Arquivo do mês: setembro 2008

MESA FORTE

Um sábado com direito a fortes emoções e fortíssima chuva adiando o fim da noite.

Marcelo Vidal, Fernando Szegeri, Isaac Goldenberg, Felipe Quintans (o Felipinho Cereal) e Luiz Antonio Simas, QUITANDA ABRONHENSE, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 15h29min
Fernando Szegeri, Fernando Goldenberg e Isaac Goldenberg, QUITANDA ABRONHENSE, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 15h43min
Fernando Szegeri e Felipe Quintans (o Felipinho Cereal), ESCONDIDINHO DA MATOSO, Tijuca, 27 de setembro de 2008, 17h03min
Fernando Szegeri, Luiz Antonio Simas e José Sergio Rocha, BAR DO CHICO, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 20h36min
Fernando Szegeri e Luiz Antonio Simas, BAR DO CHICO, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 20h36min

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A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – IX

A família tijucana tem, com seu médico (que é, imprescindivelmente é, o médico da família), uma relação visceral, de dependência emocional até – eu diria. A minha, é claro, tijucana que é de forma aguda, tem o seu. E tem o seu, quero lhes dizer, desde os anos 40.

Estive em seu consultório esta semana. Eu disse em seu consultório, mas fui atendido por seu filho (também já o fui por seu neto!!!!!). O doutor Lauro é, até hoje (está vivo, vivíssimo, mas não clinica mais), uma espécie de mito da família. Seu consultório, portanto, que fica – creio ser desnecessário dizer – na Tijuca, é uma espécie de Meca para a qual se voltam, meus parentes todos, a cada febrinha, a cada tosse, a cada problema qualquer de saúde. Seu filho e seu neto atendem, evidentemente, no mesmíssimo consultório, que é humilde e simples como a morada de um franciscano. Vou lhes contar a origem do mito.

consultório médico, foto de Eduardo Goldenberg

Meus irmãos, o Fefê e o Cristiano, são testemunhas oculares e auditivas do que vou dizer. A história, que passo a lhes contar, nós já ouvimos milhares de vezes. E não, meus poucos mas fiéis leitores, eu não estou exagerando, como pretendem, sempre, os que têm mania de me denegrir, fazer parecer. Vovó Mathilde e mamãe – principalmente as duas, embora papai seja um dos mais fanáticos pelo doutor Lauro – repetem sempre essa história, com os olhos espetados pra fora, com as mãos em atrito como se o suspense fosse inédito, com a respiração ofegante, com a voz alterada, com o pranto semi-pronto esperando a comoção do ouvinte.

Antes, porém, um detalhe.

Quando, durante um almoço de família qualquer, alguém, por acaso (não há acaso, na verdade, o nome dele é SEMPRE lembrado) cita seu nome, vozes em côro repetem:

– Trata da Mariazinha desde que ela tinha três anos!

Pois bem: mamãe tinha três anos e ardia em febre na casa da Gonçalves Crespo. Vovó e vovô, minha bisavó e meu bisavô, a parentalha toda (moravam todos na mesma casa!), revezava-se na novena que ardia na sala (vovó não era, ainda, a espírita convicta que é hoje), passando os terços de mão em mão, na esperança de uma solução.

Havia um desfile de automóveis na porta de casa, dos quais saltavam médicos portando maletas, estetoscópios e termômetros – doutor Oscar, doutor Borborema (cujo nome revi, anos depois, num romance do Nelson Rodrigues), doutor Benevenuto, doutor Jacinto, e muitos mais.

Os diagnósticos eram díspares, os remédios não surtiam efeito, os dias se passavam com mamãe ardendo como um círio num catedral em ruínas (apud Vinícius de Moraes), até que minha tia Linda, irmã de vovó, que – católica apostólica romana de fazer o Santo Papa parecer um ateu relapso -, em transe mediúnico (ninguém desconfiava, naquela casa, àquela época, o que fosse isso), disse:

– Chamem um homeopata!

Houve uma vaia coletiva em acintoso desrespeito com o ambiente tenso que assaltava aquele lar em aflição. Meu bisavô, que era a palavra mais ouvida naquela casa, disse:

– E por quê não?

Todos concordaram, em segundos, e foi um corre-corre em busca do nome de um homeopata.

Foi tia Linda, ainda debruçada sobre a mesa da sala, com a voz embargada, que disse para surpresa de todos:

– Chamem o doutor Lauro.

E disse o número de um telefone.

– Linda enlouqueceu! – gritou tio Hique.

– Lelé, coitada! – emendou tio Sílvio.

– Estou muito mal parado… – lamentou tio Beneval, seu marido.

E meu bisavô:

– Chamem!

A questão é a seguinte: os diagnósticos eram – como eu lhes disse – díspares. Falou-se em sarampo, em coqueluche, em rubéola, em escarlatina, até em caxumba, diagnóstico dado por um médico ligeiramente alcoolizado chamado às pressas.

Meu bisavô foi ao telefone e, cercado pelos filhos (do mais velho para o mais novo, Francisco, Sílvio, Carlinda – já refeita do transe -, Mathilde e Carlos Henrique), bateu o telefone pro tal médico.

Em nome da precisão, devo lhes dizer que não estão na lista acima a Silvinha (morta com cinco dias de vida), a Mariazinha (morta aos 15 anos, de quem mamãe herdou o nome e o pânico por festas de debutante, um dia desses lhes conto sobre isso) e o Pedrinho, que chegou depois.

Eis o que a parentalha pôde ouvir:

– Boa noite, doutor Lauro. Precisamos urgente que o senhor nos faça uma visita domiciliar! Mariazinha, minha neta, está mais pra lá do que pra cá!

Houve uma balbúrdia à qual ele pôs termo com uma pisada vigorosa nas tábuas do piso.

– Não, doutor Lauro. Não sabemos. Há vários diagnósticos. Mas a menina não melhora. E a febre está na casa dos quarenta e um graus!

Novo princípio de tumulto e um grito ao telefone:

– Como graças a Deus, doutor Lauro?!

Vovó teve um princípio de desmaio, meu avô anunciou que mataria o tal médico à bala, e meu bisavô continuou:

– Tome nota! Tome nota!

E passou o endereço ao doutor Lauro.

– O quê te pareceu, Eugênio? – minha bisavó com o terço nas mãos.

– Diga, papai! Passou-lhe confiança?

Ele deu de ombros e sentou-se – todos se sentaram – à espera do doutor Lauro.

Uma hora depois, soa a campainha.

Meu bisavô faz um sinal e anuncia que vai sozinho ao portão. Dá de cara com um rapaz novo, bonito, até – vovó sempre elogia a beleza plástica daquele médico em sua primeira aparição – , formalmente vestido, uma pequena maleta numa das mãos e um sorriso sacrossanto no rosto plácido. Cumprimentaram-se e doutor Lauro foi levado à sala:

– Doutor Lauro? Esta é minha filha, Mathilde, e esse é meu genro, Milton, os pais da Mariazinha. Eles irão acompanhá-lo à câmara mortu…

Minha bisavó soltou um “oh” agudíssimo e meu bisavô, depois de um poderoso pigarro, consertou-se:

– … ao quarto, doutor Lauro. Boa sorte.

A família sempre usa essa imagem: nem na Copa de 50, depois do fiasco da Seleção Brasileira diante do Uruguai, viu-se tamanho silêncio, tamanha depressão, tamanha ansiedade pelo que viria. Os minutos se passavam e apenas a tosse de minha mãe interrompia o silêncio.

Uma hora depois saem do quarto meus avós e o doutor Lauro.

– E aí, doutor?! – um sôfrego Eugênio, de pé, perguntou – Como está minha neta?

– Graças a Deus está bem, senhor Eugênio. O que a Mariazinha tem é tifo.

Foi um deus-nos-acuda.

Médicos experientes haviam passado por ali, catedráticos, donos de laboratório, e ninguém dissera a palavra “tifo”.

– Tifo? – o côro de vozes.

– Ela vai ficar boa, senhor Eugênio!

– Já estou com os nomes dos remédios, papai! – disse vovó, esperançosa.

– Vamos? – disse meu avô.

Doutor Lauro se comprometera a ir até a casa do farmacêutico e de lá até à farmácia (tudo na Tijuca!!!!!) para o preparo dos medicamentos. Passava das dez da noite.

À meia-noite em ponto entra em casa meu avô trazendo os remédios homeopáticos, doutor Lauro a seu lado, e ele explica, com tranqüilidade comovente, à toda a família, o modus operandi do tratamento homeopático.

Vovó o acompanha até o portão:

– E quanto lhe devemos, doutor Lauro? Oh, estou tão grata…

– Nada, dona Mathilde. Fiquem com Deus… – e estendeu para minha avó, tirando-o da pasta, um exemplar do Livro dos Espíritos.

A família passou a noite se revezando na administração das duas bolinhas, alternadas, de quinze em quinze minutos, e já pela manhã minha mãe, suando em bicas, não tem mais febre.

Em questão de dias, depois de desenganada, mamãe estava boa, sarada, serelepíssima.

E vovó, para sempre, fanática pela devoção, pela dedicação, pela competência e pela grandeza do doutor Lauro.

Começou assim, meus poucos mas fiéis leitores, a história que une minha família a esse grande médico (fiz brevíssima e discretíssima menção a ele, aqui).

Há mais, muito mais para lhes contar sobre o assunto. Aguardem.

Até.

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>27 DE SETEMBRO

>

Hoje, 27 de setembro, quero relembrar o dia 09 de dezembro de 2006.

Salve a criançada!

Leiam aqui.

Até.

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A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – VIII

Quando escrevi A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – II (leiam aqui), fiz o convite público e convoquei, uma vez mais (já o havia feito antes), minha queridíssima cunhada, a Lina, para conhecer o FIORINO, restaurante italiano na Heitor Beltrão, na Tijuca – meu preferido dentre todos os restaurantes italianos. Como eu costumo dizer, não me venham com GERO, com CIPRIANI, com LOCANDA DELLA MIMOSA, com QUADRIFOGLIO, não dá nem pra saída. Como a Lina nunca conseguiu conter as gargalhadas de hiena ao me ouvir exaltar as qualidades do humílimo tijucano às margens do rio Trapicheiros, decidi convidá-la a fim de que ela mesmo pudesse tirar suas conclusões. Depois de muitas tentativas frustradas, fomos ontem, quinta-feira, eu e Fefê, acompanhados de nossas mais-amadas, jantar no magnífico FIORINO. E o relato do jantar entra para a série TIJUCA EM ESTADO BRUTO por razões óbvias que ficarão claras ao longo do texto. Vamos ao início.

Marcamos o encontro para às nove da noite. Oito e meia eu convoquei minha menina:

– Vamos indo?! Não é de bom tom chegarmos depois deles, né? Afinal, convidamos e vamos pagar tudo!

– Vamos… Mas você vai assim, de terno? Não vai trocar de roupa?

– Não! Não! Vou de terno! A noite é de gala e a Lina, você sabe, né?, elegante, formalíssima, melhor assim!

– É mesmo, é mesmo! Melhor assim!

Partimos. Nosso automóvel, garboso, deslizou pela Haddock Lobo, dobrou à esquerda na São Vicente, novamente à esquerda na Doutor Satamini, à direita na Campos Sales, à esquerda na Mariz e Barros, à esquerda na São Francisco Xavier e quando estávamos quase chegando, faltando dez pras nove, estrilou o telefone. O nome de meu irmão e sua fotografia piscavam na telinha do celular. Dani atendeu no viva-voz:

– Oi, quelido!

– Oi, quelida!

(pequena pausa: eles falam entre si, sabe-se lá por qual razão, como o Cebolinha, do Maurício de Souza, trocando os “érres” pelos “éles”)

Continuou, o Fefê – tinha voz de enfado, meu irmão:

– A Lina quer saber se está de pé o jantar.

Minha menina me olhou, estranhando:

– Está, Fefê! Por quê? Vocês não vão?

– Já chegamos. Ela só queria confirmar se vai ser aqui mesmo.

Ouvíamos a Lina falando algo, ao fundo, que nos escapava.

– Estamos chegando! – e desligou.

Eu, fino, disse:

– Já era. A Lina detestou.

Minha menina, categórica e implacável:

– Não disse?

Paramos diante do FIORINO. Entreguei as chaves a um dos guardadores – o FIORINO tem vários guardadores que não cobram rigorosamente nada, ao contrário de todos os restaurantes da zona sul da cidade que obrigam o cidadão a pagar uma fortuna pelos insuportáveis serviços de valet park! -, ajeitei o paletó – “Tá direito, Dani?” -, dei o braço para minha garota e entrei triunfante.

Não encontrei Fefê e Lina, numa primeira passada de olhos. O maître:

– O senhor procura pelo Sr. e Sra. Goldenberg?

– Arrã.

– Estão ali! – apontou – Naquela mesa, senhor, atrás daquela planta!

Fomos à mesa. Cumprimentamo-nos, houve uma festa de “obas”, “olás” e tapinhas nas costas, e eu disse:

– Por que essa mesa, Fê?

Ele, de soslaio para a Lina:

– Ela prefere não ser vista.

Dani, ao meu ouvido:

– Relaxa, amor. Ela já detestou, vamos aproveitar a noite.

Vamos à brevíssima descrição.

Fefê e Lina, no que diz respeito à roupa, nos humilhavam de maneira acintosa. Meu terno – e eu crente que estava abafando – era ofuscado pela elegância opulenta de meu irmão (um ex-adepto do jeans e da camiseta de malha) e minha menina parecia uma bonequinha de trapo perto da sobriedade do vestido preto da Lina, que causou “ohs” e “ahs” ditos à larga pela Dani, quando a viu:

– Lindo, o vestido! É da Renner? C&A? Cantão?

Lina tossiu e disse:

– Dior.

Vem o garçom à mesa:

– Vão aceitar o serviço?

– Claro! – eu disse, sóbrio.

– Alguma bebida, um drink?

Meus olhos brilharam e eu disse:

– Vamos abrir com um Red Label, Fê?

Ele, já contaminado:

– Red? Não tem um 18 anos?

Lina o cutucou, e ele:

– Vai o Red mesmo, então. – e não disfarçou quando muxoxou.

– E duas águas com gás, por favor! – disse a Dani.

– Perrier? – perguntou a Lina.

Agora foi o Fefê quem a cutucou.

– São Lourenço, senhora.

– Vai, vai… – e sorriu, a Lina.

Quando chegaram à mesa as cestas de pães, a manteiga, os patês, a coisa começou a mudar de figura. Como uma víbora ensandecida, a Tijuca começou a percorrer as entranhas de meu irmão e comecei a reconhecê-lo. Propondo um brinde com o copo de uísque numa das mãos, Fefê disse, de boca cheia:

– Adoro esse pão-palito! Adoro esse pão-palito!

Foi quando a Lina, que até então não havia tocado em nada, disse:

– Deixe-me provar…

Ah, meus poucos mas fiéis leitores, a Lina, depois da primeira mordida, transfigurou-se. Provou de todos os pães, lambeu sem cerimônia os beiços, seus olhos brilhavam, ora os fechava e suspirava fundo, e eu tomei coragem:

– Gostou?

– Claro! Lógico!

Fui arrojado:

– Comparável ao couvert do Cipriani?

– Pobre Francesco Carli! – disse a internacional Lina.

Como se demorasse, o garçom, perguntou-me o Fefê, à moda de papai:

– Cadê o garçom? Chama o gerente! Chama o gerente!

Veio à mesa, o garçom. Ofereceu-nos a carta de vinhos e a Dani, que nunca erra, gentilíssima com nossa convidada, escolheu um portentoso vinho argentino. Veio à mesa o vinho e o garçom serviu-nos mais cestinhas de pães com manteiga e patês:

– Trata-se de um complemento, senhores…

Eu, espetado na cadeira:

– Complemento?

Fefê, isaquiano até a medula:

– Chama o gerente, chefe! O que significa complemento?

– Uma cortesia, senhores…

– Ahhhhhhhhhh, bom! – foi o que dissemos eu e o Fefê, em uníssono.

Estávamos na varanda do FIORINO. Chamei a atenção dos três para o que acontecia do lado de dentro, no salão principal, que estava lotadíssimo. Disse, ainda:

– Se eu escrevo isso, dizem que é mentira.

Mal conseguíamos ver o que se passava lá dentro, tal era a quantidade de flashes sendo espocados por casais, famílias, garçons fotografando as pessoas, pessoas fotografando os pratos, um troço. A Tijuca estava ali, baixada, cravada, fincada naqueles tacos daquele salão suntuoso.

Escolhemos os pratos, derrubamos a primeira garrafa de vinho. A Dani, que havia cheirado a rolha da primeira e aprovado diante de um atônito Fefê (“Deixa eu cheirar também, deixa!”), pediu a segunda garrafa (caríssima!). E quando os pratos chegaram, meus poucos mas fiéis leitores, o que foi a reação da Lina????? Êxtase. Encantamento. E incredulidade.

Cada um de nós pediu um prato diferente. O meu, uma massa recheada com coração de alcachofra e presunto di Parma. Minha menina foi também de massa, também recheada, mas com figos e queijo. Fefê pediu massa também, e ela vinha aberta, recheadíssima, parecia um roseiral, na insuspeitada opinião do Romário, o garçom que nos atendia. A Lina, mais elegante que todos nós, pediu um paglia e feno com abobrinha. Comeu de olhos fechados, notei uma lágrima escorrendo à certa altura, perguntei:

– Tudo bem, Lina?

– Tudo… Fui remetida à Emilia-Romagna, na Itália, onde comi um prato como esse, não tão bom, é verdade, mas bem parecido…

Fechamos a noite com a melhor sobremesa do planeta Terra – vá lá e peça! -, café, e uma certeza que jamais me abandonou… Pois se até a Lina, elegante, requintada, viajada, sabida, concordou que o FIORINO é o melhor restaurante italiano que existe, não resta espectro de dúvida.

É, mesmo.

Fazia um frio polar na Tijuca. Partimos não sem antes nos despedirmos na calçada da Heitor Beltrão, o Fefê elogiando as centenárias casuarinas que margeiam o rio Trapicheiros, de cristalinas águas que dão um som mágico à rua àquela altura da noite, e a própria Lina me disse, quando abraçada a mim, antes de partir:

– Obrigada, Edu. Eu amo a Tijuca.

Até.

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A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – VII

Como já lhes disse dia desses, a série A TIJUCA EM ESTADO BRUTO nasceu e ganhou corpo por absoluto acaso, sem que nada tenha sido planejado. Leiam aqui o primeiro da série, texto no qual conto o que vi e vivi numa pizzaria tijucana numa noite de domingo (domingo é o dia mais tijucano da semana!), aqui o segundo, que traz o relato de um jantar no melhor restaurante de comida italiana do país, tijucano, é claro, aqui o terceiro, pequena descrição do encontro de minha mãe com uma amiga de há séculos de vovó, aqui o quarto, narrativa saudosa fruto de um encontro meu com meu concunhado, aqui o quinto, no qual faço uma comparação entre a mãe judia e a mãe tijucana e aqui o sexto, sobre o simpaticíssimo assalto que sofreu vovó, há umas semanas.

Pausa brevíssima: este texto, que pode ser lido aqui, gerou um comentário que, em CNTP, eu não publicaria nem a fórceps. Feito por um homem que assinou PAULO (comentários têm disso, cada um põe o nome que quer…), o comentário me agride de maneira gratuita e agride – o que é pior, é pior! – ao Brasil e à Tijuca, de forma repulsiva. Já disse o que eu tinha a dizer ao sujeito. Se vocês quiserem fazê-lo também, fiquem à vontade. Pigarreio e sigo em frente.

Quero lhes contar, hoje, mais sobre vovó. Dona Mathilde, 84 anos, programadíssima (não pára quieta em casa, e isso de segunda à segunda!), ativíssima, formosa, cheirosa e vaidosa como canta o samba, espírita praticante, tem um único vício. Vou ser mais preciso: vovó mantém vivo um único vício. O vício do jogo. Vou lhes explicar.

Quando eu nasci, vovó morava – quem me lê, sabe – numa vila na rua Professor Gabizo, da qual tenho pouquíssima memória. Lembro-me mesmo, e bem, da vila para a qual ela se mudou (com vovô Milton, minha bisavó, Mathilde, e minha tia Idinha), pouco depois, e que fica (ainda fica) na rua São Francisco Xavier 84.

Nesta casa, cujo acesso se dava por uma escada de mármore branco, em “L”, vovô e vovó usufruíam, e bem, de seus vícios pagãos. Lembro-me com nitidez agudíssima do bar que havia na casa, na sala. Garrafas de cristal guardavam licores de menta, havia diversas garrafas de Teacher´s, o uísque de todos os dias de meu avô, Campari, Martini. Havia sempre maços e maços de cigarro pela casa, vovô fumava Continental e vovó mandava brasa no Hollywood. E isso – a bebida e o cigarro – fazia parte do cenário que vi, incontáveis vezes, armado na casa de meus avós: a mesa de jogo.

Havia sempre jogatina na casa de meus avós. A parentalha, ou os amigos, ou os vizinhos, o que não faltava era parceria. E aquela sala era um tilintar de pedras de gelo, uma cortina de espessa fumaça e um farfalhar das cartas dos baralhos. Eu, criança, admirava aquele mundo de adultos pelo corredor ou através da porta da cozinha, e ficava admirado de ver minha avó, louríssima, fumando desbragadamente, bebendo cerveja, fazendo bigode de espuma e estalando a língua, mandando servir amendoim, azeitona, tilintando o sino de prata que mantinha sobre a mesa pra chamar a Penha (que levava, coitada, os maiores sabões de minha avó!). Uma avó moderníssima – eis a fantasia que eu mantinha em mim.

Passou o tempo.

Vovó, espírita praticante – como já lhes disse – , foi deixando, ao longo da vida, os vícios de lado. Também foram deixando minha avó, a sua mãe, minha bisavó Mathilde, a sua tia, minha tia-avó Idinha, e seu marido, o meu avô Milton. Vovó deixou de fumar – hoje tem ojeriza a cigarro. Nunca mais a vi fazendo bigode de espuma de cerveja, embora – verdade seja dita! – vovó peça, de vez em quando, principalmente em dia de festa, uma dose de uísque, uma taça de vinho, um licor, essas bossas alcoólicas.

Um vício, um único vício – voltando, então -, ela não largou: o do jogo.

Hoje mesmo, pela manhã, bati-lhe o telefone:

– Alô?!

– Oi, vozinha!

– Ô, meu querido!

– Sua benção, minha vó!

E ela, espírita de fazer o Kardec parecer ateu:

– Deus te abençoe, meu filho!

Convidei vovó pra almoçar um cozido no domingo. Mamãe e eu estamos organizando um cozido no Alto da Boa Vista para recebermos em festa um parente de fora que vem passar o final de semana no Rio de Janeiro (não digo quem é, nem a fórceps). E disse-me a vovó:

– Cozido?! De novo?

Eu, sem entender:

– Como de novo, vó?!

E ela, rindo:

– É que no sábado tem biriba na Noêmia, sabe?

– Arrã.

– E ela vai oferecer um cozido para as meninas do carteado…

Noêmia tem 94 anos – era a dona da casa-cenário do conto DEBUTE NO ENGENHO NOVO, leiam aqui – e vovó é a caçula do cassino!

De onde são essas senhoras, meus poucos mas fiéis leitores… de onde?

Salve a Tijuca! Salve a Tijuca!

Até.

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>ALGO A DIZER SOBRE FAUSTO WOLFF

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O jornal ALGO A DIZER acaba de pôr no ar sua edição de número 12, dedicada a esse grande homem que é (eu disse “é”, no presente) Fausto Wolff. Para minha alegria, o ALGO A DIZER reproduz, na íntegra, a entrevista que fizemos com o bardo no BAR BRASIL, na Lapa, em 19 de junho de 2004. E traz, ainda, texto do cada-vez-mais-saudoso Fernando Toledo e de minha queridíssima Áurea Alves. Cliquem na imagem abaixo, divirtam-se e se deixem levar pela emoção.

Até.

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A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – VI

A TIJUCA EM ESTADO BRUTO está virando, confesso, uma série interessante. Leiam aqui o primeiro, aqui o segundo, aqui o terceiro, aqui o quarto e aqui o quinto. Não era pra ser assim, não foi nada planejado, mas a Tijuca tem desses troços, a Tijuca é tão espraiada dentro de quem a ama, a Tijuca ocupa tanto espaço, a Tijuca tem tanta história, que somos flagrados assim, tomados de Tijuca até a alma – e somos obrigados a dividir essas tijucaníssimas emoções, esse afeto tijucano, sob pena de sentirmos dor, inclusive. Pois a Tijuca, meus poucos mas fiéis leitores, a Tijuca machuca. Feito o intróito, em frente.Hoje vou lhes contar uma história – realíssima, eis que sou preciso do início ao fim – envolvendo vovó, dona Mathilde, uma mulher altiva, 84 anos, ativíssima, formosa, cheirosa e vaidosa como canta o samba. Vou lhes contar, mais precisamente, a história de um assalto que vovó sofreu recentemente (o primeiro depois de 84 anos de Tijuca, diga-se!, o que só prova que a violência, na Tijuca, é coisa rara como goiabada-cascão).

Minha avó acaba de sair de seu prédio e vem caminhando pela rua onde mora para tomar um ônibus. Uns 500 metros depois de seu prédio é abordada por um sujeito, na casa dos 30, 35 anos, esbaforido, correndo, aflitíssimo:

– Ô, senhora… boa tarde!

Vovó, que sorri para estátuas, pombos, postes, bancas de jornal – como sorri, a minha avó! -, responde:

– Boa tarde, meu filho. Como é seu nome? – vovó conhece todo mundo pelo nome!

(pequena pausa: eu tenho a impressão de que esse “meu filho” deu ao meliante a certeza do êxito de sua empreitada)

– Ô, senhora… – forjava baforadas de exaustão – É Robson. Vim correndo, seu porteiro bem me disse que eu alcançaria a senhora… Ele bem que me disse que a senhora estava com uma calça branca e uma blusa colorida… Muito simpático, ele… Como é mesmo seu nome? Me esqueci! – e guardou um crachá que trazia pendurado no pescoço.

Vovó, terna:

– Mathilde.

Ele deu um tapa na testa:

– Puxa vida! Como pude me esquecer! O nome da professora que me ensinou a ler… – e fingiu enxugar lágrimas dos olhos.

– Pois não, meu filho…

– Então, dona Mathilde. Eu sou da LIGHT. A senhora não vinha achando sua conta de luz cara?!

– Caríssima!

(pequena pausa: quem paga as contas de vovó é papai, que jura que suas contas de luz sempre foram baixíssimas)

– Pois eu acabo de trocar seu relógio de luz!

Vovó, terníssima:

– Ô, meu filho, ô, Robson…

Estende a mão em direção ao sujeito, faz festinha em suas mãos, e, sendo espírita da cabeça aos pés, diz:

– Deus te abençoe, Robson!

Ele sorriu e disse num sem-pulo:

– Obrigado, dona Mathilde. Mas eu vim correndo não apenas para avisar a senhora, mas… – fingiu constrangimento abaixando os olhos – … esse serviço é pago.

– Oh! É? – e já foi abrindo a bolsa, aflita – E quanto é?

– Quinze reais, dona Mathilde.

Vovó revirou a bolsa e estendeu ao homem uma nota de cinqüenta e duas de vinte:

– Só tenho assim. O senhor tem troco?

– Não tenho, dona Mathilde… A senhora me espera aqui? Posso ir trocar ali no bar da esquina…

– Ô, meu filho, você faz isso? Estou indo para o outro lado.

– Claro, senhora…

(pequena pausa: notem a genialidade do momento, o encanto e a doçura do assalto, só possíveis num assalto na Tijuca)

Vovó estendeu a nota de cinqüenta.

Ele:

– Ô, senhora, me dê a de vinte…

– Não, meu filho! Eu aproveito e já troco essa nota grande!

– Não, não, será mais fácil trocar a de vinte.

Vovó está esperando o homem até agora.

Quando chamamos sua atenção – todos -, vovó disse, sábia:

– Ele precisa mais do que eu. E foi, convenhamos, genial, não foi? Mereceu! Mereceu! Além de tudo, poderia ter ficado com minha nota de cinqüenta… Foi até gentil!

Até.

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