RUA DO MATOSO – A SÉRIE – PARTE VIII

(leia NOVA REGRA PARA COMENTÁRIOS, aqui)

Começa hoje, com o oitavo e penúltimo capítulo da série RUA DO MATOSO, nosso terceiro e último passeio objetivando a prospecção de uma das ruas mais cariocas da cidade, a rua do Matoso, que começa na praça da Bandeira e vai terminar na Barão de Itapagipe.

Encontramo-nos às 8h20min, na PADARIA MILU, uma vez mais, eu, Felipinho Cereal e meu pai (a essa altura, pai também do Felipinho). Café rápido, planos traçados, e tomamos a direção do ESCONDIDINHO DA MATOSO para a primeira cerveja do dia.

Seu Fernando nos recebeu efusivamente, bebemos uma Brahma apenas – mais-que-gelada! – e partimos em direção à QUITANDA ABRONHENSE.

A QUITANDA ABRONHENSE, comércio cada vez mais escasso na cidade, é uma delícia só. É, ao mesmo tempo, buteco (também serve uma cerveja geladíssima, uma honesta porção de salaminho, amendoim, esses troços mais simples), mercado de conveniência e quitanda no sentido mais estrito (frutas, legumes e verduras), e comandada, desde 1967 – 41 anos de vida!!!!! – pelo casal formado pelo seu José e pela dona Conceição – ambos portugueses, de Viseu.

Felipe Quintans (o Felipinho Cereal) e Isaac Goldenberg, QUITANDA ABRONHENSE, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg

Quando sentamos para beber, pedimos amendoim e ficamos ouvindo as histórias – todas ótimas – contadas pelo seu José.

Ele, aliás, é uma belíssima figura. Vale a visita, vale encostar o cotovelo no balcão, vale pedir uma bebida e puxar assunto. Na fotografia abaixo, vocês podem ver o seu José ao telefone, provavelmente atendendo a uma encomenda (que pode ser, por exemplo, da Olga, leitora do BUTECO e freguesa assídua do estabelecimento).

São assim os telefonemas (nós ouvimos um, nós ouvimos!):

– Bom dia! (…) Oh, como vai, freguesa? (…) Pois não… (…) Uma dúzia de ovos… Mais?! (…) Sardinhas no óleo… Mais?! (…) Azeite de oliva… Mais?!… E por aí vai.

Seu Zé ao telefone, na QUITANDA ABRONHENSE, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Felipe Quintans

A QUITANDA ABRONHENSE fica na rua do Matoso 178 e atende no telefone 2293-6945. O atendimento é, como não poderia deixar de ser, personalíssimo.

E vocês acham que o seu José faz fiado? Faz. Para fregueses de fé, faz.

E ele controla como as penduras? Laptop, computador, num caderno simples? Não. Ele mantém, sobre o balcão, uma prancheta devidamente serrada, na qual ficam presas centenas de folhas de papel (a maioria de embalagens de cigarro, notem a marca FREE no papelucho de cima) com os nomes dos fregueses, suas compras discriminadas, as datas e os valores.

– Você não se perde, não, seu José?

– Que nada! São mais de 40 anos fazendo assim!

QUITANDA ABRONHENSE, rua do Matoso, Tijuca, foto de Felipe Quintans

Bebemos três garrafas de Brahma (a R$ 3,00 cada uma), deixei a conta pendurada (pra tirar uma marra com papai e com Felipinho!) e partimos em frente.

Na rua do Matoso 186, a TINTURARIA MASCOTE, em frente ao EDIFÍCIO MADRID (foto abaixo), sob o qual ficavam o DIVINO e o CINE MADRID, marcos de uma época áurea que ainda está viva, vivíssima, na memória de quem freqüentou o pedaço tempos atrás.

Papai, por exemplo.

Flagramos o velho Isaac estacado na calçada, diante do edifício, com os olhos cheios d´água.

Eu perguntei:

– Chorando, pai?

Ele não me respondeu, mas assoou o nariz (papai tem um senhor nariz!) à larga e fez um sinal:

– Vamos à tinturaria!

fachada do EDIFÍCIO MADRID, na rua do Matoso 207, na Tijuca

Entramos na TINTURARIA MASCOTE, trabalhando a pleno vapor na manhã do sábado (passava pouco das 10h da manhã!).

Quem nos atendeu foi o manda-chuva do pedaço, o seu Antônio.

Papai, ainda disfarçando o fato de ter chorado:

– Desde quando aqui, seu Antônio?

– Desde 1967…

Vão tomando nota! 41 anos de atividade!

Papai, efusivo:

– 41?

E ele, modéstissimo:

– Não tão velho quanto a Casa Elizabeth, desde 1958 na rua…

Seu Antônio, TINTURARIA MASCOTE, rua do Matoso, na Tijuca

Seu Antônio e o filho*Antônio também – foram simpaticíssimos.

Franquearam a tinturaria para que fizéssemos fotografias e se deixaram filmar.

Abaixo, um hilariante filme no qual aparecem os dois (entrevistados, digamos assim, por mim, pelo Felipinho e pelo meu pai) discutindo sobre os famosos da rua do Matoso: Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Wanderléia e – graças à intervenção de meu pai (vocês vão ver!) – Jorge Benjor! E percebam, ainda, que o seu Antônio, no princípio do filme, pensa estar sendo fotografado – razão pela qual ele não se move!

Amanhã tem mais.

Até.

* graças à intervenção, por email, feita pela Olga, assídua leitora do BUTECO, ficamos sabendo que o Antônio (o Tuninho) não é filho do seu Antônio. Eles são sócios. Vieram juntos de Portugal, em 1964. O Tuninho com 18 anos e o sr. Antônio com alguns bons anos a mais. Chegaram, se estabeleceram, abriram a sociedade e depois trouxeram o restante da família. São quatro irmãos, Tuninho, Manuel (que agora cuida da IRMÃOS CORAGEM, outra tinturaria da família), Rosa, e o caçula, o Augustinho (hoje em Natal com outro negócio). Todos sócios, os irmãos e o seu Antônio. Assim fecha, o email, a Olga, a quem agradeço publicamente pela atenção e pelo carinho: “Uma raridade em plena rua do Matoso. Sócios que se respeitam e se amam, apesar dos longos anos de convivência. Que brigam muito durante a semana, mas que no domingo resolvem as diferenças com um bom café, pra quem é de café, ou com uma boa gelada, pra quem é de cevada.”

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25 Comentários

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25 Respostas para “RUA DO MATOSO – A SÉRIE – PARTE VIII

  1. >O Erasmo Braga morando no Largo da Segunda Feira é que foi foda. Pelo menos fiz a correção depois. Talvez tenha soltado essa por conta das geladas bebidas antes de entrar na lavanderia. Meu Deus!Temos que voltar na Abronhense.Beijo.

  2. >Eu também tenho conta na Quitanda do seu Zé!

  3. >Felipinho: deixa de onda! O tropeço nada tem a ver com a bebida, você estava era emocionadíssimo diante daquela máquina de lavar secular, daquela quantidade de roupas penduradas no teto, diante do seu Antônio discutindo com o filho a respeito do local onde morou o Tim Maia! E você notou, na foto do bloco do seu José, na QUITANDA ABRONHENSE (ponha ela de cabeça pra baixo!), que a primeira conta é do número 195, nono andar? Notou? Beijo, mano.Fábio: é só pra quem é da área mesmo… Abraço.

  4. >Caceta! É verdade! Que freguesa!

  5. >Edu, eu vinha me preparando pra essa parte da Matoso, essa que, como já disse anteriormente, me é cara. Caramba! Que emoção ler e ver essas imagens tão próximas a mim.No Zé, só compro à vista. Ele é muito ruim de jogo! (rs) Brincadeira à parte, ele é um comerciante maravilhoso, descrito por você com precisão (ele chama todo mundo por freguesa, nunca me chamou pelo nome, nunca!). Ele tem 2 funcionários maravilhosos. Sendo o Chico o meu querido. Quanto à Tinturaria Mascote, não conheço família mais unida e trabalhadora. Você notou a organização das roupas penduradas? E a limpeza? A Mascote é um primor em lavagem de couro. A família tem outra tinturaria, Irmãos Coragem, na Henry Ford. Minha irmã foi morar ali perto e se bandeou pra lá.Quanto aos famosos, você não pode deixar de registrar que o grande e extraordinário, Zico, morou na Matoso, 175, nos anos 1980. Foi uma festa. Por pouco tempo, mas morou. Que honra, não?Posso imprimir e mostrar pra eles, ou você vai mostrar?Uma maravilha, Edu, uma beleza!

  6. >Olga: faço absoluta questão que você imprima e mostre a todos eles. Ou melhor: leve seu laptop até o balcão de cada um deles e mostre inclusive o filminho.Pertinentes seus acréscimos, Olga. Isso é que é uma vizinha (de frente!) orgulhosa.Não sabia da segunda tinturaria da famíila como também não sabia do Zico (como não?!?!?!?!?!?!).Se você quiser contribuir com fotografias da Matoso para uma esticada na série, fique à vontade. Mande-me por email.Beijo.

  7. >Edu, e eu por acaso tenho laptop? Vou imprimir e mostrar pra eles tá? O filminho é com você.E eu, Edu, sou uma vizinha (de fundos!), seus informantes erraram. Se bem que pra ser precisa, uma janela fica na lateral e pega um pedacinho da rua. (rs)Você deve imaginar o motivo do Zé não ter falado da passagem do Zico pela rua, pois não?Não tenho fotos significantes da rua, uma pena, pois adoraria contribuir.

  8. >Edu, olha eu aqui novamente. Parece estória para boi dormir ou papo furado, mais um dia quero dar um pulo até ai na querida e saudosa Tijuca, para conferir essas belezas contadas por aqui no Buteco. Não tardará para que isso aconteça. Já achei até um alberg situado na Tijuca. Deixa a grana aparecer e o tempo ajudar para que eu pinte por ai. AbraçoRODRIGO MEDINA – SP

  9. >Olga: os informantes – você os chamou assim… – não deram esses detalhes (de frente, de fundos). Ao dizer “de frente”, referi-me ao edifício.Imagino que o seu Zé tenha 904 motivos para ter omitido o nome do Zico, dentre eles o fato de ser Vasco da Gama. Certo?Beijo.Rodrigo: mas você já conhece a Tijuca? E o autógrafo do Szegeri? Emoldura ou não emoldura? Abraço.

  10. >Edu, eu não conheço o Rio de Janeiro. Para ser mais preciso eu fui apenas em Copacabana numa excursão que teve pra ai. Daquelas de farofeiro parceiro. Aquelas de levar frango com farofa – sentar num quiosque pedir uma cerveja pra acompanhar o rango. Mais sem dúvidas quero conhecer mais o Rio,a Tijuca , Vila Isabel e a Lapa. Referente ao autografo fiquei devendo. Mais tomarei algumas medidas sobre o assunto. Abraço

  11. >Rodrigo: é que você escreveu “saudosa Tijuca”, por isso fiquei com a impressão de que vocês já se conheciam.E como assim – me permita o abuso – ficou devendo? O homem da barba amazônica espera ansiosamente por isso… não é possível.MAS já que você tomará algumas medidas sobre o assunto, esperarei MAIS um pouco.Um abraço.

  12. >Edu, certíssimo, e eu tô rolando de rir com os 904 motivos e mais ainda com a sua enorme sutileza.

  13. >Rindo, Olga? Mas por que?! Mande-me um email, por favor, contando sobre a entrega do texto para o povo da Matoso, tá? Beijo.

  14. >Nos leitores estamos adorando a serie, mas voces sem duvida aproveitaram ainda mais…Beijos!

  15. >Erasmo Braga é aquele coroa cabeludo que canta rock´n´roll na porta do Fórum, Felipinho.

  16. >Betinha: assim que vocês voltarem – tome nota! – repetiremos trechos do passeio… Os melhores! Beijo.Zé Sergio: você sabe tudo, é incrível!

  17. >Eba, eba, eba!!!!!!!!!!!!!

  18. >Com Betinha e Flavinho , eu vou !!!

  19. >Nossa, Isaac! Que honra!Nao posso imaginar melhor presente que este. Obrigadissima.Beijo enorme com muita, muita saudade.

  20. >Betinha, olha… como diria meu saudoso e eterno governador Leonel de Moura Brizola… francamente! Que moral! Que moral!Contemos os dias, então.Faça uma idéia do que será esse nosso passeio à Matoso!Beijo em vocês.ps: papai é o maior, não?

  21. >Obrigado pela lembranca e pelo carinho, Isaac. A distancia so aumenta a saudade dos amigos e das cervejas geladas que bebemos (e beberemos!) juntos.Edu: Os textos da Rua do Matoso me ajudam a lembrar todo dia que o Rio de Janeiro eh a melhor cidade que existe, obrigado.

  22. >Valeu, Flavinho! O que é o Alain Ducasse perto da cozinha do Vicente? O que é a Central Park West perto da Matoso? A Columbus Avenue diante da Doutor Satamini e a Amsterdam Avenue se comparada à Haddock Lobo? O Museum of Natural History se posto ao lado do Museu do Índio? A Broadway perto da Praça Saens Peña? Pobres americanos…Voltem logo! Voltem logo!Beijo.

  23. >Edu, sem querer de forma alguma desprezar o encanto do Rio e da Tijuca, que sao realmente inigualaveis, o que faz este cantinho ser especial, voce sabe, sao os amigos.Beijos.

  24. >Edu,Compreendo a emoção do teu pai na porta do Edifício Madri. Eu cheguei a ver lá uns filmes do Walt Disney quando criança (acho que sou bem mais velho que você – ainda andei de bonde, que vinha da rua do Matoso, a gente pegava na Itapagipe perto da esquina da Japeri, a caminho da casa do meu avô, no trecho mais alto da Itapagipe). Mas o Divino faz muita falta… uma das melhores pizzas que já comi, ainda mais colorida com as cores da nostalgia. 🙂 Apesar de tudo de bom que a Tijuca tem, tivemos perdas duras. Ali em frente foi-se o Comodoro, bom cineminha que fazia dobradinha na programação com o Veneza… Mas triste mesmo é o que aconteceu com a Saens Peña. Minha mãe também ficava deprimidíssima ao passar ali na esquina da Conde de Bonfim com Major Ávila, ao ver o que foi feito do Carioca e do América. Não sei o que é pior, virar farmácia ou Igreja Universal…Abraço,Ken

  25. >ótimo blog! Quero seguir! Coloque o widget "seguidores" no blog! Sou tb vizinha mas não coleciono tantas histórias… bj

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