SAN REMO NA MATOSO

Dia desses, convocados pela fotógrafa Carla Vieira (veja seu portfolio aqui) para uma fotografia que irá ilustrar uma matéria sobre o comércio de rua da Tijuca na revista Conexão Rio, editada pela FECOMÉRCIO (parece que a matéria sai em janeiro de 2009), baixamos num final de tarde na Quitanda Abronhense, eu, Felipinho Cereal e Luiz Antonio Simas.

Recebidos com a galhardia de sempre pelo casal José e Conceição, à frente da Quitanda Abronhense há 41 anos, fomos acomodados pelo Elias (entregador da quitanda, revela-se, dia após dia, um graaaaande garçom!) em uma mesa no que ele chama de “canto mais sossegado”, diante de incontáveis prateleiras, no lado oposto ao do balcão.

Luiz Antonio Simas, Eduardo Goldenberg e Felipe Quintans na QUITANDA ABRONHENSE, 03 de dezembro de 2008, foto de Carla Vieira

 Feitas as fotografias pela Carla, dedicamo-nos a ficar ali, bebericando de leve umas garrafas de Brahma geladíssima, acompanhando o fabuloso e comovente movimento da rua do Matoso, com trabalhadores voltando pra casa, crianças chegando do colégio, moças indo e vindo, velhinhas indo fazer as compras de conveniência, até que a conversa – que incluía a qualidade da água Nazareth, engarrafada diretamente da fonte, no Lins de Vasconcelos (se o leitor Fraga Jr. ainda me der a honra da presença, peço que me confirme a existência da tal fonte), a supremacia da Batata Popular diante de outras marcas, muito mais famosas, a situação crítica em Santa Catarina, a fixação do Felipinho pela suntuosidade das suítes do Bariloche (conheçam aqui o hotel que deixa o Copacabana Palace e o Fasano no chinelo, e deixem o som ligado!) e a surpresa que foi a presença da Folha Seca na Primavera dos Livros (segundo testemunhas, só era primavera quando Daniela Duarte postava-se no stand, eis que Rodrigo Ferrari transformava aquilo num outono olímpico) – descambou pra música.

E lembro-me da razão.

A TV da quitanda estava ligada e Diana Krall estava cantando. Mais precisamente (e de forma brilhante) Under my skin, e eu danei de falar de Frank Sinatra, quase indo às lágrimas.

O Simas, cuja praia é – todos sabem – exclusivamente o samba, deu de estampar feições à própria face denotando ligeiro desagrado com o rumo da prosa.

Continuei na mesma trilha. Exaltei a qualidade do repertório do Frank Sinatra, rasguei elogios à Diana Krall, desviei de leve pro jazz e trouxe Clifford Brown à tona, e o Simas – já calibrado – passou a beber com mais sofreguidão (eis o termo que me parece perfeito).

Eu disse que o termo sofreguidão me parece perfeito porque eu tinha à minha frente, àquela altura, um homem sôfrego. Luiz Antonio Simas segurava a garrafa de Brahma pelo pescoço com a mão direira cerrada, o copo com a esquerda era enchido permanentemente e seus goles eram compulsivos, vigorosos, intensos e ininterruptos. Os olhos claros pareciam procurar algo à nossa volta, as têmporas intumescidas denunciavam algo que eu não percebia, a careca reluzia em razão das gotículas de suor que brotavam dos poros do alto da cabeça.

De Clifford Brown voltei ao Frank Sinatra e citei, depois de um proposital volteio, o nome de Roberto Carlos.

O Simas pediu licença e foi ao banheiro. Com o copo e a garrafa.

Voltou com os olhos marejados. Perguntou-me:

– Pô, Edu… Você gosta do Roberto Carlos?

– Claro!

– Muito?

– Muito.

Pois para minha surpresa, com o copo emborcado na boca, ele disse:

– Eu também – e disse isso com o copo, literalmente, na boca, e eu vi as bolhinhas na cerveja.

– Você?

Ele não me respondeu. Ficou de pé, respirou fundo, e mandou:

“E tu, tu mi dirai / Che sei felice come non sei stata mai / E a un’altra io dirò / Le cose che dicevo a te / Ma oggi devo dire che ti voglio bene / Per questo canto e canto te / La solitudine che tu mi hai regalato / Io la coltivo come um fiore”

Meus poucos mas fiéis leitores, quando o Simas terminou de cantar e se sentou, foi aplaudido por toda a assistência, incluindo o povo que esperava ônibus diante da quitanda. E deu de gritar:

– Roberto arrasou em San Remo! Grande Roberto!

Passei o início da noite ouvindo, embasbacado, Luiz Antonio Simas desfiando vasto repertório do Roberto Carlos, sem errar uma letra sequer – e atendendo a pedidos!

Eu cheguei a ver – juro! – a dona Conceição enxugando uma lágrima enquanto o Simas cantava, também emocionadíssimo, “quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo…”.

E o seu José, com as mãos trêmulas procurando as mãos da mulher, também com os olhos úmidos ao ouvir “amanhã de manhã, vou pedir o café pra nós dois…”.

O Felipinho chorou também. E disse, antes de se levantar já discando de seu celular (só o Felipinho disca de um celular):

– Vou pro Bariloche! Vou pro Bariloche!

Ah, os abronhenses corações (melhores, infinitamente melhores e mais bonitos que os belmontes…)…

Até.

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9 Comentários

Arquivado em botequim, Tijuca

9 Respostas para “SAN REMO NA MATOSO

  1. Se o Felipinho chorou, o Szegeri teria morrido do coração!

  2. Digão: fui preciso do início ao fim, querido. Fiquei surpreso, é verdade. Mas eis aí o relato fidelíssimo do que se passou. Beijo.Bruno: mas nós ligamos pro Szegeri! E ele – ele há de confirmar – ganiu de chorar ouvindo o Simas cantar LADY LAURA. Beijo.

  3. Não falem de Isolda, a Cega, perto dele, que dá briga

  4. Que Deus te conserve a visão perfeita, José Sergio. Aliás e a propósito… você está parecendo um cego fashion nessa foto… Um abraço.

  5. Prezado Edu, aqui no Lins eu não conheço nenhuma fonte de água mineral. Eu sei que no bairro Água Santa (que é bem próximo) havia uma engarrafadora de água mineral que era bem perto do atual pedágio da Linha Amarela. Irei pesquisar. Saudações!

  6. Diante do peso dos fatos, faço apenas uma observação, em nome da veracidade do relato: Não cantei Lady Laura para o SZEGERI. Interpretei, na verdade, O Caminhoneiro – em três idiomas.

  7. Fraga Jr.: obrigado por ter atendido a meu chamado. Vou ver se amanhã passo por lá e pego, no rótulo (um dos mais feios do mundo), o endereço da fonte (faço uma idéia do que seja a fonte, coisa de deixar a de Trevi nas chinelas). Segundo eu soube pesquisando no Google – vou checar a veracidade quando sobrar um tempo – a água já foi analisada pelo Noel Nütels. Encontraram caco de vidro e cocô em 3 das 4 amostras postas à prova. Lindo, não? Um abraço. Simas: você estava bêbado e não lembra. CAMINHONEIRO você cantou pros entregadores dos garrafões de água e pro motorista do caminhão do frete, quando eles se chegaram a nós pra beber um copo de cerveja. Não lembra, pô?! Pro Szegeri você cantou, de fato, LADY LAURA. Beijo.

  8. Se eu estivesse presente, e ele cantasse OUTRA VEZ (Isolda?), possivelmente não daria conta de segurar as lágrimas. E olha que eu nem sou mulher de choro fácil… Mas o Rei é FODA! E a cena, descrita por você, deve ter sido ótima mesmo! Quanto a foto, parece até que fazia frio na cidade maravilhosa…

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