZUL, tudo lotado, tudo cheio, tudo contrário ao que queríamos, e ele disse:

– Vamos ao Aconchego?!

Fomos.

Minhas últimas tentativas de ir ao ACONCHEGO CARIOCA esbarraram nas intermináveis filas formadas por gente que quer pisar e cheirar o mesmo chão que Claude Troisgros. Explico, uma vez mais.

Claude Troisgros foi levado por uma amiga ao ACONCHEGO. Lá, o francês encantou-se com as mágicas que saem das mãos da Kátia, o bolinho de feijoada, o bolinho de feijão branco com rabada, uns troços que realmente são de endoidar.

Foi daí que um dia o mestre cozinheiro disse a um jornalista o quanto gostava do ACONCHEGO. A notícia foi parar nos jornais. E uma multidão formada por gente que jamais atravessou o Rebouças, gente que só conhecia a Praça da Bandeira pela fama das enchentes, passou a ir atrás da dica do chef entulhando as calçadas da Barão de Iguatemi, tornando quase impossível conseguir uma mesa naquele apertadíssimo salão onde se servem cervejas espetaculares e uma comida fabulosa, tudo a um preço honestíssimo.

Ontem demos sorte.

Uma única mesa nos esperava.

E vivemos ali, naquele canto escondido da Tijuca, uma noite memorável, até o comecinho dessa sexta-feira, 15 de maio, quando puder matar a saudade do velho Vidal de guerra, a quem homenageio erguendo o copo imaginário atrás do balcão do BUTECO.

Coroando a noite, um telefonema dado pelo meu mano Bruno Ribeiro às 23h51min, com uma pergunta:

– Ainda bebendo, querido?

Não entendi o “ainda”, não nos falamos durante o dia.

– Por que ainda, querido?! – eu disse.

De Campinas, com a voz mareada, o Bruno riu, trocamos meia-dúzia de palavras, a noite ganhou ainda mais cores de impressionantes mistérios e partimos, os dois, felizes, pra casa.

Até.

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3 Comentários

Arquivado em gente

3 Respostas para “ACONCHEGO CARIOCA

  1. >Pavão Azul, que saudades das pataniscas! Agora o bolinho de feijão branco com rabada me apeteceu. Na próxima ida ao Rio, tentarei o Aconchego.

  2. >.o tempo é inexorável……..

  3. >A historia do Aconchego é a mesma da mureta da Urca, da roda da Ouvidor e tenho observado agora na rua do Mercado, ia lá nas quintas feiras , mas também tá virando point, gosto de movimento , mas não tenho mais idade nem saco pra ter que enfrentar fila para bater papo com os amigos e tomar uma cerveja, um ato descompromissado que acaba se tornando chato. Concordo com o Simas , no meu caso bebo aqui ao lado, no bar do Wilson que tem o melhor Guandu com Carne Seca que já comi, tem forno a lenha e eu posso levar comida de casa. Abçs

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