A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – IX

A família tijucana tem, com seu médico (que é, imprescindivelmente é, o médico da família), uma relação visceral, de dependência emocional até – eu diria. A minha, é claro, tijucana que é de forma aguda, tem o seu. E tem o seu, quero lhes dizer, desde os anos 40.

Estive em seu consultório esta semana. Eu disse em seu consultório, mas fui atendido por seu filho (também já o fui por seu neto!!!!!). O doutor Lauro é, até hoje (está vivo, vivíssimo, mas não clinica mais), uma espécie de mito da família. Seu consultório, portanto, que fica – creio ser desnecessário dizer – na Tijuca, é uma espécie de Meca para a qual se voltam, meus parentes todos, a cada febrinha, a cada tosse, a cada problema qualquer de saúde. Seu filho e seu neto atendem, evidentemente, no mesmíssimo consultório, que é humilde e simples como a morada de um franciscano. Vou lhes contar a origem do mito.

consultório médico, foto de Eduardo Goldenberg

Meus irmãos, o Fefê e o Cristiano, são testemunhas oculares e auditivas do que vou dizer. A história, que passo a lhes contar, nós já ouvimos milhares de vezes. E não, meus poucos mas fiéis leitores, eu não estou exagerando, como pretendem, sempre, os que têm mania de me denegrir, fazer parecer. Vovó Mathilde e mamãe – principalmente as duas, embora papai seja um dos mais fanáticos pelo doutor Lauro – repetem sempre essa história, com os olhos espetados pra fora, com as mãos em atrito como se o suspense fosse inédito, com a respiração ofegante, com a voz alterada, com o pranto semi-pronto esperando a comoção do ouvinte.

Antes, porém, um detalhe.

Quando, durante um almoço de família qualquer, alguém, por acaso (não há acaso, na verdade, o nome dele é SEMPRE lembrado) cita seu nome, vozes em côro repetem:

– Trata da Mariazinha desde que ela tinha três anos!

Pois bem: mamãe tinha três anos e ardia em febre na casa da Gonçalves Crespo. Vovó e vovô, minha bisavó e meu bisavô, a parentalha toda (moravam todos na mesma casa!), revezava-se na novena que ardia na sala (vovó não era, ainda, a espírita convicta que é hoje), passando os terços de mão em mão, na esperança de uma solução.

Havia um desfile de automóveis na porta de casa, dos quais saltavam médicos portando maletas, estetoscópios e termômetros – doutor Oscar, doutor Borborema (cujo nome revi, anos depois, num romance do Nelson Rodrigues), doutor Benevenuto, doutor Jacinto, e muitos mais.

Os diagnósticos eram díspares, os remédios não surtiam efeito, os dias se passavam com mamãe ardendo como um círio num catedral em ruínas (apud Vinícius de Moraes), até que minha tia Linda, irmã de vovó, que – católica apostólica romana de fazer o Santo Papa parecer um ateu relapso -, em transe mediúnico (ninguém desconfiava, naquela casa, àquela época, o que fosse isso), disse:

– Chamem um homeopata!

Houve uma vaia coletiva em acintoso desrespeito com o ambiente tenso que assaltava aquele lar em aflição. Meu bisavô, que era a palavra mais ouvida naquela casa, disse:

– E por quê não?

Todos concordaram, em segundos, e foi um corre-corre em busca do nome de um homeopata.

Foi tia Linda, ainda debruçada sobre a mesa da sala, com a voz embargada, que disse para surpresa de todos:

– Chamem o doutor Lauro.

E disse o número de um telefone.

– Linda enlouqueceu! – gritou tio Hique.

– Lelé, coitada! – emendou tio Sílvio.

– Estou muito mal parado… – lamentou tio Beneval, seu marido.

E meu bisavô:

– Chamem!

A questão é a seguinte: os diagnósticos eram – como eu lhes disse – díspares. Falou-se em sarampo, em coqueluche, em rubéola, em escarlatina, até em caxumba, diagnóstico dado por um médico ligeiramente alcoolizado chamado às pressas.

Meu bisavô foi ao telefone e, cercado pelos filhos (do mais velho para o mais novo, Francisco, Sílvio, Carlinda – já refeita do transe -, Mathilde e Carlos Henrique), bateu o telefone pro tal médico.

Em nome da precisão, devo lhes dizer que não estão na lista acima a Silvinha (morta com cinco dias de vida), a Mariazinha (morta aos 15 anos, de quem mamãe herdou o nome e o pânico por festas de debutante, um dia desses lhes conto sobre isso) e o Pedrinho, que chegou depois.

Eis o que a parentalha pôde ouvir:

– Boa noite, doutor Lauro. Precisamos urgente que o senhor nos faça uma visita domiciliar! Mariazinha, minha neta, está mais pra lá do que pra cá!

Houve uma balbúrdia à qual ele pôs termo com uma pisada vigorosa nas tábuas do piso.

– Não, doutor Lauro. Não sabemos. Há vários diagnósticos. Mas a menina não melhora. E a febre está na casa dos quarenta e um graus!

Novo princípio de tumulto e um grito ao telefone:

– Como graças a Deus, doutor Lauro?!

Vovó teve um princípio de desmaio, meu avô anunciou que mataria o tal médico à bala, e meu bisavô continuou:

– Tome nota! Tome nota!

E passou o endereço ao doutor Lauro.

– O quê te pareceu, Eugênio? – minha bisavó com o terço nas mãos.

– Diga, papai! Passou-lhe confiança?

Ele deu de ombros e sentou-se – todos se sentaram – à espera do doutor Lauro.

Uma hora depois, soa a campainha.

Meu bisavô faz um sinal e anuncia que vai sozinho ao portão. Dá de cara com um rapaz novo, bonito, até – vovó sempre elogia a beleza plástica daquele médico em sua primeira aparição – , formalmente vestido, uma pequena maleta numa das mãos e um sorriso sacrossanto no rosto plácido. Cumprimentaram-se e doutor Lauro foi levado à sala:

– Doutor Lauro? Esta é minha filha, Mathilde, e esse é meu genro, Milton, os pais da Mariazinha. Eles irão acompanhá-lo à câmara mortu…

Minha bisavó soltou um “oh” agudíssimo e meu bisavô, depois de um poderoso pigarro, consertou-se:

– … ao quarto, doutor Lauro. Boa sorte.

A família sempre usa essa imagem: nem na Copa de 50, depois do fiasco da Seleção Brasileira diante do Uruguai, viu-se tamanho silêncio, tamanha depressão, tamanha ansiedade pelo que viria. Os minutos se passavam e apenas a tosse de minha mãe interrompia o silêncio.

Uma hora depois saem do quarto meus avós e o doutor Lauro.

– E aí, doutor?! – um sôfrego Eugênio, de pé, perguntou – Como está minha neta?

– Graças a Deus está bem, senhor Eugênio. O que a Mariazinha tem é tifo.

Foi um deus-nos-acuda.

Médicos experientes haviam passado por ali, catedráticos, donos de laboratório, e ninguém dissera a palavra “tifo”.

– Tifo? – o côro de vozes.

– Ela vai ficar boa, senhor Eugênio!

– Já estou com os nomes dos remédios, papai! – disse vovó, esperançosa.

– Vamos? – disse meu avô.

Doutor Lauro se comprometera a ir até a casa do farmacêutico e de lá até à farmácia (tudo na Tijuca!!!!!) para o preparo dos medicamentos. Passava das dez da noite.

À meia-noite em ponto entra em casa meu avô trazendo os remédios homeopáticos, doutor Lauro a seu lado, e ele explica, com tranqüilidade comovente, à toda a família, o modus operandi do tratamento homeopático.

Vovó o acompanha até o portão:

– E quanto lhe devemos, doutor Lauro? Oh, estou tão grata…

– Nada, dona Mathilde. Fiquem com Deus… – e estendeu para minha avó, tirando-o da pasta, um exemplar do Livro dos Espíritos.

A família passou a noite se revezando na administração das duas bolinhas, alternadas, de quinze em quinze minutos, e já pela manhã minha mãe, suando em bicas, não tem mais febre.

Em questão de dias, depois de desenganada, mamãe estava boa, sarada, serelepíssima.

E vovó, para sempre, fanática pela devoção, pela dedicação, pela competência e pela grandeza do doutor Lauro.

Começou assim, meus poucos mas fiéis leitores, a história que une minha família a esse grande médico (fiz brevíssima e discretíssima menção a ele, aqui).

Há mais, muito mais para lhes contar sobre o assunto. Aguardem.

Até.

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