O STUDIUM, O PUNCTUM E O OVO COZIDO

Meu queridíssimo Bruno Ribeiro é tão exagerado e tão amigo dos amigos, que conseguiu elevar um tijucano humílimo, um fotógrafo mais-que-amador e rigorosamente despretensioso, à categoria de autor de pelo menos duas fotografias objetos de estudo. Vejam o que disse o malandro em seu BOTEQUIM DO BRUNO:

“Trata-se do balcão de uma esquina carioca. Chove canivete. E a chuva imóvel, ao fundo, parece emoldurar a cena, além de ser uma pintura. Se a chuva, originalmente, não tem esta cor alaranjada, deveria ter. À esquerda está o paulistano Fernando Szegeri; ao seu lado está o carioca Luiz Antonio Simas; e, na extrema direita, o jornalista Zé Sérgio Rocha (na segunda foto, suas mãos e o ovo). Sabemos que a máquina cristalizou um momento único, em que algo fundamental estava sendo discutido. Em verdade, cantado: o samba-enredo que Simas fez para o Salgueiro. Samba este que, se os orixás e os jurados assim quiserem, irá descer com a escola na Marquês de Sapucaí, no Carnaval do ano que vem. Eis o nosso studium.

Mas Barthes ficaria confuso, talvez, na hora de encontrar o punctum da foto. Pontos de fuga não faltam: pode ser tanto a barba amazônica do Szegeri quanto a careca do Simas. Eu diria que o grande ponto de fuga, no duro, é o ovo cozido na mão do Zé Sérgio. Em ambas as fotos. Os teóricos dirão que o Zé Sérgio, ou melhor, o ovo do Zé Sérgio, prejudica definitivamente o studium da imagem. “Se aquelas mãos, colocando uma pitada de sal naquele ovo, não aparecessem na segunda foto (ouço daqui os semiólogos dizerem), esta seria uma grande foto”. Eu digo, porém, que é justamente o ovo cozido nas mãos do Zé Sérgio Rocha que faz desta uma grande foto. O ovo dá o toque tijucano à obra-prima de Eduardo Goldenberg – é detalhe invasivo, tosco, alheio à emoção que a lente da máquina captura. O ovo acaba com qualquer tentativa de afrescalhar a análise sobre um simples bate-papo de buteco. O ovo, pois, é essencial para a compreensão não apenas da cena, mas da alma peculiar da Tijuca. Punctum, diria o Zé Sérgio, é o que se faz depois de comer o ovo…”

Leiam, na íntegra, aqui.

Até.

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6 Comentários

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6 Respostas para “O STUDIUM, O PUNCTUM E O OVO COZIDO

  1. >Existe cena que melhor represente um buteco do que comer ovo cozido ??? Acho que só jogar sal nas costas da mão e lamber.

  2. >RESPOSTA DE ZÉ SERGIO CELIDÔNIO: Não, Monica, não é de bom tom, estando num pé-sujo, jogar o sal nas costas da mão e lamber. Este ritual é muito sofisticado, de bebedor de tequila. Faz isso no Belmonte, no Garcia e Rodrigues e em outras lojas do ramo. Ovo de botequim, a gente quebra (a cabeça de cima ou a de baixo) na borda do prato ou (adeptos mais radicais) na quina do balcão. Em seguida, dá-lhe uma boa soprada, tomando cuidado para que os perdigotos não provoquem vítimas fatais. Com esse sopro, a casca da porra do ovo vai se soltando. Aí, tu coça o ovo com a unha pra que aquela merda toda desgrude. Com o ovo totalmente descolado de seu perispírito, termina a fase pré-sal. É a hora de temperar o melhor produto que o cu da galinha já produziu. Com a mão esquerda (se for canhoto), a gente segura o ovo. Com a direita, o saleiro, que deve estar na posição perpendicular em relação ao supremo manjar. Sacode-se vigorosamente a bosta do saleiro (operação que pode levar um tempo maior, caso seja um saleiro da famosa grife Filho da Puta, aquele que tem lama sal nos furinhos, impedindo a passagem da especiaria) em cima da cabeça do ovo. É o chamado sal a gosto, pois tem gosto pra tudo. Em seguida, dá-lhe a primeira abocanhada, que deve ter o impacto suficiente para mandar pro bucho pelo menos metade do ovo. A partir daí, o processo pode ser doloroso. Explico: se for o saleiro Filho da Puta, é bem possível que na hora de jogar o sal de novo, os furingos já estejam desassoreados, e neste caso, quando tu jogares o sal novamente, pode acontecer uma tragédia – a merda do sal todo sair de uma só vez. Esse tipo de percalço é comum no saleiro Filho da Puta que, a partir desse momento, ganha novo nome. Passa a ser chamado de Puta que o Pariu. Dito o palavrão para relaxar, e estabelecer empatia com os demais fregueses e com o balconista do buteco, pega-se o ovo e, com a mão mesmo ou com o auxílio de um talher (faca, colher, garfo, colher de pedreiro, chave de fenda, o que tiveres a mão), tu limpa o excesso de sal. Uma vez constatada a inexistência de petróleo sob a camada salina, uma vez verificando-se que trata-se apenas da metade do ovo que tu não teve competência para comer ainda, enfia o dito cujo goela abaixo. O ritual termina com um gole de cerveja e, se você estiver em algum país asiático, um belo de um arroto. É simples.

  3. >Zé Sergio, meu irmão: é por isso, querido, é justo por isso, por conta dessa sua extrema gentileza e doçura, que uma ida ao buteco com você é uma experiência danada de boa!Genial a descrição do modus operandi!Abração.

  4. >kkkkk Zé Sergio, para que você saiba, nunca bebi tequila na minha vida , só bebo cerveja e toda vez que lambi sal nas costas da mão é por estar dura sem dinheiro para o tira gosto e sempre foi instintivo, e o saleiro é deste mesmo que entope, e os caras botam arroz mas não adianta nada.O meu jeito pra descascar o ovo é colocar deitado no balcão e abrir a palma da mão e rolar ele pra e pra cá, até soltar a casca toda , que com meu unhão tiro de uma só vez. Destes butecos daí que tu sugeriu só fui ao Belmonte do Flamengo , quando não era franquia depois de beber todas as latinhas existentes na barraca do Miltinho do “Azul” na praia conhecida como brejo e fui tirar onda de madame e beber “chope”, que aliás , só deu pra pagar dois de saideira. Nada comi como de costume.Portanto caro amigo , como vês quando tu vinha com teu ovo eu já voltava com a galinha. (com todo respeito claro) . Um grande abraço , adorei sua explicação.

  5. >Rolar ovo no balcão também vale, mas só é recomendável sem muita uca, senão cai igual aquele samba da mãe solteira, com a gema parecendo uma tocha humana. Saudações ovo-galináceas.

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