A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – X

Não é demais repetir! A série A Tijuca em estado bruto nasceu e ganhou corpo por absoluto acaso, sem que nada, rigorosamente nada, tenha sido planejado. Eu, que sou modesto como um frade franciscano, recomendo a leitura de toda a série! Leiam aqui o primeiro da série, texto no qual conto o que vi e vivi numa pizzaria tijucana, O Forno Rio, numa noite de domingo (domingo é o dia mais tijucano da semana!); aqui o segundo, que traz o relato de um jantar no melhor restaurante de comida italiana do país, tijucano, é claro, o Fiorino; aqui o terceiro, pequena descrição do encontro de minha mãe com uma amiga de há séculos de vovó; aqui o quarto, narrativa saudosa fruto de um encontro meu com meu concunhado, no Salete, na Tijuca, evidentemente; aqui o quinto, no qual faço uma comparação entre a mãe judia e a mãe tijucana; aqui o sexto, sobre o simpaticíssimo assalto que sofreu vovó, há umas semanas; aqui o sétimo, sobre os vícios de minha avó; aqui o oitavo, sobre o jantar que ofereci à Lina, minha querida cunhada, no já citado melhor restaurante italiano do Brasil e aqui o nono, dando início aos relatos envolvendo o médico homeopata de minha família.

Hoje quero lhes contar mais sobre nosso médico homeopata, o doutor Lauro. O doutor Lauro, a quem a família inteira, vivos e mortos, atribui o milagre da cura de minha mãe – que teve tifo aos três anos de idade -, jamais admitiu amortecer, sobre seus próprios ombros, o peso que minha parentalha, na íntegra, tinha (e tem) como incontestável. Basta alguém soprar, baixinho que seja, o nome do doutor Lauro e começam os murmúrios com as mãos espalmadas para o alto – “Um santo homem!”, “Um sábio!”, “Um verdadeiro espírita!”, “Salvou a Mariazinha!”, “Trata da Maricota desde os três anos!”, essas bossas médico-patrióticas.

Curioso é que meu pai, meu amado pai, que evidentemente não conhecia mamãe quando ela teve o tifo, nutriu, ao longo da vida (ainda nutre, o doutor Lauro é que não clinica mais), desde que o conheceu e à sua história, verdadeira adoração, febril idolatria, preocupante fixação no médico homeopata de hábitos simples.

Se você, meu caro leitor, esbarrar no meu velho pai por aí (papai anda pela Tijuca diariamente), diga que lê o Buteco, abra um sorriso franco em direção a ele, pouse uma das mãos em seu ombro e pergunte:

– E o doutor Lauro, Isaac?

E você ouvirá:

– Tá fazendo uma tremenda falta…

Papai é desses homens que anda com frases prontas no bolso. Experimente:

– Issac?! E a Noêmia?

– Uma lutadora! Eu gosto da Noêmia! – e abrirá um sorrisão.

Pausa para lhes contar uma recentíssima de papai (como vocês sabem, escrevo em ritmo febril, quase-mediunicamente, então vocês têm de me perdoar, vez por outra, esses arroubos, essas idas-e-vindas, essas mudanças bruscas de assunto). Estávamos, no domingo passado, reunidos em torno desse portento que é Fernando José Szegeri, na casa de papai e mamãe, no Alto da Boa Vista. Mamãe preparou, para homenageá-lo, um cozido, a geladeira estava cheia de cerveja, de vinho verde (do branco e do tinto), o uísque jorrando das torneiras da sala, até que papai pediu silêncio com o copo estendido. Iria fazer um discurso (e esse pequeno discurso, apenas ele, justificaria estar, o texto de hoje, na série A Tijuca em estado bruto):

– Quero propor um brinde, primeiramente, à minha mulher! Um brinde a você, Dani, minha nora amada, eu amo você! Também amo você, Lina! Obrigado por tudo!

Papai tropeçava nas sílabas, uma garrafa de Red Label já tinha ido embora. Ele continuou, soluçando de leve:

– Um brinde, meus filhos… Dudu… Nando… e Szegeri, meu filho que veio de São Paulo…

O Szegeri começou a chorar. Papai prosseguiu:

– Um brinde, Cacá! Meu irmão! Meu irmão! E um brinde, por fim, a você, Verinha, minha querida… Um beijo!

Ele ia se sentar quando eu o interpelei:

– Pai? E a vovó?!

Vovó estava cabisbaixa, ao meu lado, e chegou a dizer baixinho:

– Deixa pra lá, Dudu, deixa pra lá…

E meu pai, espetando o copo em direção à sogra:

– Sua vó está quase todo dia aqui, pô! – e estatelou-se, às gargalhadas, no sofá.

Vamos voltar às reações de papai com relação ao doutor Lauro.

Assim que papai conheceu mamãe (leiam Papai arremessado ao passado para entenderem um bocadinho a história dos dois, aqui), num dos primeiros lanches de domingo na casa de meus avós – papai e mamãe eram vigiadíssimos! -, vovó passava manteiga num brioche para meu avô quando lembrou, num estalo:

– Ih, meu Deus do céu! Está na hora do meu remédio!

Deixou o brioche esperando, abriu a gaveta da cômoda ao lado da mesa, tirou o vidrinho de Bryonia, encestou duas bolinhas na tampa de rosca do vidro escuro e pôs as duas, num arremesso, na boca. Disse pra si mesma, fechando o vidro:

– Hora em hora, Mathilde, não esquece!

Papai, querendo puxar assunto com a futura sogra, fincando uma fatia de mortadela com o garfo:

– Homeopatia?

Vovó, com o rosto iluminado e pondo uma das mãos sobre a mão direita de minha mãe:

– Sim, meu filho. Tratamos com a homeopatia, graças ao doutor Lauro, que salvou a vida da Mariazinha quando ela tinha três anos e teve o tifo…

E contou, durante todo o lanche, a história que eu também já lhes contei aqui.

Papai, que sempre foi um emotivo contido, chorou diante do relato emocionado de minha avó. Meu avô, homem de poucas palavras, concordou durante todo o tempo, assentindo com a cabeça, dando ares de verdade incontestável a cada palavra que vovó dizia. E mamãe, por sua vez, não escondia a satisfação diante da sensibilidade do namorado. Papai quebrou o silêncio:

– Tem que tirar o chapéu pro doutor Lauro…

– Se tem! – disse vovó.

Mamãe sorriu e meu avô reclamou seu brioche.

Foi nesse dia, então, que papai ouviu, pela primeira vez, o nome do doutor Lauro.

Julho chegou e com ele papai pegou uma gripe. Foi ao lanche dominical na casa de meus avós. Vovó abriu a porta – era sempre minha avó a abrir a porta de casa para meu pai – e deu de cara com o nariz vermelho de meu pai (papai tem um senhor nariz). Foi dar os dois beijinhos no namorado da filha única e ele, gentil:

– Não, dona Mathilde! Estou com uma gripe daquelas! E uma febrícula desde cedo…

Mamãe levantou-se preocupada (ainda sofria as conseqüências do trauma do tifo). Vovó disse:

– Você está medicado, Isaac?

Ele fez que não com a cabeça enquanto assoava o nariz com seu lenço azul e branco.

Vovó em direção à mamãe:

– Mariazinha! Vá lá dentro buscar papel e caneta!

Mamãe voltou à sala e minha avó, depois de escrever no tal papelucho, estendeu-o a meu pai:

– O telefone do doutor Lauro! Marque uma consulta para amanhã, meu filho!

Papai:

– Doutor Lauro…

E olhando ternamente para mamãe:

– … o homem que salvou sua vida!

E vovó, já caminhando pelas sendas do espiritismo:

– Graças a Deus!

Ficaram os três de conversa na sala – meu avô ouvia o noticiário no rádio num canto, sem tirar os olhos do casal de pombinhos – até que minha avó, depois do quinto espirro de meu pai, disse:

– Vou ligar pra casa do doutor Lauro! Você está muito mal, meu filho!

Papai:

– Mas hoje é domingo, dona Mathilde, não há urgência, amanhã eu mesm…

Vovó já estava pendurada no gancho:

– Doutor Lauro? Oh, doutor Lauro, que Deus o abençoe… Me perdoe estar ligando num domingo… – e ficou espetando o polegar em direção ao teto anunciando o êxito da ligação.

Papai espirrou.

– Oh, doutor Lauro… O senhor ouviu? É o Isaac, doutor Lauro, namoradinho da Mariazinha, sabe? Está com uma gripe daquelas!

Fez cara de suspense:

– Sei, sei, sei. Tenho sim, doutor Lauro! – fez sinal com a mão pedindo papel e lápis mais uma vez.

Papai levou o mesmo papelucho, e o lápis:

– Aconitum… sei… Bryonia e Belladona! – o polegar espetadíssimo, quase eufórica.

Pôs a mão no bocal do fone e disse:

– Mariazinha, minha filha, pegue lá, na cesta dos medicamentos! Tome! Tome! – e lhe estendeu o papelucho.

Continuou:

– Oh, doutor Lauro, muito obrigada! Que Deus abençoe o senhor! Amanhã, então, o Isaac irá vê-lo!

E sendo moderna, disse sorrindo em direção a meu pai:

– O.K., doutor Lauro? Um abraço, doutor Mauro, lembranças à família, o Milton e a Mariazinha estão mandando um abraço para o senhor!

E desligou.

Mamãe chegou de volta com os medicamentos. Vovó, zelosa, explicou a meu pai, calma e pausadamente, como ele teria de tomar os remédios. E disse, colocando-os em fila na mesinha de centro:

– Comece agora, meu filho! Comece agora!

Lancharam, papai parou de espirrar – “E ainda dizem que a homeopatia é lenta!”, disse vovó, quase-fanática -, e quando foi haver a despedida, falou, maternal:

– Leve os remédios, meu filho. Continue tomando, agora de meia em meia-hora. Amanhã, quando você sair do doutor Lauro, passe por aqui, devolve esses remédios e aproveita para nos dar notícia acerca de seu quadro!

Mamãe achava aquele cuidado da própria mãe com seu namorado, uma benção. E seus olhos deixavam isso muito claro.

Papai despediu-se com um aceno de meu avô – que nada disse -, despediu-se de mamãe (não podiam ir, sozinhos, ao portão da rua), e quando ia estender a mão em direção à vovó, ela lhe disse:

– Espia! Espera um minutinho!

Sumiu pelo corredor e voltou, ligeira:

– Meu filho, vá com Deus e que Jesus te acompanhe até em casa. E… – pigarreou – … tome. Espero que você goste. Não há pressa. Depois você devolve.

E estendeu, sorrindo, um exemplar do Livro dos Espíritos, o mesmo que ganhara, anos antes, do doutor Lauro.

Papai o pôs debaixo do braço. Vovó:

– Alguma coisa contra, meu filho?

– Muito pelo contrário, dona Mathilde, muito pelo contrário…

Tomou a direção do portão, deu o último adeus da noite, e vovó, suspirando e fechando a porta:

– Um bom rapaz, o Isaac… Graças a Deus, minha filha, graças a Deus!

Até.

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10 Comentários

Arquivado em Rio de Janeiro, Tijuca

10 Respostas para “A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – X

  1. >Que série! Grande série! Sensacional, mano! Dá-lhe Tijuca, porra! Tijuca neles!

  2. >Boa tarde,Como sempre fico aqui sorvendo os textos e achando tudo lindo igual uma bobona que se derrete quando o assunto é família grande , família reunida, até pelo fato de ter uma enorme , pois só entre meninos e meninas tenho quatro e quando o meu “núcleo” se é que posso chamar assim, se reúne já vira uma festa. Acho “lindo, lindo.lindo” de verdade estas reuniões , manifestações carinhosas que o pai fez e ter o dom de descrever isto de forma perfeita a emocionar quem lê , é um privilegio. Eduardo parabéns pelos serviços prestados aos leitores. Indiquei o Buteco para meu menino de 12 anos que dos quatro é o mais apaixonado por literatura , apesar da pouca idade acho que ele vai se identificar com o que você escreve. Ele escreve parecido.O seu “Dr. Mauro” me lembrou um pouco o Dr. Mário da Rocinha que tinha uns 2000 afilhados que ele havia ajudado a colocar no mundo. Como anda a “saga” da Matoso ? Um abraço.

  3. >Monica: amanhã, primeiro de outubro de 2008, entra no ar a série sobre a rua do Matoso. Espero que você goste. Um abraço.

  4. >Não tenho a menor dúvida de que vai ser muito bom , pois o próprio tema já faz parte de um trabalho que desenvolvo a algum tempo , não especificamente da Tijuca , mas do Rio de Janeiro. A Matoso e adjacências por fazer parte da minha infância/adolescência e com certeza virão acompanhados de ótimos textos, observações e fotos. Bom, assim imagino.

  5. >Absurdamente sensacional! Como também sou Tijucana quero Ctrl + c, Ctrl + v, no meu blog, que é sobre o Rio, posso? Ainda não escolhi qual da série. É difícil! Abraço,

  6. >Aline: esse é o pedido mais inusitado que já recebi! Vamos lá. Acho melhor, antes de mais nada, você me escrever me contando qual o endereço de seu blog, não acha? Meu email é edugoldenberg@gmail.comMais: há, se o assunto interessa a você, no BUTECO, muito mais sobre a Tijuca, além dessa série A TIJUCA EM ESTADO BRUTO, que na verdade é uma coletânea de histórias pessoais não tão abrangentes quanto as demais.Reconheço, entretanto, sua gentileza com a pergunta. Nesse mundo virtual, neguinho não tem pudor, não.Chupa a produção alheia, cola, e nem dá o crédito.Me escreva.Um abraço, e seja bem chegada ao balcão.

  7. >Se a menina não se incomodar , e não querendo abusar do seu espaço Edu, abordagens sobre o Rio antigo por exemplo me interessam , se for o caso meu email é monicaalbuq@hotmail.comObrigada.

  8. >Muito bom Eduardo, sou um leitor inveterado e os seus textos são uma delícia de lêr.Abração camarada!!!!Ps: Qdo elegerem o substituto do RB avisa aqui no Blog pra eu passar lá, toma umas e conhecer vcs pessoalmente.

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