>FAZER REGISTROS

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Tenho feito, com alguma frequência (para assombro coletivo, eu que vivia dizendo “jamais deixarei de usar o trema”, abandonei de vez os dois pingos sobre o “u”), referências à beleza que é o homem que se integra com o meio em que vive. Dessa integração, dessa interação, nasce, consequentemente (escrevi consequentemente só para confirmar que jamais voltarei a usar o trema), um homem novo, renovado, mais disposto, melhor. Explico.

O homem, para integrar-se a seu meio, para interagir com os homens que vivem à sua volta, precisa necessariamente estender e alongar o próprio olhar. Estendendo o próprio olhar à sua volta, descobrirá gente que jamais conheceria se dominado pela pressa e pela correria dos dias de hoje, pelo egoísmo, pelo centrismo exacerbado, pela falta de disposição de interagir.

Descobrindo essa gente, diversa, diferente, variada, com outros valores, com outra cultura, com outra bagagem, o homem passará a se sentir, isso é de uma clareza aguda, efetivamente um homem melhor, mais capaz de compreender o mundo em que vive e infinitamente mais capacitado para se conhecer melhor e, evidentemente, para viver melhor.

E isso porque o resultado da vivência com a diversidade é, sempre, o aumento da massa crítica do homem. Ele passa a saber com mais clareza porque gosta disso ou daquilo, passa a saber com mais fundamento porque não gosta disso ou daquilo, e aprende, mais, a não criticar ou menosprezar o que não gosta porque passa a entender, sem dor (!!!!!), que cada homem é um diverso capaz de alcançar diferentes níveis de entendimento e com capacidade para ser feliz através de outras vias, através de outros meios e com objetivos, também, diferentes.

Estou nesse aparente rodamoinho para lhes dizer que uma das formas mais divertidas e mais bacanas de fazer essa interação, essa integração e esse estender de olhos, é fazer registros. Para fazer registros há que se ter disposição para ver, para ouvir, para ler, para estudar, para pesquisar e para, depois, dividir com os outros o resultado desse trabalho (sim, é um trabalho).

E somos capazes, todos, de fazer registros, ainda que sem grandes pretensões (acadêmicas ou não).

Eu, por exemplo, humílimo, quando me propus, junto com Felipinho Cereal (e mais papai e mais Luiz Antonio Simas), a fazer um relato mais acurado sobre a rua do Matoso, descobri coisas incríveis, conheci gente interessantíssima e levei (sem que essa fosse minha precípua intenção) emoção e alegria pra muita gente (ler o texto O EMAIL DA OLGA, aqui, dará bem a dimensão do que lhes falo).

O Felipinho Cereal também faz seus registros e a leitura de seu BOEMIA E NOSTALGIA (aqui) é obrigatória por isso. Eu, por exemplo, em diversas ocasiões, tenho uma olímpica certeza: não fosse o Felipinho Cereal e eu jamais conheceria uma porção de coisas bacanas que ele descobre, que ele registra e que ele divide, generosamente, com toda a gente.

Luiz Antonio Simas é outro. Quando dá de dividir conosco seus tesouros guardados com carinho (como esse aqui, samba-enredo do Império Serrano em 1989 gravado ao vivo!) nos comove, nos emociona, o que dá a ele dimensão ainda maior. Trata-se de um professor de História, maiúsculo, que dá aula durante as 24 horas do dia. Um homem de bem, portanto. Dos imprescindíveis. Recomendo, vivamente, a leitura de seu texto PEQUENA CONFISSÃO NO DIA DOS PROFESSORES, que pode ser lido aqui. Dará a vocês a idéia do que é viver com a sensação do dever cumprido e com a consciência plena de que temos, sempre, todos nós, muito a fazer.

Outro que também tem sido um monstro no que diz respeito a registros, a memórias, a efetivo resgate nesse país sem cultura de preservação de seus tesouros, é Arthur Tirone, o Favela, que comanda o ANHANGÜERA (com crase, leiam aqui). O que esse caboclo tem feito pela história do futebol de várzea, pela história da Barra Funda, pela história da gente daquele pedaço de São Paulo, não está no gibi, como diria minha saudosa bisavó. Um de seus últimos textos, GABRIEL DE MEDEIROS (que pode ser lido aqui) é emocionante demais. Tem todos os ingredientes capazes de comover a gente: tem imagem de documentos de mais de 70 anos, tem história, tem registro, tem pesquisa (o que ele e o irmão têm feito ainda vai dar samba, anotem!).

Todos esses três (e há mais, há muito mais, há infinitamente mais gente fazendo isso!) são agentes capazes de transformar a gente (aos críticos de plantão, foi de propósito) com a simples publicação de um texto.

Basta termos, sempre a postos, olhos de ver.

Até.

4 Comentários

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4 Respostas para “>FAZER REGISTROS

  1. >E você meu amigo Edu, sempre nos passando, com suas belas e precisas linhas, a verdade em forma de sentimento, na luta de preservar o que é nosso. Estamos unidos nisso, e logrando. Acabo de voltar de São Paulo onde passei momentos maravilhosos com os irmãos Favela e Szegeri, e nesta segunda já farei alguns registros deste momento maravilhoso no Boemia.Beijo.

  2. >Belo texto, Edu. Abraços.

  3. >É Edu, Como diz a “frase da semana” que rola na internet:”NUNCA MAIS TREMA EM CIMA DA LINGUIÇA”Brincadeiras a parte, belo texto e belo trabalho que você vem fazendo a alguns anos.Através de você conheci tambem os “registros” do Simas, do Bruno e do Felipe, e que sempre acompanho.Um grande abraço.

  4. >Valeu, Edu. Continuaremos correndo atrás da nossa História. Pouquíssimos documentos, raros, já tenho em meu poder (e olha que parace ser bastante coisa!) e muitos, aos montes, enterrados por aí, pra gente descobrir.Beijão, mano!

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